• Bárbara Semerene

Sobre somas e subtrações em família



Lembro-me bem da dinâmica que se repetia toda vez que meu pai se sentava comigo, já cansado, no final de um dia de trabalho, para me ajudar a estudar matemática. Mas não me recordo de sequer uma equação que eu tenha aprendido com ele. O que ficou registrado foi sua presença. E também... sua impaciência, e a minha tristeza por frustrá-lo quando eu não entendia nada.

Uma vez, tentando me fazer compreender o que era “fração”, ele pegou um tablete de chocolate que tinha quatro quadradinhos, e pediu para eu comer um deles. Comi. Sobraram três, e ele me disse, empolgado, esperando ver meu rosto se iluminar: “Você comeu 1/4 do tablete de chocolate!”. Olhei para ele com um ponto de interrogação estampado na testa. Era impossível para mim alcançar tal abstração: “Pai, o que chocolate tem a ver com matemática?”. Ele ficou vermelho de raiva, e saiu bufando.

Passei a ter pavor de matemática. Sentia pela matéria a mesma raiva que meu pai demonstrava por eu não entender o que ele me explicava. E “aprendi” que, diante de uma dificuldade ou frustração, a gente pode ficar irritado e sair bufando (como ele fazia diante da própria dificuldade de me fazer compreender a disciplina). Mas também aprendi que a gente deve persistir. Ele sempre voltava a sentar-se comigo na véspera da próxima prova.

Nenhum pai nem mãe tem que saber todas as matérias, nem sobre técnicas pedagógicas de educação infantil. Ensinar um filho tem menos a ver com conhecimento acadêmico do que com o afeto envolvido ao realizar qualquer tarefa junto com ele. Pais são intermediários entre as crianças e o mundo. O significado que elas atribuirão a tudo dependerá em grande medida da experiência emocional que tiveram com eles.

Ideal é haver parceria, bom-humor com os erros (os próprios e os dos filhos), menos rigidez na autocobrança e na cobrança deles, e humildade para expressar “eu não sei, vamos aprender juntos?”. Mas... e se não for assim? E se só houver tensão no ar?

Reorganização íntima

Ouvi uma psicóloga especializada em educação infantil dizer que nenhum pai tem que estudar com os filhos se os estudos forem motivo de estresse e desgaste da relação. Isso foi antes da quarentena. Agora, com as aulas on-line, não tem mais escapatória: a escola invadiu a casa. Não só a escola, mas todas as atividades que costumávamos realizar fora convivem num ambiente só. A tensão tende a se elevar. E aí, como evitar transferir todo o estresse aos filhos, e de repente surtar diante de uma dúvida deles, transformando os estudos em um inferno?

A tentativa de “autocontrole” emocional e comportamental me parece uma fraude, fadada ao fracasso. Acredito na eficiência do autoconhecimento para refletirmos sobre a nossa relação com o público e o privado. O confinamento social imposto pela pandemia requer que cada um saia do seu confinamento pessoal, dos compartimentos em que a vida foi dividida, e se abra para novas formas de se relacionar com o dentro e o fora. Me parece urgente fazer uma reorganização íntima, e desenvolver a capacidade de se ajustar criativamente ao novo espaço doméstico.

Tornou-se também essencial redimensionar o peso que damos às “autoridades lá fora”, a especialistas, certificados, currículos engessados. É hora de refletir sobre como a gente vem lidando com o excesso de demandas externas. O quanto críticas, reclamações e as regras impostas socialmente nos afetam e se sobrepõem às nossas necessidades pessoais e familiares. Tais questionamentos serão muito úteis (e transformadores) não apenas para esta situação – que muito provavelmente será temporária – mas principalmente para quando a vida voltar ao “normal”.

Uma mãe e um pai podem enlouquecer tentando cumprir todas as demandas externas ao custo de um enorme estresse coletivo da família. Ou podem se apropriar da nova rotina e elencar prioridades a partir de critérios pessoais, que eles próprios vão definindo e negociando. Deixar pra lá algumas tarefas da escola, e a louça para lavar no dia seguinte, em prol de uma maior qualidade nas relações. Decidir que não faz mal vez ou outra substituir um dever de matemática por uma ajuda com o cálculo das contas da casa. Renegociar prazos no trabalho. Esquecer um pouco do “script” prescrito pelo MEC para o ano escolar e conversar sobre História do Brasil quando se comentam as notícias sobre política que passam no telejornal. Afinal, quanta história, matemática, português, geografia e arte há dentro de uma casa, na vida real? Basta estar atento e fazer o link. Aliás, o grande diferencial das escolas contemporâneas em relação às antigas tem sido justamente tirar o foco do professor como “mestre” e centrá-lo no aluno e em sua realidade particular, no que faz sentido na vida dele, trazer a casa para a escola. Precisamos fazer o caminho inverso agora.

Matemática do sentimento

Meu filho, Bernardo, de 7 anos, anda de saco cheíssimo de aulas on-line. Mas, do lado de cá da tela, a coisa anda muito rica em termos de aprendizado. Outro dia, me perguntou se esta era a primeira vez que o mundo inteiro se trancafiava em casa por conta de uma pandemia. Contei sobre a gripe espanhola, e ele teve curiosidade de ir pesquisar sozinho na internet mais a respeito. Descobriu, dentre tantas outras coisas, que a gripe ocorreu paralelamente à Primeira Guerra Mundial, e então foi atrás de saber mais sobre este conflito. Um assunto foi puxando outro e eu contei a história do meu avô, bisavô dele, que nasceu em 1899, em Portugal, e veio de navio para o Brasil aos 13 anos – passou pela tal gripe, pelas duas grandes guerras, por todo o período da ditadura no Brasil. Bernardo entrou naquela história como se fosse dele. E era.

Lado a lado, temos diariamente aulas on-line. Ele no ensino fundamental, eu na minha segunda graduação. De butuca, Bernardo já pescou palavras como capitalismo e filosofia, e lá fui eu adaptar uma explicação à idade dele.

Aos poucos, vou me apropriando e me pautando pelas minhas demandas internas – a dos meus sentimentos, desejos, das minhas relações íntimas, da história familiar –, e não apenas pelas pautadas externamente por quem não tem o menor acesso ao meu mundo privado. E, assim, estimulando o Bernardo a conseguir reconhecer as demandas internas dele.

Nem sempre, nem todo mundo dá conta. Nesse caso, nada de culpa. Ninguém está condenado a ser refém do passado em família. Um adulto é capaz de atualizar os significados afetivos antigos atribuídos às coisas. Voltando à matemática, quando iniciei minha formação em psicanálise (meu atual “chocolate”), me deparei novamente com a maldita. O primeiro impulso foi questionar “o que matemática tem a ver com psicanálise?”. Foi quando finalmente meu rosto se iluminou. Percebi que a linguagem matemática era a melhor forma de representar o abstrato dos sentimentos, das estruturas psíquicas que nos constituem, dos paradoxos que nos sustentam. De uma maneira que a palavra não alcança. Imediatamente, liguei para o meu pai para contar do meu entusiasmo. No fim das “contas”, é esse o vínculo que sempre buscamos.

* * *

Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".