• Jornal da USP

Veterinária: kit para aulas a distância


Luciana (de avental) entrega um kit anatômico para aluna da USP em Pirassununga. Foto: Divulgação/FZEA

No curso de medicina veterinária da Universidade de São Paulo (USP), a aula de anatomia é o momento em que o aluno aprende sobre a forma, a disposição e a estrutura dos tecidos e órgãos que compõem o corpo do animal. Apesar do uso de animais virtuais ou de modelos artesanais, de manequins e de simuladores, o aprendizado nas aulas práticas ainda não pode ser substituído. O que fazer, então, num contexto de pandemia, com a necessidade de isolamento e de educação a distância? Na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga (SP), os alunos das disciplinas de Anatomia Animal II e Anatomia Aplicada puderam contar com o ensino prático a partir de uma iniciativa inovadora: o kit anatômico "Animal Delivery".


Trata-se de uma caixa plástica contendo um kit com peças anatômicas para o ensino de esplancnologia (que visa ao estudo das vísceras corpóreas) e de anatomia aplicada (para o estudo topográfico a partir de acessos cirúrgicos de regiões corpóreas animais), possibilitando o manuseio e contato direto do material. Tudo elaborado com base nos preceitos éticos da medicina veterinária. 

Cada aluno e seu respectivo responsável legal puderam manifestar se haveria interesse em receber o material em suas residências e, em caso positivo, teriam que assinar um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A adesão ao recebimento dos kits foi unânime e a distribuição ocorreu nos dias 29 de agosto e 26 de setembro, parte dela no campus da USP na capital, para os alunos que moram na grande São Paulo e proximidades. Outra entrega foi realizada pela equipe técnica do Laboratório de Anatomia Animal no campus de Pirassununga para alunos residentes no interior.  No total, foram preparados 123 kits anatômicos.


“No início da pandemia e com a necessidade de se adequar as aulas para ministrar o curso de anatomia veterinária, em que usamos muito material prático, com peças anatômicas de diferentes espécies, me vi na necessidade de pensar e apresentar alguma solução”, explica Carlos Eduardo Ambrósio, vice-diretor da FZEA, professor e coordenador do Laboratório de Anatomia Animal. Ele, juntamente com Luciana Machado, que é auxiliar técnica, criaram o kit com base em estudos sobre conservação de peças anatômicas e modelos animais realizados pelo laboratório.

Por isso, de acordo com Ambrósio, a elaboração dos kits se deu com técnicas de preservação eficazes no preparo de cadáveres ou peças anatômicas de animais, a partir da utilização de métodos alternativos sem odores, além da não geração de contaminantes químicos ou microbiológicos.


Ética no uso de animais


O Laboratório de Anatomia Animal do Departamento de Medicina Veterinária da FZEA conta com um acervo de peças anatômicas utilizadas como material didático durante o ano letivo. Para elaboração dos kits, o acervo não foi suficiente para contemplar todos os alunos, então foram utilizados cadáveres animais obtidos em parceria com o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) do município de Conchal, no interior de São Paulo, que desenvolve políticas públicas para o recolhimento de animais que vêm a óbito em toda a cidade.

O projeto dos kits passou por avaliação da Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) da FZEA, foi aprovado e todo o material de consumo necessário para a composição dos kits, como instrumentos cirúrgicos, teve apoio financeiro da Pró-Reitoria de Graduação da USP.


De acordo com o professor Carlos Ambrósio, a utilização dos kits é acompanhada de forma on-line, e os alunos podem tirar dúvidas. “Sem sair de casa, os alunos passaram a contar com um importante material didático auxiliar, que vai aprofundar os conteúdos apresentados nas aulas de Anatomia Animal. E junto com a teoria abordada, esses aprendizados se complementam como ferramentas eficientes que facilitam a compreensão e a visualização das estruturas anatômicas”, destaca. 


Além disso, os conteúdos de aulas práticas foram gravados e disponibilizados na plataforma de aulas virtuais E-Aulas, com vídeos explicativos sobre cada peça anatômica utilizada no laboratório. “Transpor o que tínhamos no laboratório e poder emprestar aos alunos foi bastante trabalhoso, mas gerou frutos maravilhosos. Ouvir o agradecimento dos alunos em ter esse material em suas casas e receber sempre o agradecimento deles é muito gratificante”, conclui Ambrósio.

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