• Demétrio Weber

Um adeus sem educação



Isolado politicamente, sem interlocução no Congresso e alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou que deixará o cargo. A notícia foi recebida com alívio por reitores, secretários de Educação, professores, pesquisadores, estudantes e dirigentes de organizações não governamentais com quem Weintraub se desentendeu e a quem atacou nos 14 meses que permaneceu à frente do Ministério da Educação (MEC).

Em vídeo divulgado nesta quinta-feira (18/6), em redes sociais, o ministro aparece ao lado do presidente da República, Jair Bolsonaro, de quem se despede com um agradecimento e um abraço. No vídeo, Weintraub diz não ser o momento para discutir os motivos da sua saída, afirma que nos próximos dias passará o bastão ao sucessor (ainda não anunciado) e antecipa que assumirá o cargo de diretor do Banco Mundial em Washington, nos Estados Unidos.

O período de Weintraub no MEC foi marcado por uma constante beligerância contra boa parte dos atores educacionais. Classificou universidades federais como lugar de balbúrdia, plantação de maconha e produção de drogas sintéticas. Xingou estudantes em redes sociais, fez pouco caso da área de humanidades − afirmou que dinheiro público não deveria bancar a formação de sociólogos, antropólogos e filósofos − e desrespeitou a imagem do patrono da educação brasileira, Paulo Freire.

Morto aos 75 anos, em 1997, Freire faz parte do seleto grupo de acadêmicos mais citados em revistas científicas internacionais, justamente por servir de referência a pesquisadores e estudiosos da educação e de outras áreas do conhecimento. Não apenas no Brasil, mas no mundo.

A Paulo Freire, o ministro da Educação do Brasil dedicou o tuíte reproduzido na foto que ilustra este texto: "É ou não é feio de doer?", postou Weintraub, junto à foto de um mural erguido em homenagem a Freire, na frente do prédio do MEC, na Esplanada dos Ministérios.

Weintraub fez o MEC caminhar em sentido contrário a uma de suas principais missões previstas na Constituição e na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB): atuar em regime de colaboração com estados e municípios na organização dos sistemas de ensino.

Em plena pandemia de covid-19, enquanto escolas públicas e particulares de todo o país enfrentam o desafio de oferecer ensino remoto e de manter o vínculo com seus alunos, o ministério abriu mão do papel de liderança e referência nacional. Secretários de Educação e governadores tiveram que articular isoladamente tanto a contratação de canais de TV aberta para transmitir teleaulas quanto a negociação de pacotes de dados de internet para que mais alunos conseguissem acessar aplicativos de ensino on-line.

O adiamento do Enem, em decorrência da suspensão das aulas presenciais, ilustra bem o tipo de relação que o MEC estabeleceu com a comunidade educacional nos últimos tempos: enquanto estudantes, professores e gestores pediam que as provas fossem adiadas em função da pandemia, o ministério respondeu com uma campanha publicitária em defesa da manutenção das datas − estrelada por jovens de classe média, em seus quartos com computador e internet. Weintraub só recuou depois que o Congresso sinalizou que adiaria o exame por conta própria.

No vídeo de hoje, impossível não perceber que o ministro se despediu do cargo sem dizer uma única vez a palavra educação.

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