• Gustavo Farinelli

Uma professora brasileira na Inglaterra


A pedagoga Daniela Rosa trabalha em uma nursery, em Londres. Fotos: Arquivo pessoal.

Professora de educação infantil com 20 anos de experiência no Brasil, a pedagoga Daniela Rosa vive há mais de dois anos em Londres, na Inglaterra, onde trabalha como coordenadora em uma creche e pré-escola particular. Nesse período, ela pôde constatar a eficiência do modelo inglês, que é focado no desenvolvimento integral da criança. Segurança e bem-estar são preocupações centrais.


Nursery, como os ingleses dizem, é, em bom português, uma creche: aquele lugar fora do ambiente doméstico, onde a criança passa até 10 horas do seu dia enquanto seus pais trabalham”, descreve a professora. Ela conta que as escolas ou espaços formais de educação infantil da Inglaterra são instituições privadas. A educação pública e gratuita se inicia a partir dos 5 anos, no que chamam de Reception, e atende crianças até o chamado A-level, antes do ingresso na universidade ou na vida profissional.


Daniela informa que famílias de menor poder aquisitivo com filhos menores de 5 anos contam com programas de apoio oferecidos pelo governo, para cuidar dos filhos em casa. Com isso, a grande maioria das instituições particulares de educação infantil atende principalmente crianças de famílias de média e alta renda.


O melhor possível


A educação infantil inglesa segue uma espécie de base nacional curricular chamada EYFS (Early Years Foundation Stage). Essa base foi organizada para estipular padrões mínimos de aprendizado, desenvolvimento e cuidado necessários para que uma instituição de ensino seja autorizada a funcionar.


O princípio norteador é que toda criança merece o melhor começo de vida possível e deve receber o apoio necessário para desenvolver seu potencial. Proteção é uma palavra-chave no modelo inglês.


O órgão responsável pela regulação das instituições de ensino no país é o Ofsted (The Office for Standards in Education, Children's Services and Skills). Além da autorização de abertura ou não das escolas, o Ofsted confere e avalia o desempenho de cada uma delas, a partir de notas que vão de 'inadequado' a 'excelente'.


Salvaguardas


Quando estamos inseridos nesse universo da educação infantil inglesa, é notório o quanto a palavra safeguarding faz parte do cotidiano e tem força e poder. “Pensei muito em como traduzir esse termo que abarca tanto significado e é um conceito gigante e essencial dentro de uma creche inglesa. Por medo de pecar pela falta, decidi esmiuçar a palavra e mostrar as diversas possibilidades de se entender tal conceito no contexto da educação infantil. Tentei o uso de alguns verbos para esclarecê-la: salvaguardar, proteger, defender, amparar, garantir, precaver, prevenir", diz a professora brasileira, que é especialista em educação infantil.


De acordo com Daniela, o princípio da salvaguarda é que a criança aprende melhor quando está saudável, segura e protegida e quando suas necessidades individuais são atendidas. Dessa forma, podemos entender a amplitude da ideia de salvaguardar. Tudo que é pensado e proposto dentro de uma creche transpassa esse conceito e precisa ser considerado neste contexto: desde o risco de um novo brinquedo, o espaço de convivência, a qualidade das atividades oferecidas e principalmente o nível de formação dos educadores.

Nesse último caso, além das formações mínimas necessárias do profissional, uma checagem anual e atualizada on-line de antecedentes criminais é pré-requisito para o ingresso e continuidade de uma cuidadora na creche. Referências são checadas, e capacitação em salvaguarda, oferecidos.



A nursery londrina onde Daniela atua.

A preocupação com o bem-estar da criança se estende desde os riscos que o ambiente pode oferecer e as necessidades individuais até questões próprias de um país que acolhe pessoas de todo o planeta: o risco de uma abordagem terrorista ou racista a uma criança – ou a iminência de uma menina ser conduzida a uma cirurgia de mutilação de seus órgãos genitais.


Longe de ser o mundo perfeito, mas seguramente em um caminho mais bem asfaltado, se comparada ao Brasil, a Inglaterra pode oferecer bons modelos de cuidados em educação infantil. "Esta experiência tem sido impactante na medida em que vejo a seriedade no trato dos assuntos relacionados à infância: a segurança e o bem-estar da criança são prioridades absolutas", diz Daniela. “Meu sonho é que possamos nos ocupar de desenvolver maneiras de fazer o Brasil perceber que, enquanto a criança e a educação não forem absoluta prioridade, continuaremos apagando incêndios e nos ocupando de medidas paliativas.”

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