• César Steffen

Sobre pais e aulas remotas



Como já comentei aqui, acompanho as aulas de ensino fundamental do meu enteado, cuidando muito para não interferir na autonomia e no espaço de contato dele com a professora e com os colegas, algo que, creio, deve ser parte do seu desenvolvimento,


Permaneço, sim, atento às necessidades que ele possa apresentar ou mesmo às dificuldades − que, até agora, só apareceram na conexão com o ambiente virtual e por causa de materiais perdidos durante a atividade: a borracha, como vocês sabem, tem vida própria ;-)


Mas, volta e meia, vejo-me diante de situações e fatos que me chamam a atenção e desafiam meus valores, minhas ideias e minhas “verdades” − frisando as aspas.


Recentemente estava no meio de uma aula com uma atividade de desenho e arte bem divertida. A professora contou uma história, e eles tinham que desenhar o que entenderam ou aquilo de que mais gostaram. E daí dê-lhe conversa: “Gostei mais disso”, “Vou desenhar tal coisa” e altas agitações que elevam a energia e o astral de qualquer lugar.


Mas eis que um colega resolve mostrar, com a câmera, o que estava fazendo. E a professora, detectando que havia algo errado, totalmente fora do combinado, deu sugestões de forma lúdica para que o problema fosse corrigido.


Passam-se dois minutos e ouve-se uma voz feminina ao microfone, chamando a professora. Para resumir e encurtar a conversa: a mãe resolveu chamar a professora ao vivo e no meio da aula − friso, no meio da aula, enquanto ela interagia com os demais alunos, interrompendo o fluxo e a dinâmica da aula −, porque o aluno, seu filho, tinha ficado “chateado” com a correção e não queria mais fazer a atividade. A mãe pedia à professora para conversar com o menino e convencê-lo a retomar a tarefa. E lá se foi a professora parar tudo e atender o aluno e a mãe.


Novas fronteiras


Não pude deixar de pensar: se fosse na sala de aula, aconteceria isso? Sem dúvida, não. Teria sido resolvido de outra forma, provavelmente com a professora detectando o erro mais cedo e interferindo logo ou mesmo trabalhando a correção com o aluno diretamente. E seguiria a atividade.


Mas, claro, estamos em pandemia, com aulas remotas, e os pequenos precisam de auxílio e apoio, como eu e minha esposa oferecemos também. Mas penso e me pergunto: será que é papel da mãe, do pai, do adulto que está acompanhando interferir dessa forma? Será que a professora, com o tempo, não veria ou notaria o afastamento do aluno e trabalharia o problema pedagogicamente? Temos nós, pais, maẽs, adultos responsáveis, o direito de interferir nesse momento?

Não penso, claro, que tal ação tenha sido deliberada por parte da mãe. No máximo apenas a busca apressada de uma solução para a volta do filho à aula. Mas esse fato mostra, escancaradamente, uma quebra de fronteiras que precisará − e logo − ser tratada e trabalhada.


Mesmo por que − e me arrisco aqui a soar óbvio − nem todos têm a noção, o conhecimento e a experiência para saber o que está sendo feito, como a aula está sendo conduzida, qual o objetivo e a lógica da atividade. A pedagogia tem múltiplas facetas e formatos. Levando-se em conta que poderemos seguir no ensino remoto até o final de 2021, e já se nota uma tendência de modelos híbridos de ensino, sinto que situações como a que narrei acima − e teria muitas outras − serão mais comuns do que se imagina.


Talvez tenha chegado o momento de a escola ensinar os pais a acompanhar e a ajudar os filhos durante a aula.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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