• Márcia Maria Cruz

Um educador no quilombo


Foto: Arquivo pessoal.

Luiz Marcos de França Dias, de 33 anos, é da linhagem de Bernardo Furquim, a quinta geração do fundador de um dos quilombos mais antigos do Vale do Ribeira (SP), o Quilombo São Pedro. Luiz nasceu e cresceu ali e leciona na Escola Estadual Maria Antônia Chules Princesa, localizada no Quilombo André Lopes.

A escola atende estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio de sete comunidades quilombolas do entorno.

Mestre em educação, o líder quilombola fala sobre os desafios do ensino remoto em meio à pandemia de covid-19: "Tudo lindo e maravilhoso no papel, mas a gente tem que perceber uma coisa, dentro de um processo um pouco maior, que é a ausência de políticas públicas do Estado brasileiro para esta região, para os povos e comunidades tradicionais e comunidades quilombolas do Brasil."

Confira trechos do depoimento de Luiz Marcos de França Dias à repórter Márcia Maria Cruz:

Leciono na Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa. Tem uma questão de trabalhar numa escola quilombola, sendo quilombola. É um diferencial. Conheço todos os alunos, conheço a realidade de onde estão.

Se acaba a energia elétrica para um, eu também moro na comunidade onde acabou a energia elétrica. A mesma realidade que os alunos têm vivido no cotidiano, os mesmos enfrentamentos, o mesmo processo de resistência é o meu processo. Praticamente as nossas histórias de vida se entrelaçam por causa do contexto.

Quando a gente pensa no abandono do Estado por causa das políticas públicas que, muitas vezes, não nos alcançam, eu também estou inserido, independentemente de minha condição social, da minha formação acadêmica.

Outro ponto que julgo ser importante é ter a vivência no território antes de adentrar para a docência. Esse fato contribui para a prática na sala de aula.

Ensino remoto

É importante pensar nos dois tipos de ensino que atendem a comunidade. No âmbito da educação municipal, os professores têm elaborado o roteiro de atividades e, até onde sei, atividades trazidas impressas para os alunos na escola da comunidade a cada 15 dias, a cada mês.

Os alunos fazem em casa uma bateria de atividades e depois devolvem para quem vem buscar no ônibus escolar que vem aqui. O governo do estado oferece algumas formas de se ensinar na pandemia, pelo ensino remoto através das teleaulas pela televisão, disponível também no Youtube, por um aplicativo de telefone celular.

A incumbência das escolas é usar outras ferramentas, como o Google Classroom, ou, então, outros meios para se comunicar com os alunos, como o WhatsApp.

Tudo lindo e maravilhoso no papel, mas a gente tem que perceber uma coisa, dentro de um processo um pouco maior, que é a ausência de políticas públicas do Estado brasileiro para esta região, para os povos e comunidades tradicionais e comunidades quilombolas do Brasil.

Se você observar, boa parte da região do Vale do Ribeira não tem cobertura de telefonia celular. Só vai ter cobertura de telefonia móvel e internet nos centros urbanos.

Comunidades sofrem com a pandemia

Nós, comunidades quilombolas, temos, na Constituição Federal, o direito garantido e assegurado ao território. Esse direito, além de outros, é direito de cidadãs e de cidadãos brasileiros. Somos pessoas descendentes de seres humanos que foram trazidos para este país e que foram largados à margem da sociedade.

Somos descendentes de africanos e africanas que construíram esta nação, construíram este país. Somos cidadãs e cidadãos de direitos que têm sido ameaçados. Hoje, por exemplo, é um patamar altíssimo de morte pela covid-19 em territórios quilombolas. A média de mortes está sendo mais alta que a média nacional. Isso é muito grave. Falta de atenção a este segmento da população brasileira.

História do quilombo

A história do Quilombo de São Pedro é bem consonante com a história de outras comunidades no Vale do Ribeira, onde o processo de ocupação se deu através do Bernardo Furquim e da Rosa Machado, juntamente a outras pessoas que vieram para esta região no século 19.

Segundo o que consta em nossa memória oral, ele veio em busca do pai, que tinha sido trazido para cá no período aurífero, que se iniciou a partir do século 16 na região e foi muito forte até o século 18.

Aqui no Quilombo de São Pedro as famílias de Bernardo Furquim se estabeleceram, e da Rosa Machado também, e fundaram o Quilombo São Pedro e Galvão e fizeram contato com outros territórios que já existiam, como o Quilombo Vaturundubaia e o Quilombo Pedro Cubas. Aí todo processo de ocupação desses territórios foi se mesclando.

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