• Demétrio Weber

Melhores escolas usam a avaliação a seu favor



O que fazem as escolas públicas de ensino médio que atendem alunos de famílias de baixa renda e, apesar das adversidades, conseguem bons índices de aprendizagem e aprovação? Eis a principal contribuição do mais recente estudo da série Excelência com equidade que abordamos aqui na semana retrasada: apontar estratégias que dão certo e que podem ser replicadas Brasil afora.


Para começo de conversa, essas escolas trabalham com metas de aprendizagem. Logo, têm clareza das habilidades e competências que seus alunos devem desenvolver a cada ano letivo.


Uma premissa é que a escola existe para que seus alunos aprendam. Assim, o trabalho do diretor, dos coordenadores pedagógicos e dos professores, isto é, a gestão escolar é orientada pela aprendizagem.

Mas o que isso significa? Significa que a escola agirá prontamente para aprimorar suas práticas pedagógicas sempre que seus alunos demonstrarem não estar aprendendo tal ou qual conteúdo; ou quando derem sinais de dificuldade em alguma situação de vida que possa ser prenúncio de evasão. Aqui o pulo do gato: o estudo aponta que as melhores escolas tomam suas decisões com base em evidências.

De um lado, promovem as chamadas avaliações diagnósticas, cuja função não é determinar quem será aprovado ou não, mas retratar o nível de aprendizagem de cada aluno, de cada turma e do conjunto dos estudantes (evidências quantitativas). De outro, essas escolas investem numa relação próxima e individualizada com os alunos, por meio de figuras como a do Professor Diretor de Turma ou do Professor Tutor, que são docentes encarregados de acompanhar um determinado número de estudantes (evidências qualitativas).


Inteligência


Avaliações diagnósticas são feitas nacionalmente pelo Ministério da Educação (MEC). Além disso, há estados que criaram seus próprios testes padronizados. Nas turmas de ensino médio, também é frequente a aplicação de simulados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Nas escolas visitadas em Sobral, por exemplo, a estratégia inclui ainda grupos de estudos, aulões abertos e palestras com psicólogos, estudantes universitários ou ex-alunos.

Uma característica das melhores escolas é ter altas expectativas em relação a seus estudantes. O que passa por incentivar e criar as condições para que os jovens façam o Enem e ingressem na universidade – ou, pelo menos, que tenham essa possibilidade concreta no horizonte.

Os dados gerados pelas avaliações diagnósticas abrem outro desafio para as escolas e redes de ensino: é preciso ter capacidade técnica, além de mera vontade, para usar essas informações a serviço da melhoria da qualidade. Em outras palavras, para que a inteligência gerada a partir dos dados possa percorrer o caminho inverso, a ponto de alterar, quando necessário, práticas pedagógicas.


É o que sinaliza o depoimento de um gestor escolar ouvido pelos pesquisadores: “Achamos que é importante simular, mas mais importante é depois corrigir. Não adianta fazer um monte de prova se não corrigir, mostrar onde está errando. Essa prova tem que ser criteriosamente corrigida.”

Celulares


Nesse sentido, uma ferramenta indispensável para a gestão escolar são as plataformas on-line mantidas pelas secretarias estaduais de Educação das escolas visitadas. Por meio dessas plataformas, informa o estudo, cada unidade registra e acompanha "todo o histórico escolar dos estudantes: notas, presença, ocorrências disciplinares, entre outros dados".

Mais que isso, é possível fazer cruzamentos que revelam o desempenho por turma, por disciplina e por professor. "Assim, as equipes das secretarias de Educação e os gestores escolares têm à disposição uma ferramenta que facilita o uso de evidências para embasar intervenções rápidas", diz o relatório. Em Sobral, "o sistema é utilizado diariamente pelos professores para registrar a presença ou ausência dos alunos nas aulas – a chamada é realizada com o uso de celulares ou computadores, em modo off-line".

O estudo aponta outra característica da rede cearense: "O sistema também é utilizado para registrar dados de alunos egressos. As escolas colhem informações junto aos próprios jovens, de maneira informal, via redes sociais – se ingressaram na faculdade, em instituições públicas ou privadas, que curso escolheram; se estão trabalhando, em que empresa, com que função e salário."

No Espírito Santo, conforme constatado nas visitas, as informações embasam as reuniões semanais de professores com coordenadores e diretores. "O acompanhamento é feito por área de conhecimento e com foco nos descritores de cada matéria. Trimestralmente, discutem-se os resultados obtidos e corrige-se a rota, quando necessário", diz o texto.

O estudo Excelência com equidade no ensino médio: a dificuldade das redes de ensino para dar um suporte efetivo às escolas foi elaborado pelo instituto Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a Fundação Lemann, o Instituto Unibanco e o Itaú BBA, sob coordenação-geral do economista e fundador do Iede, Ernesto Martins Faria.

Custo maior

Do universo de 5.042 escolas públicas de ensino médio que atendem alunos de baixo nível socioeconômico (conforme classificação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), apenas cem unidades atingiram os critérios de aprendizagem e aprovação fixados pelos pesquisadores, o que corresponde a meros 2%. O Ceará foi o estado com maior número de escolas públicas nessa lista (55), seguido por Pernambuco (14), Goiás (7) e Espírito Santo (7).

Como destacamos no post anterior, 82% das cem escolas funcionam em tempo integral, o que revela a eficácia desse modelo de ensino em que os estudantes ficam o dia inteiro na escola. Por outro lado, a predominância de escolas de tempo integral na lista dos melhores estabelecimentos aponta a dificuldade de replicar o modelo no Brasil, devido ao custo mais alto desse tipo de estabelecimento.

Na semana que vem, voltaremos ao estudo da série Excelência com equidade para tratar de currículo e observação de aulas.


Acesse aqui a íntegra do estudo.

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