• Dilvo Ristoff

Rumo à Conferência Mundial de Educação

Atualizado: Abr 29



A Conferência Mundial de Educação Superior (CMES 2021) tem como objetivo remodelar ideias e práticas em educação superior para garantir o desenvolvimento sustentável para o planeta e a humanidade.

– UNESCO


Meta 4: assegurar educação inclusiva e de qualidade para todos e promover a educação continuada ao longo da vida.

– Agenda 2030 da ONU



A pandemia do coronavírus acaba de fazer mais uma vítima: a terceira Conferência Mundial da Educação Superior (CMES). Ela será, mais uma vez, adiada. A informação ainda não é oficial, mas é fidedigna. A conferência, que estava prevista para acontecer de 7 a 9 de outubro próximo, em Barcelona, Espanha, será realizada só no ano que vem, sem data até agora especificada. A UNESCO, organizadora do evento, decidiu, mesmo assim, manter a data de outubro para realizar uma reunião preparatória para o grande evento decenal.


O adiamento acontece em função de inúmeros pedidos de militantes da educação de regiões que não conseguiram realizar as suas reuniões preparatórias e de países que, fortemente afetados pela pandemia, anteviam grandes dificuldades para se fazerem presentes no evento. A boa notícia é que, diante do novo cenário, todos terão mais tempo para melhor se prepararem para um encontro presencial.


Fica desde já a sugestão às atuais autoridades educacionais, que deverão indicar os delegados da representação brasileira, para que aproveitem o tempo a mais que acabam de ganhar. Podem, por exemplo, (1) relembrar o chamamento à ação da última conferência, realizada em 2009, verificando o quanto avançamos, deixamos de avançar e o quanto estamos retrocedendo, como país, em cada um dos itens sugeridos e (2) estudar propostas para cada um dos eixos temáticos previstos para a conferência do ano que vem, preparando-se não apenas para ouvir, mas também para contribuir com o debate internacional.


O grande objetivo declarado da próxima conferência é “redesenhar as ideias e práticas do ensino superior para garantir o desenvolvimento sustentável do planeta e da humanidade”. A grande preocupação continua, pois, sendo a criação de uma educação superior que contribua para que não seque a fonte do conhecimento capaz de proteger a sociedade, atual e futura, de novas pandemias ou desastres naturais, capaz de torná-la participativa no enfrentamento dos grandes desafios planetários: a segurança alimentar, as mudanças climáticas, a gestão da água, o diálogo intercultural, as energias renováveis, a saúde pública, a sustentabilidade da vida no planeta, a construção da paz mundial, a defesa dos direitos humanos, a promoção dos valores da democracia, entre outros.

A proposta da UNESCO deixa claro que a sua atuação está em profunda sintonia com a Meta 4 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, da Organização das Nações Unidas, que propõe “assegurar educação inclusiva e de qualidade para todos e promover a educação continuada ao longo da vida”. Para a UNESCO, a inclusão há muito deixou de ser uma meta estranha. Já em 2009, a CMES discutia a necessidade do uso das novas tecnologias para promover a educação continuada ao longo da vida. De todo modo, agora com o respaldo da Agenda 2030 e no contexto excepcional gerado pela pandemia, essa questão certamente será vista sob novos ângulos (e.g., inclusão digital universal), e a educação ao longo da vida, de forma enfática, será trazida para o centro dos debates.


Para fazer avançar estas e outras ideias, os organizadores da conferência estão propondo um conjunto de eixos temáticos, uma espécie de mapa que possa nos levar a uma nova era educacional, tendo sempre como referência a Agenda 2030 da sustentabilidade, as conferências mundiais anteriores e, agora, como não poderia deixar de ser, os impactos da pandemia do coronavírus sobre a vida no planeta.


São dez os eixos temáticos propostos para o evento: (1) Impactos da Covid-19 na Educação Superior; (2) A Educação Superior e as Metas do Desenvolvimento Sustentável; (3) Inclusão na Educação Superior; (4) Qualidade e Relevância dos Cursos; (5) Mobilidade Acadêmica na Educação Superior; (6) Governança na Educação Superior; (7) Financiamento da Educação Superior; (8) Produção de Dados e de Conhecimento; (9) Cooperação Internacional para Promover Sinergias; (10) Preparação do Futuro da Educação Superior. Eis aí um farto e variado cardápio para as discussões deste ano e para as deliberações do ano que vem.


Claro que as lideranças educacionais do planeta não vão querer sair da crise do coronavírus sem analisar os seus efeitos deletérios sobre a educação superior, pública e privada, sem conhecer as respostas criativas que foram dadas e quais as lições que foram aprendidas. Isso, no entanto, não deverá impedir que a atenção se volte sobre outras ideias provocativas que já estão postas na mesa de discussão há mais tempo, entre elas: definição de uma agenda relevante para a pesquisa sobre a formação da cidadania global; construção do campus global; formas de incorporar as 17 Metas do Desenvolvimento Sustentável ao ensino, à pesquisa e à extensão; novas estratégias para a inclusão de grupos vulneráveis; promoção da igualdade de gênero, da diversidade étnica e multicultural; criação e implantação de currículos mais flexíveis e diversificados para integrar pessoas com necessidades especiais; uso mais intenso das novas tecnologias de informação e comunicação e da inteligência artificial no apoio à aprendizagem; construção de parcerias nacionais e internacionais; criação de universidades que operem como comunidades de aprendizagem ao longo da vida; autonomia, responsividade e responsabilização institucional; financiamento que garanta o acesso, a qualidade, a equidade e a inclusão; participação do setor privado; criação de um fundo global para a educação superior; monitoramento da educação superior no contexto da Meta 4 da Agenda 2030; desenvolvimento de padrões de qualidade global para a coleta, o processamento e a divulgação de dados; aprendizagem de máquina; uso de informações para tomada de decisões e melhoria da qualidade; mapeamento global da qualidade, da equidade e da inclusão; iniciativas intergovernamentais em favor da educação superior; conexões com movimentos de aprendizagem aberta; criação de redes e plataformas voltadas à promoção da cooperação internacional; o papel das instituições de educação superior na próxima agenda de desenvolvimento; processos de aprendizagem ao longo da vida; o novo papel do professor; habilidades transversais; políticas para a universidade do futuro, etc. etc. etc.


Como podemos ver, os temas são variados e são muitas as propostas que já se insinuam nos eixos temáticos. Claro que palavras como inclusão, diversidade, igualdade de gênero, direitos humanos, internacionalização, cidadania global, habilidades transversais e outros devem causar calafrios em algumas autoridades educacionais brasileiras, mas, queiram elas ou não, essas questões serão discutidas e, a partir dessa discussão, surgirão propostas de linhas de ação que serão anunciadas aos quatro ventos mundo afora. Bom seria se pudéssemos, como país, chegar minimamente preparados para contribuir com o debate, como em outros tempos.

Lamentavelmente, a versão pocket zero zero do trumpismo, que alimenta a presente ojeriza brasileira para com os organismos internacionais, não favorece a participação de nossas lideranças educacionais nos debates dos grandes temas da atualidade. Enquanto o mundo discute a educação continuada ao longo da vida, as possibilidades criativas do uso das novas tecnologias no processo educacional dos jovens, alianças internacionais capazes de impulsionar o avanço da ciência, a formação cidadã para uma sociedade planetária, a preparação dos jovens para viverem em uma sociedade em permanente e acelerada mudança, estilos de vida que não ponham em risco a vida das gerações futuras, a atuação do professor diante dos saberes que pululam e se multiplicam na nuvem, as novas formas de se comunicar e discutir o saber, as novas metodologias diante da ameaça de erosão da autoridade do professor como detentor do saber, formas de ampliar a democratização do acesso e da permanência, enfim, enquanto o mundo discute essas e tantas outras questões com potencial para mudar radicalmente a educação no planeta, por aqui, infelizmente, nossas autoridades não só fazem pouco caso das importantes conquistas educacionais das últimas décadas como buscam preencher o seu vazio de ideias com orientações autoritárias e moralistas.


Neste deserto que habitam, solapam a autoridade de reitores e da comunidade acadêmica, nomeiam interventores em flagrante desrespeito à Constituição, hostilizam professores e, para se contraporem a um imaginário esquerdismo de nossas escolas e universidades, insistem em se ocupar com coisas menores – detratores que tumultuam a vida no campus e em nada contribuem com a melhoria do ensino e o avanço do conhecimento.


Em seu chamamento à participação, a UNESCO destaca que “todos os estados membros serão convidados a se fazerem presentes ao evento e a indicarem uma delegação que inclua participantes de diversas origens (backgrounds)”. Que essa diversidade seja respeitada e que possamos participar da conferência mundial com pessoas que pelo menos fizeram o dever de casa.


* * *


Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.