• Paulo Pinheiro

Reflexões sobre o método do caso

Atualizado: Mai 4



Quão bem o método de caso resistiu e se adaptou aos novos tempos? Afinal de contas, há 100 anos, a Harvard Business School publicou seu primeiro caso, General Shoe Company. Esse texto tem como objetivo fazer algumas reflexões sobre a pertinência e relevância do método como um recurso a ser utilizado pelos professores. A ideia é explorar o passado, o presente e o futuro dessa ferramenta de ensino.


É interessante notar que a abordagem utilizada pelo método de caso força, muitas vezes, uma mudança de paradigma por parte do professor. Essa desconstrução faz com que o educador ensine e aprenda ao mesmo tempo. Aliás, o melhor conselho ensinado em Harvard a todas as gerações de instrutores é simplesmente este: confie em seus alunos. Parece tão básico, mas é algo que muitas vezes esquecemos de nos lembrar, especialmente em momentos que são inesperados ou nos pegam desprevenidos.


Porém, se dermos aos nossos alunos esse espaço − tanto para oferecer reflexões sobre o que eles aprenderam quanto para oferecer reflexões sobre o que ainda não foi totalmente compreendido por eles −, coisas incríveis começam a acontecer. É notável como novos insights podem ocorrer nesses momentos. E é incrível como esses momentos podem ser transformados em oportunidades de aprendizado e crescimento. Mas, via de regra, o resultado surge quando há uma relação de confiança entre aluno e professor.


Assumindo posições em cenários do mundo real


Um dos motivos que podem explicar a importância do método do caso, mesmo depois de 100 anos, é justamente o fato de mostrar cenários da vida real. Isso tem um impacto direto no engajamento dos alunos. Um exemplo simples: em um curso de comportamento organizacional é natural que o tema motivação seja abordado. Atualmente, existem casos sobre empresas onde os funcionários são altamente motivados. Porém, existe o outro lado da moeda, com casos de empresas onde os funcionários não estão tão motivados assim. Ou seja, alunos podem reconhecer as causas e consequências da motivação, ou falta dela.


Outra questão muito importante no método do caso é fazer com que os alunos assumam posições. Não só isso, é interessante que os estudantes desafiem seus colegas. Por isso, é papel do instrutor criar um ambiente no qual o debate seja visto como uma forma de sondagem. Cada palavra conta, cada frase ajuda, de forma coletiva, a chegar a uma resposta melhor. Quando o padrão de discussão é compreendido e aceito pela turma, mais fácil fica obter melhores resultados.


'Cases' são divertidos


Talvez seja algo subjetivo tanto para o professor como para o aluno. Porém, em mais de cinco anos aplicando o método do caso, é comum alunos admitirem que "nem viram o tempo passar" nas minhas aulas. Embora não seja necessariamente um critério científico, sempre é agradável perceber que os estudantes saem da aula ainda falando sobre o caso − discutindo e debatendo sobre qual é a solução certa para a empresa.


Outro fator atraente, principalmente para os professores, é experimentar uma aula diferente a cada vez. O case pode ser igual, mas cada turma reage de forma diferente. Até mesmo por questões culturais alguns aspectos podem se destacar perante outros. Normalmente, um bom case prepara terreno para uma série de discussões. Quase sempre há mais de um problema a ser resolvido. Essas características tornam o ensino de casos gratificante.


A pessoa mais esperta da sala de aula


Talvez uma das quebras de paradigmas mais difíceis de serem feitas quando se começa a trabalhar com o método do caso é aceitar o fato de que o professor nem sempre é a pessoa mais esperta da sala de aula. De fato, tanto professores como alunos devem assumir uma posição de uma certa vulnerabilidade. Já começando pelo fato de que é preciso admitir que não sabemos todas as respostas. Aliás, o mundo será um lugar muito mais agradável para se viver quando as pessoas estiverem convencidas de que estamos longe de saber tudo. Inclusive, no mundo real raramente temos todos os dados disponíveis para tomar uma decisão. Ensinar e aprender pelo método do caso significa ter a coragem de compartilhar suas ideias, mas também de ouvir as ideias dos outros. Mais ainda: é preciso ter a hombridade de reconhecer que seu pensamento mudou como resultado de uma discussão.


Dar aula de uma forma mais tradicional pode ser muito mais confortável. Há uma hierarquia implícita na sala de aula: a pessoa na frente é aquela com todas as respostas, e todos os outros apenas tomam notas. Mas, honestamente, será que isso ainda faz sentido? Ao optar pelo método do caso − e outras metodologias ativas −, você percebe o quanto pode aprender com seus alunos. Em uma classe de 30, 60 ou 90 pessoas, você raramente é a pessoa mais experiente em qualquer assunto. Esse sentimento de vulnerabilidade pode ser um obstáculo, mas, depois de superá-lo, não há como voltar atrás.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.