• Leonencio Nossa

Uma geração sem espaço

Atualizado: Ago 1



Na biografia Roberto Marinho, o poder está no ar, publicada pela Nova Fronteira, relato a história de um grupo de intelectuais, bacharéis e jornalistas negros e mestiços formado, no começo do século 20, no entorno de Nilo Peçanha, o primeiro presidente de origem negra do Brasil.

Com o fim da escravidão e o êxodo rural da virada de século, os nilistas apostavam numa nova classe social, formada por homens e mulheres que saíram do cativeiro e seus filhos. O niilismo não era um movimento de bandeira identitária nos moldes dos dias atuais. O tempo repressor se apresentava diferente. Naquele momento, o dinheiro, o poder político e mesmo os espaços do pensamento nacional estavam nas mãos de uma oligarquia agrária que considerava concluído o processo da abolição.

Em busca de um produto jornalístico próprio, Irineu Marinho, aliado de Nilo e pai de Roberto, recorreu a experiências de uma imprensa que surgiu na luta abolicionista. A sua fórmula misturava visões de jornais voltados aos subúrbios, ora comercial, ora operário, ora anárquico. Também incluía o sal da oposição aos governos. Assim, consolidou o jornalismo que a pesquisadora Maria Alice Rezende de Carvalho chamou de jornalismo de cidades.

A Noite, o vespertino do 'mulato', como Irineu era chamado pelos empresários do setor, tornou-se líder de vendas na então capital federal sempre na defesa de Nilo e na oposição aos adversários do ex-presidente que ocupavam o Palácio do Catete.

Mergulhado no ideal nilista, Irineu matriculou seu filho mais velho numa das escolas profissionalizantes idealizadas pelo grupo político, onde os professores eram negros.

Irineu ganhou dinheiro com venda de jornal. Roberto Marinho, seu primogênito, cresceu no período de escalada financeira e social de um pai que não queria morrer nem ser expulso do jogo político e intelectual como José do Patrocínio, o amigo dele, foi... como André Rebouças foi... como Lima Barreto foi... A qualquer briga empresarial entre os barões da mídia, surgiam textos para falar da origem do 'baleiro' do Catumbi, do empresário que deveria voltar à “cozinha”.

A fórmula original do modelo de negócios de Irineu é nilista. O que rolou a partir daí, a construção da base do império Globo por seu filho, procurei relatar no primeiro volume da biografia de Marinho e pretendo contar no segundo, que devo lançar daqui a alguns meses, com críticas e análises de conjuntura.

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Leonencio Nossa é autor dos livros 'Roberto Marinho, o poder está no ar', publicado pela Nova Fronteira, 'Mata! O Major Curió e as guerrilhas no Araguaia', pela Companhia das Letras, 'Homens invisíveis', 'O rio, uma viagem pela alma do Amazonas' e 'Viagens com o presidente' (em coautoria com Eduardo Scolese), pela Record.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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