• Ronaldo Mota

Só aprendemos porque dormimos


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A correlação entre aprendizagem de qualidade e dormir bem antes da aula, bem como uma boa noite de sono após, é algo bastante bem estabelecido pela ciência e plenamente aceito pelos educadores. Porém, estudos recentes apontam para algo muito mais drástico do que o bom senso do enunciado acima. Ao que tudo indica, simplesmente não aprendemos se não dormirmos e aprendemos pouco ou mal sem um sono que seja suficientemente restaurador e profundo.

O hipocampo é uma região do cérebro, localizada nos lobos temporais, considerada a principal sede da memória e dos processos cognitivos, bem como importante componente do sistema límbico, associado às emoções e comportamentos sociais. À medida que as tecnologias contemporâneas permitem monitorar e mensurar com mais qualidade as atividades do hipocampo, sabe-se cada vez mais sobre a correlação entre sono e essa região do cérebro.


Do ponto de vista do processo ensino-aprendizagem, uma das funções do hipocampo é colaborar na transformação do somatório de informações gerais, coletadas durante o dia, em conhecimento e algo mais profundo ainda, sabedoria. O complexo fluxo entre memórias de curta duração e permanente se dá durante esse processo, entre outras funcionalidades básicas associadas ao ato de aprender, bem como daquilo que é mais sofisticado ainda, o aprender a aprender.

O que está bem estabelecido é que a insuficiência ou má qualidade do sono impactam diretamente no hipocampo, sendo a deficiência de aprendizagem somente uma das diversas consequências. Há registros de maior incidência, em média, de ataques cardíacos entre grupos de controle de pessoas similares cuja única diferença entre eles está na qualidade do sono. Outras doenças, tais como Alzheimer e outras associadas ao sistema imunológico, também evidenciam tal comportamento. Em suma, acredita-se em uma correlação entre envelhecimento e perda de qualidade do sono como sendo elementos que se superpõem, contribuindo para um conjunto de enfermidades relacionadas ao processo de envelhecimento.

Retornando à aprendizagem, atualmente, sabemos que, para um profissional ou um cidadão, tão importante como o domínio de conteúdo e dos procedimentos e técnicas a ele associados, relacionados à cognição, é o desenvolvimento de qualidades complementares, denominadas metacognitivas. Incluem-se nos elementos metacognitivos as habilidades socioemocionais e, principalmente, a capacidade de aprender continuamente ao longo de toda a vida. Assim, se o sono é claramente importante para os processos cognitivos, ele é ainda mais essencial e definitivo para o desenvolvimento das características metacognitivas.

Sendo um bom sono tão relevante à cognição e sendo a metacognição simplesmente inalcançável sem ele, resta a pergunta: há uma receita para dormir bem? Infelizmente, não há uma prescrição única e universal, dado que cada um de nós é único. O que pode haver são orientações básicas, sendo a primeira delas a consciência acerca da absoluta relevância do tema. Frente à percepção do problema, cada um saberá, fruto de suas próprias experiências, e com o devido apoio de um profissional especializado, se for o caso, buscar construir sua própria receita para um sono adequado.

Há vasta literatura científica sobre o tema. Em termos de boas peças de divulgação, sugiro um excelente TED2019, com Matt Walker, intitulado “Dormir é seu superpoder”.

Aos educadores, especialmente nestes tempos em que se dorme menos e pior, resta o conselho de que, ao lado de despertar seus educandos para a beleza do tema a ser aprendido, nunca esquecer de desejar sempre a todos uma boa noite de sono. Parece pouco, mas, de fato, é muito.


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Ronaldo Mota é diretor acadêmico do ITuring. O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.