• Gina Vieira Ponte

Herói rompeu com a narrativa branca

Atualizado: Ago 31



Faço minhas as palavras da professora Ana Flávia Magalhães Pinto: “Cicatrizei feridas de infância vendo Pantera Negra.” Assisti ao filme, na mesma semana em que ele foi lançado, com meu filho e com meu marido. Vibramos os três, choramos os três! Estávamos diante de uma narrativa impactante, que rechaça as representações da negritude restritas à dor, ao sofrimento, à subalternidade e à escravização e celebra toda a nossa beleza, força, inteligência e ancestralidade.


Meu filho é um menino de pele clara, mas os cabelos, tão crespos como os meus, não negam a sua ascendência. E eu sei que, em um país racista como o nosso, por mais que a sua pele seja clara, em algum momento ele será lembrado de que não tem o cabelo chancelado pela branquitude. Eu via meninos negros de pele clara alisarem os seus cabelos para extirparem da sua imagem qualquer associação com a negritude. Isso é resultado de um longo processo de implantação do auto-ódio ao qual somos submetidos, neste país que nunca avançou como nação, porque nunca se assumiu negro e nunca discutiu de forma honesta, qualificada e digna a questão central que nos constitui como povo − a nossa negritude.


Para que o meu filho sinta orgulho dos cabelos crespos, que confirmam a sua ancestralidade negra, apesar da pele clara que ele tem, eu sempre digo pra ele: “Os nossos passos vêm de longe. Você descende de reis e de rainhas, de gente muito forte, corajosa e guerreira que foi forçada a atravessar o Atlântico, deixando sua mãe África.” E, inspirada nos poemas de Cristiane Sobral, digo pra ele: “O cabelo crespo e lindo que você tem é a prova disso, de que você descende de reis e rainhas, homens e mulheres extraordinários, que lutaram muito para que as nossas vidas seguissem. O seu cabelo crespo é a coroa, a evidência de quem descende da realeza. Celebre a sua ascendência negra!"


O filme Pantera Negra rompeu com a narrativa hegemônica branca, na qual só há super-heróis brancos, nórdicos. Para o meu filho, que é apaixonado por mitologia, foi um presente. Alegro-me de que, diferentemente da minha infância, em que o nosso imaginário foi todo colonizado com representações brancas, o dele e de outras crianças negras poderá contar com outros símbolos a partir dos quais pensar a própria identidade.

Que dias tristes e estranhos são esses que nos tiram tão precocemente um ator gigante como Chadwick Boseman? Lamento profundamente uma perda grave como esta. Cada vez que ele aparece na tela, com aquela explosão de beleza e expressividade, a gente congela, profundamente impactado! Apesar da ida precoce, ele deixou um grande legado.


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Gina Vieira Ponte é professora de língua portuguesa na rede pública do Distrito Federal, mestre em Linguística pela Universidade de Brasília (UnB), especialista em Educação a Distância (EAD) e em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar e criadora do Projeto Mulheres Inspiradoras.


O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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