• Bárbara Semerene

Saúde na escola: quem está seguro?

Atualizado: há 3 dias



Não fosse por uma decisão judicial a pedido do Ministério Público do Trabalho, as aulas presenciais em muitas escolas particulares de Brasília teriam começado na última segunda-feira (27). O juiz mandou adiar por dez dias. Representantes de escolas já recorreram. No Rio de Janeiro, assistimos a uma polêmica propaganda do Sindicato das Escolas Particulares local atacando o isolamento social e alegando que hoje já se sabem os critérios de segurança e proteção para que as crianças voltem às aulas presenciais minimizando os riscos de contrair a covid-19.


No meio de uma pandemia mundial causada por um vírus mortal, de comportamento e efeitos ainda inteiramente desconhecidos pela ciência – mas altamente contagioso –, no pico de uma curva que resiste a descer, já contabilizando cerca de 2,5 milhões de casos de contaminação e quase 90 mil mortos só no Brasil, será que alguém pode garantir segurança em algum lugar do planeta Terra?


As escolas alegam que continuarão a oferecer aulas on-line “para as famílias que não se sentirem seguras” em deixar os filhos retornarem às salas de aula no atual contexto. Peraí, o que está em jogo aqui é a 'sensação' de segurança? Seria esta uma questão subjetiva, psicológica de cada pai e mãe – que, a depender de sua história de vida, personalidade, ideologia política e padrão mental, se sentirão mais ou menos confiantes? Ou uma questão de saúde pública e coletiva?


'Sensação de segurança'


Como explicar para o meu filho que as aulas presenciais vão voltar “só para quem quiser ir”, mas que não, ainda não há vacina nem remédio cientificamente comprovados contra o novo coronavírus e, ao redor de nós, temos diversos conhecidos e parentes contaminados, hospitalizados e que morreram por conta dessa doença?


Quando falam de 'sensação de segurança' e dão garantias de proteção, as escolas só podem estar se referindo a qualquer outro tipo de 'segurança': emocional, financeira e não à segurança epidemiológica/científica, referente ao risco de contágio pelo novo coronavírus. De fato, há crianças inseguras em casa, com pais e mães que apresentam saúde mental abalada após meses de confinamento, entre serviços domésticos, trabalho remoto e aulas on-line. Muitos com dificuldades financeiras. Há pais que têm que escolher entre um emprego ou ficar cuidando do filho em casa sem ter dinheiro para alimentá-lo e pagar o aluguel.


Há crianças imersas em um ambiente cercado por violência doméstica, vítimas de assédio moral e sexual potencialmente agravados pelo contexto. Nesse quesito específico, afastar-se de casa tendo como alternativa a escola pode ser 'mais seguro'. Inclusive porque a escola é um importante ator na identificação, na denúncia de maus-tratos domésticos contra crianças e no encaminhamento às instituições de proteção que as atendem. Para muitos alunos, a escola é um refúgio da própria família. Se esta é a segurança à qual as escolas estão se referindo, faltou dizer claramente.


Risco de transmissão


De fato, a escola não é só um espaço de aprendizado e desenvolvimento de habilidades socioeducativas para as crianças. Ela tem muitos papéis. De quebra, é um ambiente altamente propício para a transmissão de doenças. Tudo bem no caso de uma infestação de piolhos (até nesses casos, muitos pais deixam de levar as crianças). Mas como expô-las a um vírus que pode ser letal para elas próprias e torná-las vetores da doença para toda a família, para professores e funcionários da escola e para a rede que as circunda, em um momento em que faltam leitos nos hospitais?


Este é definitivamente um caso de saúde pública e coletiva. Portanto, as autoridades médicas são as únicas capazes de analisar racionalmente, com critérios científicos, e afirmar o quão segura a população de fato está quando a questão é a contaminação dentro da escola. A Sociedade Brasileira de Pediatria já veio a público anunciar que não recomenda o retorno às aulas, afirmando taxativamente que não é seguro voltar agora. A Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, em documento oficial com dados científicos, divulgou que considera prematura a reabertura das escolas, visto que a pandemia ainda está “fora de controle” no Brasil.

Ok, as escolas prometeram adotar medidas como uso de máscara, faceshield, sanitização das mochilas, um metro e meio de distância entre as carteiras, apenas dez crianças por turma. Regras que valem exceto para os bebês do berçário, justo os que precisam ser carregados no colo pelas cuidadoras do colégio e os que metem a mão na boca, no olho, no nariz o tempo todo. Medidas que, como todas as outras impostas pela escola, serão (sabemos) diariamente transgredidas por uma criança ou outra (ou por várias). De que adianta? Basta um para espalhar. Ok, que a temperatura de todos será medida todos os dias, mas tem gente que é assintomática ou tem sintomas leves e não apresenta febre. E aí?


As escolas se responsabilizarão pelas crianças que ficarem doentes e por suas famílias? Pelos funcionários? Arcarão não só com os custos financeiros, mas também emocionais das famílias que por ventura passarem por luto? Isso não consta no contrato.


O debate é científico. E todas as questões aqui colocadas esbarram em pelo menos dois critérios de cientificidade fundamentais: coerência (ausência de contradições) e consistência (capacidade de resistir a argumentos contrários). É na escola, e pelo exemplo, que as crianças aprendem a valorizar a ciência. Esta é uma oportunidade de construir esse valor.


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Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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