• Luís Cláudio Cicci

Um jejum de bytes



Durante esta pandemia, quis viver junto com o meu filho, um rapaz de 15 anos, a desconexão, um dia sem o uso de celulares, tablets, computadores, televisão. Combinamos que a única exceção seria para o rádio, que nos distrai com músicas, enquanto estamos na sala e na cozinha, e para o forno de micro-ondas. Confinamento sim, mas com o mínimo de alimento para a cabeça e para o corpo. E assim ganhou nome o nosso 'dia nacional', ou Dia Nossional Sem Eletrônicos.


O resultado das vinte e quatro horas de privação me surpreendeu: a preocupação com o excesso de tempo em frente a telas – e com as consequências disso – tem muito sentido para o meu moço, mas também vale para mim. No período em que valeu o impedimento, passamos por momentos de inquietação e irritabilidade incomuns e aparentemente sem explicação. Mas também reencontramos bons hábitos, que a tecnologia faz esquecer. E redescobri uma paisagem.


A constatação do crescente tempo que o meu rapaz dedica ao computador, ao console do videogame e ao telefone celular me incomoda e me rendeu a ideia de propor a vivência da privação de acesso a tudo que tivesse tela. Há que se considerar ainda a rotina de aulas on-line, de manhã e à tarde. Quando compartilhei com o João a intenção do Dia Nossional Sem Eletrônicos, a adesão imediata me surpreendeu. “Será que me expliquei direito?”


A escolha da data, um sábado por sugestão do próprio João, teve a ver com o fim das férias escolares do meio do ano e o iminente retorno à rotina dos horários de aulas, na terça-feira seguinte. Usualmente, o rapaz fica em frente ao computador de manhã e à tarde, num total de cinco horas, com intervalos de meia hora e para o almoço. Juntos, pensamos os limites e decidimos começar daí a um dia e meio – com a ressalva de que também o uso da televisão estaria sob bloqueio. Topamos o desafio.


A leitura de notícias e conversas com psicólogos e professores formaram a minha opinião, contrária ao livre acesso de crianças e adolescentes a aparelhos com luzes, cores, sons, movimento e brilho – agora, reconheço que também os adultos precisam de limite. Preocupa a mim ainda, claro, pensar que esses equipamentos permitem a interação com gente de todo tipo, do mundo inteiro, e, não raro, cheia de más intenções.


É desigual a competição do real com o imaginário, especialmente se o conteúdo concorrente vem pronto, é de fácil compreensão e dispensa deduções e correlações. Com o foco na tela, fica comprometida a interação do indivíduo com a realidade, com as pessoas e o ambiente ao redor, acaba a percepção de sinais presentes no contexto, mensagens que só chegam para quem pratica a observação e consegue captar e interpretar os ambientes. É ouvindo que, desde criança, as pessoas aprendem a conversar.

Distopia

Como é comum no caso das privações do uso de drogas, as primeiras horas do Dia Nossional Sem Eletrônicos foram período crítico, me senti inquieto. Acordei perto das 7h, quase quatro horas antes do meu filho. E fiz algo que há tempos adiava. Abri um dos sete livros da pilha que fica sobre o móvel ao lado da cama, um título sugerido em tom de desafio, na véspera, pelo João. “Vamos ver se agora, sem o tablet, você começa a ler livro, pai.”


Só depois de ter passado os olhos em 34 páginas de Fahrenheit 451, obra publicada há 47 anos por Ray Bradbury, fui me dedicar às tarefas caseiras do sábado. O livro narra uma realidade distópica, em que, nas cidades, as construções são à prova de fogo e a única tarefa dos bombeiros é, em obediência ao negacionismo, queimar livros. As casas contam com tevês enormes, todas num mesmo cômodo, para os moradores decorarem roteiros e participarem de encenações. Uma espécie de home theater, em vez de home office.


Na cozinha, enquanto lavava a louça e preparava o almoço, percebi em mim o impulso de consultar a tela do telefone. Lidei com essa sensação muitas vezes, tantas que nem contei. É 'pirante'. Por prevenção, o celular e o tablet estavam desligados, num armário, fora do alcance da vista. Nesses momentos, confesso, a privação me perturbou e me fez parar o trabalho para andar à toa pelo apartamento – porque, sim, eu resisti à tentação.


Bronca

O isolamento social me trouxe surpresas agradáveis, um paradoxo: nos últimos meses, retomei o contato com pessoas queridas que não vejo há anos, amigos e amigas, alguns vivendo no exterior. Mas o isolamento digital me impediu de acessar, pela manhã, os sites de notícias. Esse é um hábito – ou vício – que mantenho, mesmo como jornalista, assessor de imprensa, desempregado. E o dia seguiu cheio de ansiedade, sem saber sobre os meus contatos e de todo o resto do mundo.


Eram quase 11h quando o meu filho veio me cumprimentar na cozinha, com a cara inchada e amassada de tanto dormir. Pelo que observo no dia a dia de convivência com o João, esse é um horário muito incomum de ele se levantar especialmente porque, na noite anterior, uma sexta-feira, fomos dormir logo depois da meia noite, assim que desligamos todos os aparelhos eletrônicos. O sono e o Dia Nossional só começaram depois de consumirmos, antes da total privação, os últimos dígitos de cada byte.


Mais tarde eu ouviria a explicação para tanto sono. “Pai, o truque para o dia passar logo é acordar tarde e dormir cedo”, explicou o rapaz, já na noite do sábado. Antes, nós dois, juntos, nos dedicamos à preparação do almoço. Como eu tinha experimentado o efeito da falta do contato com as telas, fiquei atento ao meu companheiro de experiência. Essa antecedência serviu como preparação para o que estava por vir na relação com um moço unpluged.


A conversa que seguia divertida e calma durante o trabalho na cozinha se tornou, devagarzinho, tensa, ríspida e virou discussão – por motivo insignificante. Reagi com uma bronca diante de uma manifestação de impaciência, que imagino seja consequência do impedimento de acesso ao computador e ao videogame. E isso resultou em choro no quarto, sob os cobertores.


A medição do tempo de cozimento do macarrão serviu como pretexto para a consulta ao único eletrônico ainda fora do armário. Um celular tinha ficado sobre a mesa onde fazemos as refeições, conectado ao carregador da bateria. Quando vi o telefone na mão do João, alertei para o relógio do micro-ondas, que resolveria a cronometragem. Reagi à insistência com uma bronca que fez o rapaz de quase 1,80 metro e pé 42 se jogar na cama para se esconder sob o cobertor, com soluços.


A calma demorou mais de uns quinze minutos para voltar, e só veio depois de duas idas ao quarto do João, quando minhas abordagens não foram bem recebidas. Finalmente, na terceira tentativa, quando terminei o trabalho na cozinha, o meu filho se levantou, se desculpou comigo e me abraçou – desconfio que a fome e o cheiro do molho do macarrão ajudaram. Foi quando confessei que eu também me sentia impaciente e dividi a impressão de que estávamos sob o efeito da privação de acesso aos eletrônicos.


Paisagem

Na minha percepção, os dois estávamos tensos porque tínhamos perdido a fonte das nossas distrações, o remédio cotidiano para nossa sempre companheira ansiedade. E começaram a vir as descobertas. Sem interrupções e distrações, com foco, mesmo o lavar a louça ganha significado diferente. O barulho da água vira um mantra, que estimula a introspecção, a reflexão, um arremedo de cachoeira para quem não pode sair de casa.


Depois que terminei a minha refeição, antes de ir para a pia, me dei conta de um outro presente. Ainda na cadeira, levantei os olhos e percebi a vista que chega para quem usa aquele assento. O costume de teclar no celular depois dos almoços e jantares me impediu de perceber que, sem chegar até a janela, vejo um bairro quase inteiro, com casas, terrenos baldios e prédios distantes uns 5 quilômetros. Também reparei em outdoors, numa avenida e no movimento dos carros.


Falta contemplação, falta reflexão, falta sensibilidade, porque abunda estímulo. Tudo é vapt-vupt demais e só cresce a fome por um fluxo de bytes ainda mais veloz, um apetite insaciável por informação inútil. Um amigo e colega de profissão que apostou na carreira acadêmica contou que, durante as aulas para universitários, percebia que de tempos em tempos precisava usar de truques, apelar para atrativos que fizessem seus alunos voltarem a atenção para a sua fala.

“Os estudantes eram da geração que cresceu assistindo aos programas infantis das apresentadoras loiras, com cenário cheio de luzes e cores e música alta a todo tempo”, lembrou o professor. “Parecia para mim que a turma estava sempre carente de estímulos, de efeitos especiais, e que eu concorria com a Xuxa, sob o risco de, a qualquer hora, tomar um reset, um control-alt-del.”


A tarde do sábado serviu para o João e eu continuarmos no apartamento, lendo. Finalmente, zerei coleção de sete reportagens impressas, conteúdo que seleciono pelo título enquanto navego pela internet e coloco no papel para avaliar antes de compartilhar com o meu filho. O texto mais antigo era de dezembro de 2019 e, o mais novo, de 20 de abril passado. No Fahrenheit 451, cheguei à página 45.


João insistiu com os Cães Ladram, de Truman Capote, mas cheio de críticas ao livro. “É como se o cara tivesse uma impressora conectada ao cérebro e desse jeito conseguiu fazer os seus pensamentos virarem um livro”, reclamou, ao citar as páginas e páginas que a descrição da compra de um tinteiro, por US$ 7 mil, ganhou. No meio da tarde, os dois saímos, mascarados, para tomar sol e transpirar um pouco ao ar livre.


Mangás

Foi à noite que me veio a melhor parte do Dia Nossional Sem Eletrônicos. Depois do jantar, por iniciativa do João, começamos partidas de Uno, de 21 e de xadrez. Jogamos por mais de uma hora, tempo suficiente para eu, um maratonista, perceber que estou ficando velho mesmo para disputas em tabuleiros.


As vitórias foram pouco para o adolescente que, num dia normal, naquela hora, estaria à frente do computador, jogando on-line, trocando mensagens ou assistindo a séries em serviços de streaming. Antes das 21h, pela primeira vez naquele dia, ouvi queixas de tédio. Foi quando o meu filho se dispôs a arrumar o próprio armário, uma preparação para a volta às aulas.


A organização das gavetas e prateleiras com livros e roupas trouxe uma surpresa. Em meio a uma coleção com uns trinta exemplares de mangás, João encontrou três edições ainda sem leitura. A descoberta espantou as reclamações de que as horas não passavam. Enquanto meu filho lia os gibis típicos da cultura japonesa, continuei com o Fahrenheit 451.


Ambos nos assustamos quando percebemos que o relógio marcava mais de 22h30. E fomos dormir. Confesso que fui para a cama com orgulho por, ainda que brevemente, durante um dia, termos resistido à tentação das telas. Mas, de madrugada, quando acordei para beber água, eu sucumbi. Mas eram pouco mais de 3h, e a missão estava cumprida.


A experiência da privação do uso de eletrônicos durante vinte e quatro horas me chamou a atenção para a ansiedade que especialmente os aplicativos de comunicação instantânea causam. Depois de um tempo desconectado, superada a irritação inicial que a ruptura provoca, pude me dar conta, por exemplo, que o momento de lavar a louça é uma boa oportunidade para a reflexão. Até o barulho da água contribui para isso.


O jejum de bytes confirmou a dificuldade do meu filho para usar os eletrônicos com parcimônia. Também mostrou a minha fraqueza. Dou razão às acusações que ouvi muitas vezes, quando reclamei dos exageros do João. O problema é dele, é meu e justifica a adoção de limites. Duvido que a melhor imagem e o som mais incrível tragam pelo celular, pelo computador, pela televisão, o cheiro, o toque, a presença, o brilho no olhar e o prazer de estar junto. Em casa, ao redor de uma mesa ou numa sala de aula.


* * *


Luís Cláudio Cicci é jornalista, pai do João e mora com o filho em Uberlândia (MG). Graduou-se na Universidade de Brasília (UnB), onde também estudou agronomia durante sete semestres. Tem especialização em jornalismo impresso pelo Curso Intensivo de Jornalismo do Grupo O Estado de S. Paulo/Universidade de Navarra. Neste ano, apresentou, na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), pesquisa sobre a produção de queijo minas artesanal para conclusão do MBA em Gestão do Agronegócio. Em Brasília, durante 21 anos, trabalhou como repórter (em meios de comunicação impressa), professor, assessor de imprensa e chefe de assessorias em instituições dos poderes Executivo e Legislativo.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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