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Boas práticas e casos de sucesso na educação

Os 200 anos da Independência do Brasil serão celebrados em 2022, mas somente com educação de qualidade − e para todos − é que seremos verdadeiramente livres.

 
 
  • Demétrio Weber

'Um professor não deve subestimar seus alunos', diz alfabetizadora de crianças


Mirlene Barcelos Teles é professora na rede municipal de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Há 28 anos, trabalha como alfabetizadora de crianças nessa cidade de 64 mil habitantes, na região metropolitana de Belo Horizonte. A seguir, Mirlene fala sobre os desafios da alfabetização e da profissão que ela abraçou:



Educa 2022 −O que é mais importante na hora de alfabetizar uma criança?

MIRLENE BARCELOS − Um dos fatores mais importantes é o professor. Ele precisa ter alma alfabetizadora, prazer em ensinar e, simultaneamente, conhecer o processo que vai utilizar, acreditar nele e fazer um trabalho sério e com muito amor para alcançar o objetivo.


O que é mais difícil? 

− Hoje em dia, o que mais vem dificultando a educação, não só a alfabetização, é a carga de problemas que nossas crianças trazem de casa: a indiferença, o abandono, a agressão, a falta de respeito, o que acaba sendo liberado dentro de sala de aula, às vezes contra os colegas e às vezes também contra os educadores. Tentamos superar, dando a essas crianças exatamente o oposto ao que têm em casa, mas nem sempre conseguimos resultados satisfatórios.


O que um professor alfabetizador não deve fazer?

− Um professor não deve subestimar seus alunos, pois todos sempre têm algo com que possam contribuir, nos surpreendendo. Não deve aceitar o cargo de alfabetizar, se não souber com destreza qual é seu papel na sala de aula. Um ser humano só pode decidir ser professor, alfabetizador ou não, se ele for realmente humano, tiver consciência de seu papel e de suas responsabilidades não só no presente, mas também no futuro daquelas crianças.


É possível alfabetizar 100% dos alunos?

− Infelizmente não conseguimos atingir 100% dos nossos alunos, mesmo porque alfabetizar não é apenas uma questão de método ou procedimento. Tem todo o contexto familiar, além de atendermos hoje alunos de inclusão (dislexia, TDHA, Autismo, Síndrome de Down, entre outros) e mesmo existindo dentro de cada escola uma psicopedagoga e uma sala equipada para um atendimento individualizado, ainda assim não conseguimos, o que é frustrante.


Há um intenso debate sobre métodos de alfabetização no Brasil. Na sua opinião, o país deveria adotar um único método? Qual o método utilizado em Lagoa Santa?  

− Primeiramente acredito que esse debate deveria ter tido início com os professores, dentro das escolas. Em Lagoa Santa, não utilizamos um método. Nosso projeto (Alfaletrar) contempla um pouco de tudo. Magda Soares [professora emérita da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, criadora e coordenadora do Núcleo de Alfabetização e Letramento de Lagoa Santa], com todo seu conhecimento e vivência dentro da educação, principalmente a pública, criou nosso projeto com tudo de melhor que cada método possui e ainda o incrementou, transformando procedimentos de outros métodos em uma maneira mais lúdica e prazerosa de aprender. 


O que a rede municipal de Lagoa Santa faz para alfabetizar seus alunos?

− O processo de alfabetização se inicia logo que a criança é matriculada nas creches, com 2 e 3 anos (Maternal II e III). O projeto contempla o processo de forma lúdica, levando-as a ter contato com as letras, com livros, contos e recontos, jogos e muita música. Assim as crianças vão sendo preparadas para a alfabetização, que deve acontecer até o 2º ano do ensino fundamental. Temos o Núcleo de Alfabetização e Letramento, que norteia o trabalho dos professores em toda a rede municipal. Uma representante de cada escola se encontra, semanalmente, com Magda Soares, e a nossa função, dentro da escola, é acompanhar o trabalho do professor, ajudando-o tanto nos planejamentos, como ensinando-o, dando e sendo exemplo, inclusive ministrando aulas em suas turmas, sempre com a prévia autorização do professor regente.


Como as famílias podem ajudar?

− A família tem papel primordial na educação e na alfabetização. Não cumprindo com as obrigações que são da escola, mas incentivando, cobrando o cumprimento das atividades extraclasse (dever de casa/trabalhos), a leitura, solicitando ao filho ou à filha que lhe faça reconto do que leu, que leia para que eles ouçam. E sempre elogiando, sem excesso, claro! Concluindo: a família precisa ter tempo para os filhos, ser presente na vida escolar deles! 


Na sua opinião, a formação que os futuros professores recebem na faculdade é suficiente para alfabetizar crianças? 

− Apesar de não ter cursado faculdade, com meus 28 anos dentro de escola, convivendo diretamente com os professores e os conhecendo bem, posso afirmar que a faculdade não prepara o profissional para a realidade que vai encarar. Um estudante de pedagogia deveria ter uma carga horária maior dentro das escolas, vivenciando, atuando, conhecendo melhor seu campo de atuação, do que horas de teoria sobre métodos, filósofos, estudiosos, seus pensamentos e crenças. Pois, em sala de aula, é você e os alunos. A atitude e a decisão têm que ser suas.



A qualidade da formação de professores melhorou ou piorou nas últimas décadas?

− Eu me formei em 1987, no magistério de 2º Grau. Nestes 32 anos, muita coisa mudou. Seria hipócrita em dizer que fui preparada para ir para uma sala de aula, mas também dizer que hoje está melhor, estaria me contradizendo. Hoje, poucas são as pessoas que optam em ser professor, e isso vem trazendo, para as salas de aula, profissionais que fizeram essa escolha mais por falta de opção. Talvez pela facilidade em ingressar, de se formar, de se manter no curso que muitas faculdades oferecem. Desde que ingressei na escola pública, em 1991, participo de todo e qualquer curso de formação na área de educação, principalmente os oferecidos pela prefeitura de Lagoa Santa. Há seis anos, ocupo o cargo de representante do Núcleo de Alfabetização e Letramento. Com o Projeto Alfaletrar, o aprendizado é constante.

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Quem faz o blog

Demétrio Weber é jornalista, mestre em Direitos Humanos, Cidadania e Violência e criador do blog Educa 2022. Acredita que a educação pode mudar o mundo.

Como repórter nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, entre 1995 e 2015, especializou-se na cobertura da área de educação.

Foi assessor de imprensa e consultor da UNESCO no Brasil. 

É autor, entre outros, do Guia do Ideb da Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), dos capítulos 6 e 10 do livro Políticas educacionais no Brasil − O que podemos aprender com casos reais de implementação? e da reportagem More than money, failures of U.S. schools require new strategies, publicada no site do jornal The Washington Post.