• César Steffen

Temos que pensar no híbrido (final)



A modalidade de ensino híbrido está se destacando nas atividades e estratégias das instituições de ensino superior e promete crescer muito em 2021, depois de um 2020 dominado pelo ensino remoto em todos os níveis.


Construir o ensino híbrido requer atenção e planejamento, pois não basta, apenas, levar os conteúdos do presencial para a EAD ou organizar o cronograma de conteúdos e atividades dividindo entre presencial e virtual.


Pensar, organizar e planejar os conteúdos, sua distribuição pelos ambientes e momentos de encontro, estruturar as avaliações, distribuindo atividades presenciais e a distância, e observar os recursos e limitações do suporte tecnológico devem estar no foco dos gestores e professores.


Na modalidade de ensino híbrido, o professor adquire um papel de consultor, facilitador e orientador. Longe do “transmissor” de conhecimento, ele deve agir no sentido de orientar e construir junto com o aluno o conhecimento, e isso impacta toda a organização processual e metodológica das atividades.


Particularmente gosto de me organizar levando em conta alguns elementos e atividades essenciais, que sistematizo e organizo a seguir, buscando contribuir, assim, com os colegas professores e gestores em seu pensamento e avaliação deste momento da educação. Trata-se, sim, da minha abordagem, da forma como eu observo, analiso, organizo, implanto e atuo em relação ao ensino na atual conjuntura, que creio possa ser útil para pensarmos o ambiente educacional como um todo.


1. Analisar (ou construir) o planejamento estratégico


O planejamento estratégico estabelece o posicionamento da instituição de ensino, como ela se coloca no ambiente social ao seu redor, quais valores norteiam sua atuação.


Muito além de “papo de marqueteiro”, como já ouvi de colegas, fazer o planejamento estratégico é estabelecer a direção, as metas, os objetivos, a identidade da organização, de onde as atividades e o posicionamento surgirão. Assim, compreender o planejamento estratégico envolve toda a identidade que norteará a construção e a relação com o ambiente.


Se a escola, faculdade ou universidade não tem um planejamento claro, ou mesmo se isso já foi feito há muito tempo, é preciso refazê-lo, de modo a refletir os objetivos e posicionamentos neste novo cenário. Como diz a máxima, “para quem não sabe aonde quer ir todo vento serve”. Então, planejar estabelece o direcionamento, seleciona o vento que será buscado, a direção que será dada às velas.


Ao professor cabe compreender em qual instituição está inserido, como ela se posiciona, seus valores, objetivos e metas, e levar esses valores para seus espaços em sala de aula na relação com alunos, pais e colegas.

2. Definir metodologias e abordagens pedagógicas


O planejamento e o posicionamento são afetados pelas metodologias e abordagens pedagógicas, que estão diretamente ligadas à identidade e à forma de abordar a educação pela instituição.


Essa orientação está presente em todas as atividades da escola, desde a sua comunicação até a forma como as estruturas pedagógicas irão tratar e abordar problemas e dificuldades. Logo, deve ser conhecida e reconhecida por todos e aplicada em todas as atividades, inclusive as promovidas dentro do escopo do ensino híbrido.


3. Definir e implantar a formação de professores


Se os professores são os principais porta-vozes de uma instituição de ensino, se são eles que estão em contato direto com o público final, os estudantes, devem receber capacitação e treinamento para manifestar a identidade dessa organização.


Além disso, o híbrido e outras modalidades não presenciais requerem capacitação específica não somente na abordagem pedagógica, mas também em relação às tecnologias e sistemas aplicados. Então, é preciso capacitar, orientar e não somente em momentos específicos como em períodos de férias ou reuniões, mas ter uma estrutura organizada para dar conta do que for preciso ao longo das atividades.


4. Analisar PPC e planos de ensino e cronogramas


Os planos político-pedagógicos e de ensino refletem a estrutura pedagógica da instituição e estão adequados ao híbrido? Essas perguntas são decisivas para a construção de um modelo e de estratégias de ensino híbrido de sucesso. Não raro, a implantação do híbrido requer uma mudança total dos planos de ensino e PPCs.


Como já coloquei, não basta − e normalmente nem é possível - transpor ideias, formatos e processos do presencial para o híbrido. É preciso repensar todo o processo educacional à luz de novos formatos de encontros, do cronograma diferenciado e mesmo repensar prazos e atividades, explorando o melhor do ambiente presencial e do ambiente tecnológico em prol da formação dos estudantes.

5. Analisar e estruturar conteúdos


Da mesma forma, os conteúdos, cronogramas e atividades de avaliação individuais ou em grupo precisam ser verificados. Certos conteúdos e atividades podem ser melhor aplicados ou apresentar maior envolvimento no ambiente presencial ou virtual. É preciso analisar e identificar como cada parte, cada conteúdo, atividade, avaliação e mais serão organizados no contexto de todo o período de ensino e em sua relação com as demais atividades e unidades curriculares.


Aqui cabe uma observação que aprendi com minha experiência: não há regras para isso. Há turmas de mesmo curso que apresentam alta interação em sala de aula e quase nula no virtual, assim como há turmas que equilibram, e há turmas que interagem até “excessivamente” em qualquer ambiente.


Cabe, aqui, ter as orientações pedagógicas e o plano de ensino como elementos norteadores, mas também ter a sensibilidade de adaptar e, se preciso, reorganizar, tendo em conta o melhor aproveitamento para os estudantes e para o professor. Ou seja, ter um plano é fundamental, indispensável, mas saber analisar, identificar problemas, corrigir e adaptar também é importante.


6. Implantar e monitorar


Desenvolvidas as análises, estabelecidos os parâmetros, capacitados os professores e organizadas as aulas e o ambiente tecnológico, é hora de colocar tudo a funcionar. E monitorar permanentemente, observando o que está funcionando, o que precisa de correção, o que pode ser aprimorado.


Nesse ponto aprendi algo importante: ouvir o professor de forma aberta e franca. E também o aluno, com menos preocupação e espaço, mas também ouvir o aluno.


Quem está na linha de frente percebe coisas que não raro escapam aos gestores. O olhar “micro” dos professores sobre suas disciplinas pode apontar muito que o olhar “macro” do gestor nem sempre consegue identificar com a velocidade necessária. E o aluno sempre pode trazer insights interessantes sobre formas de abordar um tema, uma aula.


Ouvir sempre é bom, com crítica e isenção especialmente, ainda mais fora dos processos de verificação e avaliação institucional, como CPA, onde as pessoas encontram maior liberdade de manifestação.


Para encerrar, creio ser importante repetir: ensino híbrido utiliza muito de tecnologia, mas o foco não está na tecnologia. Digo isso pois vejo muita preocupação das instituições com o suporte tecnológico, que, sim, é importante, precisa funcionar. Mas os processos educacionais e práticas pedagógicas acabam sendo adaptados à tecnologia − sim, vi e ainda vejo, muito isso ocorrendo −, quando, na verdade, a tecnologia deve ser uma consequência da abordagem pedagógica e das metodologias e dos processos educacionais adotados.


O foco da educação deve estar nas pessoas, nos professores, nos estudantes, em sua forma de se relacionar e construir o conhecimento. E isso, acredito, vale para todas as modalidades de ensino.


Obrigado!


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2021 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".