• João Batista Oliveira

Virtudes da escola e ensino a distância

Atualizado: Ago 16



Nos posts anteriores (leia aqui, aqui, aqui e aqui), colocamos em evidência a relação entre a fôrma e os ingredientes do bolo: a escola, enquanto instituição, possui mecanismos desenvolvidos ao longo de séculos que se comprovaram adequados para cumprir a sua principal função, que é a de promover o desenvolvimento cognitivo das crianças.

Hoje sabemos que esses mecanismos estruturais e não cognitivos são meritórios em si e importantes para os indivíduos e para a formação de capital humano. Mas também sabemos que há outras formas eficazes de ensino – que não apenas o ensino presencial. O fato de que a escola brasileira, especialmente a escola pública, não vem cumprindo seu papel de maneira adequada não tira a validade dessas afirmações.

Nos próximos anos, caberá à escola assimilar e digerir esses novos desafios. O 'velho normal', embora consistente em seus pilares, não funcionou no Brasil por uma série de razões. A mais importante é que as políticas adotadas não conseguiram atrair e manter no magistério jovens de alto talento – matéria-prima essencial para que a escola possa mostrar o seu insuportável brilho, na bela releitura que Olga Pombo faz da análise de Hannah Arendt sobre a crise da educação. Portanto, o 'velho normal' não constitui um bom ponto de partida. Mas não é esse o foco desta série de posts.

Repensar a escola


O desafio apresentado é duplo. De um lado, a pandemia nos deu oportunidade de refletir sobre as condições que levam o bom ensino presencial a funcionar. De outro, deixou claro que o ensino a distância não consiste apenas em reproduzir o modelo de ensino presencial: seu êxito vai depender de nossa capacidade de entender o que torna eficaz o ensino presencial e de aprender a utilizar as possibilidades da tecnologia para (a) fazer o que não conseguimos no ensino presencial e (b) incorporar às tecnologias as práticas pedagógicas que tornaram o ensino escolar à prova do tempo.

Este é um processo lento que requer aprendizagem. Nesses poucos meses, já vimos um pouco de tudo: tentativas de replicar aulas expositivas, tentativas de criar situações mais ou menos realistas de interação. Muito comuns são tentativas de ocupar o tempo com atividades triviais e desconectadas, a pretexto de manter as interações entre professores e alunos, como se o importante fossem apenas as interações e não o conteúdo que elas veiculam. Essas iniciativas podem ser válidas e importantes, mas possivelmente de baixa eficácia. Não captam a essência do ensino presencial nem do ensino a distância.

Um desafio é estender o ensino presencial, com bons professores, usando novos meios. É o que vêm procurando fazer algumas escolas privadas. Outro é escolher alternativas tecnológicas robustas para suprir e substituir, no todo ou em parte, a lacuna criada. É o que vemos, por exemplo, na iniciativa de alguns estados – notadamente São Paulo – com a proposta de ensino a distância. Um terceiro será o de estender estratégias existentes de ensino estruturado para a modalidade não presencial, como vêm fazendo muitas instituições privadas de ensino superior já acostumadas com o EAD ou municípios já afeitos ao uso de estratégias de ensino estruturado.

A pandemia abriu as portas para repensar a escola. Há espaço para vivermos no melhor dos mundos (ou pelo menos num mundo melhor), conciliando as virtudes intrínsecas do modelo escolar com as virtudes das novas tecnologias muitas delas ainda desconhecidas ou inexploradas. Nesse mundo de incertezas, parece surgir uma certeza: a sabedoria estará na capacidade de conciliar a robustez do modelo escolar com a flexibilidade do modelo tecnológico. E isso exige conhecimento profundo de ambos.

Aprender a aprender


Essas são reflexões importantes para repensar o 'novo normal'. Essas, sem dúvida, são missões importantes da escola. No Brasil, a escola cumpre mal – e muito mal – sua função principal, que é a de promover o desenvolvimento cognitivo. Mas hoje também sabemos que, para promover o desenvolvimento cognitivo, é importante também cuidar desses outros aspectos. Só que um depende do outro – daí a primazia do cognitivo na definição da escola.

No curto prazo, as escolas precisam se preparar para reabrir, acolher os alunos, recuperar o tempo perdido. Também precisam se preparar para eventuais novos fechamentos. Mas, no longo prazo, interessa que a escola, especialmente a escola pública, se dê conta de que sua missão principal é promover o desenvolvimento cognitivo de forma harmônica com o desenvolvimento das habilidades psicossociais.

A pandemia e o ensino híbrido trazem de volta ao centro das preocupações um dos objetivos mais centrais da escola: promover a autonomia do aprendiz. Isso deverá provocar profunda revisão no currículo e no desenvolvimento robusto de habilidades básicas e de estratégias que permitam ao aluno aprender a aprender.


(Artigo originalmente publicado no blog Educação em Evidência.)


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João Batista Oliveira é psicólogo e Ph.D. em Educação pela Florida State University (1973). Pós-doutorado e Visiting Scholar da Graduate School of Business, Stanford University (1977-1978). Professor universitário no Brasil (UFMG, COPPEAD/UFRJ) e na França (Université de Bourgogne, Dijon). Em 2016, recebeu o Prêmio Darcy Ribeiro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Publicou dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, bem como livros técnicos e outros voltados para políticas públicas. Foi diretor do Ipea e secretário executivo do MEC. Trabalhou como funcionário do Banco Mundial, em Washington, e da Organização Internacional do Trabalho, em Genebra. Em 2006, criou o Instituto Alfa e Beto, que se dedica a promover o conceito de educação baseada em evidências e tem foco em intervenções voltadas para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, com ênfase na alfabetização e na leitura.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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