• Paulo Pinheiro

Três livros sobre resiliência



O que os professores conseguiram realizar em 2020 pode ser classificado como um milagre. Eles subitamente tiveram de reagir a uma mudança veloz para o ensino on-line enquanto lidavam com o forte estresse pandêmico de seus alunos e colegas, sem mencionar que os educadores também possuem família, que corria − e ainda corre − risco de ser contaminada pelo novo coronavírus.


Seria muito fácil garantir que, com a vacinação, o fim desses tempos tumultuados está por um triz. O problema é que nos próximos meses − incluindo o início de mais um “semestre pandêmico” − as exigências e demandas devem continuar intensas. Como sobreviver a tudo isso? Uma solução é apostar na resiliência. Por isso, queria compartilhar nesta coluna lições importantes sobre o tema retiradas de três livros.


O que significa ser resiliente?


A professora de Harvard Diane Coutu tem um belo livro sobre o assunto chamado How Resilience Works. Infelizmente, ainda não há tradução para o idioma brasileiro. Ela acredita que pessoas resilientes possuem três características:


  • · Uma aceitação firme da realidade

  • · Uma crença profunda, muitas vezes apoiada em valores fortemente defendidos, de que a vida é significativa

  • · Uma habilidade fantástica de improvisar


De acordo com Coutu, você pode se recuperar das dificuldades com apenas uma ou duas dessas qualidades, mas só será verdadeiramente resiliente com as três.


A autora defende que a resiliência é um reflexo, uma forma de encarar e compreender o mundo, que está profundamente gravada na mente e na alma de uma pessoa. Pessoas resilientes enfrentam a realidade com firmeza, entendem as dificuldades e improvisam soluções quando necessário. Essa é a natureza da resiliência.


Estratégia


Outro livro interessante sobre o tema é Resilience Is About How You Recharge, Not How You Endure, de Shawn Achor e Michelle Gielan. Também não foi traduzido para o português.


Os autores têm uma visão um pouco diferente sobre o tema. Para eles, a chave para a resiliência é tentar muito, depois parar, recuperar-se e tentar novamente. A maioria das pessoas presume que, se você parar de fazer uma tarefa, seu cérebro se recuperará naturalmente. Ou seja, quando você começar novamente o trabalho no dia ou na manhã seguinte, terá sua energia de volta. Mas certamente todo mundo que está lendo este texto já teve momentos em que ficava deitado na cama por horas, sem conseguir dormir. Isso porque descanso e recuperação não são a mesma coisa.


Se você realmente deseja construir resiliência, pode começar parando estrategicamente. Dê a si mesmo os recursos para ser resiliente criando períodos de recuperação internos e externos. Por exemplo, crie zonas livres de tecnologia. Faça uma pausa cognitiva a cada 90 minutos para recarregar suas baterias. Ou, se possível, almoce (a distância) com sua família ou amigos e não fale sobre trabalho. E o mais importante, mesmo que você não possa ir a lugar nenhum, tire todas as suas folgas remuneradas. Isso não só proporciona períodos de recuperação, mas também aumenta sua produtividade.


Encarar a realidade (com compaixão)


Por fim, vale conferir os ensinamentos de Build Your Resilience in the Face of a Crisis, escrito por Rasmus Hougaard, Jacqueline Carter e Moses Mohan. Para manter a tradição, esse texto também se encontra inédito no idioma português.


No caso desse livro, os autores defendem que a resiliência é um processo que pode ser construído pela sociedade como um todo. Infelizmente, muitos dos círculos da comunidade que fornecem apoio em tempos de estresse estão fechados. Por exemplo, uma das palavras de 2020 foi o temido lockdown. Ou seja, uma ação drástica feita por cidades e por governos para conter a propagação do vírus. Escolas são fechadas, eventos são cancelados e viagens são proibidas ou restritas. O subproduto natural disso é uma sensação crescente de isolamento e separação das pessoas e grupos que melhor podem suprimir nossos medos e ansiedades.


A resiliência surge na capacidade de processar todo esse caos. Ou seja, quanto mais mudanças os educadores tinham de absorver, mais resistentes eram. O livro defende a ideia de que os humanos funcionam melhor quando não encobrem a realidade. É muito mais assustador e prejudicial para a psique minimizar realidades difíceis ou sombrias ou − até mesmo − fingir que elas não existem. É o desconhecido que nos assusta. Mostre a verdade sobre as ameaças e as verdadeiras reservas do potencial humano vão surgir.


Mais ainda, mesmo com todas as adversidades, uma conexão significativa pode ocorrer mesmo a partir da distância social e ela começa com compaixão. A compaixão é a intenção de beneficiar os outros e começa na mente. Em termos práticos, a compaixão começa por se fazer uma pergunta à medida que você avança no seu dia e se conecta − virtualmente e pessoalmente − com outras pessoas: como posso ajudar essa pessoa a ter um dia melhor? Isso também é ser resiliente.


Aliás, com essa pergunta simples, coisas incríveis começam a acontecer. A mente se expande, os olhos se abrem para o que está realmente à nossa frente. E, a partir daí, vemos possibilidades para nós e para os outros que são ricas de esperança e repletas de oportunidades.


Ao se preparar para o que vem a seguir, espero que esses insights ofereçam alguma força e encorajamento. O ano de 2020 mostrou o quão resiliente pode ser a comunidade de educadores. Se 2021 nos permite um otimismo cauteloso com os avanços na vacinação, ainda vai haver muito tempo antes de o mundo voltar ao normal. Até lá, a resiliência é uma estratégia digna para sobreviver a este tempo repleto de desafios.


* * *

Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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