• Dilvo Ristoff

WISE: tecnologia solidária



Em 2010, no segundo encontro da WISE (World Innovation Summit for Education ou Cúpula Mundial para a Inovação na Educação), tomei conhecimento do lançamento do Prêmio WISE para a área da educação. O prêmio, como bem lembraram à época os seus patrocinadores, tinha por objetivo dar à educação um prestígio equivalente ao de outras áreas do conhecimento − literatura, física, medicina e economia, por exemplo. O prêmio seria uma espécie de Nobel da Educação. A intenção expressa era de identificar projetos que representassem significativa inovação na área educacional, ajudando a construir uma educação futura que servisse de base para “um mundo mais seguro, próspero e sustentável”.

Pois resolvi dar uma olhada no que ocorreu ao longo desses anos. De pronto, pude observar que várias dezenas de projetos de todos os continentes foram premiados no período, embora nenhum que tivesse recebido atenção minimamente semelhante à de um prêmio Nobel. Tendo participado do encontro de 2009, quando Sugata Mitra e seus computadores em Buracos na Parede e Biz Stone, um dos criadores do Twitter, dominaram a cena e, depois, no ano seguinte, quando o Ipad havia se tornado o novo xodó, a minha expectativa era a de que os projetos distinguidos estariam recheados da mais alta tecnologia. O que pude observar, no entanto, é que os projetos premiados são basicamente de outra natureza.

Um dos destaques, por exemplo, é o projeto de Rosenstock, a High Tech High, que buscou eliminar as barreiras entre o ensino acadêmico e o técnico, melhorando o status da formação vocacional e técnica nos EEUU. Rosenstock dedicou especial atenção ao redesenho da legislação para o setor, ajudando, assim, a conseguir mais recursos para esse tipo de ensino. As matrículas em suas escolas passaram a ser determinadas não por processos seletivos, mas por sorteios que utilizavam o CEP do aluno como base. Trata-se, portanto, antes de tudo, de um projeto de inclusão, mas os dados indicam que é também um projeto com respeitável qualidade acadêmica, pois Rosenstock conseguiu que 98% de seus alunos ingressassem em universidades, contra a média nacional, que é de apenas 69%.

Livro falante

Outros exemplos: as Solar-Powered Floating Schools, as escolas flutuantes de Bangladesh, movidas a energia solar e que asseguram a continuidade das aulas mesmo durante períodos de tempestades e enchentes periódicas que assolam o país. As escolas flutuantes combinam o ônibus escolar com a escola, pois os barcos recolhem os estudantes das comunidades ribeirinhas e lançam âncora num determinado ponto onde os alunos têm as suas aulas em pequenos grupos. Depois das aulas, o barco leva os alunos de volta às suas casas. Cada barco possui uma sala de aula para 30 alunos, um laptop conectado à internet, além de uma biblioteca e recursos eletrônicos, ofertando ensino para alunos até a quarta série. Ao voltarem às suas casas, os alunos levam consigo uma lâmpada de baixo custo, carregada com energia solar, o que lhes permite estudar à noite. Permite também que as mães dos alunos façam os seus bordados e, assim, melhorem a renda da família. O projeto já atendeu mais de 70 mil crianças.

Outro projeto interessante é o Talking Book (O livro falante), de Gana. Em parceria com o governo local e organizações não governamentais, o projeto produz e grava, em áudio, lições consideradas oportunas e relevantes sobre como cultivar a terra e sobre cuidados básicos que as pessoas devem ter com a saúde. As lições, apresentadas na língua das comunidades locais, assumem a forma de entrevistas, dramatizações, canções e estórias que são gravadas nos livros falantes — espécie de computadores-gravadores de baixo custo que são distribuídos nos vilarejos a pessoas que não sabem ler ou escrever e que, em muitos casos, não têm eletricidade em suas casas, fazendo, portanto, uso de baterias de zinco-carbono, de baixo custo, disponíveis nos mercados locais.

E assim há dezenas de outros projetos: o Technology-Based Deaf Education, ou seja, a educação de surdos centrada no uso da tecnologia, do Paquistão; as pré-escolas dos vilarejos empobrecidos da China, vítimas do êxodo rural; o SueñaLetras, do Chile, que ensina a escrita para surdos por meio de atividades e da linguagem de sinais, e o PSU, uma plataforma gratuita on-line que funciona como uma espécie de pré-vestibular chileno para estudantes carentes; O MIT Open Course Ware, um site que disponibiliza, gratuitamente, os materiais instrucionais do Massachussets Institute of Technology, contendo planos de ensino, anotações de palestras, trabalhos dos alunos, testes e exames aplicados e o currículo de praticamente todos os cursos de graduação ofertados pela instituição; o RoboBraille, da Dinamarca, que converte textos de materiais instrucionais em Braille, em arquivos de MP3, em livros de áudio, em e-books – um projeto voltado para cegos, deficientes visuais ou pessoas com necessidades especiais; o Little Ripples (Marolas), dos Estados Unidos, que objetiva empoderar as mães de famílias de refugiados a implementarem uma educação culturalmente inspirada para poder dar, assim, melhor apoio socioemocional e cognitivo aos seus filhos; o Me & MyCity (Eu e minha cidade), da Finlândia, com cidades miniaturizadas, que reproduzem realidades locais, onde os estudantes do sexto ano trabalham, ganham um salário e atuam como consumidores e membros da sociedade; o Ideas Box (Caixa de ideias), da França, uma espécie de biblioteca sem fronteiras, móvel, assentada sobre paletes, equipada com computadores, acesso à internet, tablets e games, câmeras e cinema móvel destinado às populações vulneráveis, etc. etc. etc.

Solidariedade

Em outras palavras, ao contrário do que se poderia imaginar, os projetos vencedores não estão, nem de longe, relacionados às novas e mais sofisticadas tecnologias e, quando estão, possuem invariavelmente um forte componente de solidariedade humana, de busca de inclusão de pessoas carentes, marginalizadas, oprimidas ou perseguidas. O que se observa mais claramente é que, entre os principais vencedores, estão simplesmente projetos que (1) busquem superar desigualdades sociais pela educação e que ajudem jovens pobres a superar deficiências de aprendizagem; (2) assegurem igualdade de oportunidades e integrem jovens historicamente segregados, quer por motivos de cor, renda familiar ou outros; (3) promovam a inclusão educacional e o empoderamento de meninas e mulheres; (4) promovam a integração de portadores de deficiências de qualquer ordem; e (5) afirmem os valores da cidadania. Fica claro que os vários projetos que fazem uso ostensivo das novas tecnologias de informação e comunicação foram premiados menos pela tecnologia em si e muito mais pelo seu alcance social e compromisso com a solidariedade humana.

Os projetos reúnem ainda outras características importantes: (1) promovem o ensino centrado em projetos, estimulando a aprendizagem com as mãos na massa, ou seja, com forte presença da prática; (2) são interdisciplinares; (3) propõem-se a romper com o apartheid entre as escolas, as comunidades e o mundo real; (4) valorizam a construção de parcerias duradouras e criativas entre docentes e profissionais de outras áreas do conhecimento; (5) preocupam-se com a sustentabilidade; (6) enfatizam a aprendizagem interativa, a solução de problemas, a cooperação e as habilidades de comunicação; e (7) parecem ter propósitos sempre muito claramente definidos.

Os 15 projetos finalistas de 2020 acabam de ser divulgados e estão na página da WISE. Destes, seis serão escolhidos até outubro e premiados no mês de novembro. Se você estiver interessado no que estão propondo na Finlândia, na Bélgica, no México, em Camarões, na Barefoot University (Universidade dos Pés-Descalços), da Índia, ou em outras partes do mundo, visite a página da WISE. Há ali alguns bons exemplos de aplicação das novas tecnologias de informação e comunicação à melhoria da educação e muitos exemplos de projetos que buscam reduzir o sofrimento dos pobres e excluídos. É a educação se firmando como um espaço de encontro entre a tecnologia e a solidariedade.


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Doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos, Dilvo Ristoff

foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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