• César Steffen

Ambientes de aprendizagem

Atualizado: Ago 11


“Hoje, praticamente tudo que alguém ensina, ou aprende, já está disponível no YouTube.”

Jon Bergmann, em entrevista ao blog Desafios da Educação.


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Jonathan Bergmann, mais conhecido como Jon Bergman, cuja citação abre este artigo, é um pesquisador e educador norte-americano, autor de mais de sete livros sobre a sala de aula invertida. Com as polêmicas e divergências que sempre podem surgir, Jon é um entusiasmado defensor da ideia e da metodologia do aprendizado ativo e de sua aplicação nas salas de aula.


Em artigos anteriores aqui no Educa 2022 tratei da necessidade, em tempos de EAD crescente, de isolamento social e de novas tecnologias para a educação, de se pensar, analisar e até mesmo experimentar novos formatos de educar, de ensinar, de tratar a relação aluno-professor-turma-instituição.


Penso que é preciso observar não somente o perfil do aluno e sua forma de se relacionar com o mundo, mas adequar o formato da sala de aula a uma realidade de permanente mudança nos processos e paradigmas sociais. Construir, assim, um sujeito que não somente domine certos conhecimentos, ferramentas e competências, mas seja capaz de aplicar tudo isso e de esquecer o que sabe para aplicar novos saberes que surjam. Nisso entra a proposta de Bergmann.


A grande potência da sala de aula invertida e de suas metodologias está, a meu ver, na união de saberes diferentes dentro de um mesmo objeto. Saímos de estratégias de ensino encapsuladas, nas quais o conhecimento de uma área é visto em si química, física, matemática, línguas para sua junção e aplicação a partir de problemas, de projetos que precisam de soluções.


Um exemplo: analisar a formação do sistema solar e construir um relatório pode tratar, desde que devidamente orientado e incentivado pelo professor, de física, de matemática, de geologia, de geografia e até mesmo da língua, na construção do relatório. Também pode permitir que os alunos questionem, duvidem, provoquem e tragam dúvidas e informações além do planejado, ampliando assim o domínio de temas e saberes. E, principalmente, vendo sua curiosidade e busca de conhecimento ser atendida e valorizada.


Com a facilidade de acesso à informação gerada pelas redes digitais, como diz Jon Bergman na já referida citação, praticamente tudo que se ensina pode ser visto, revisto e até mesmo aprofundado na internet, seja num site, no YouTube, em um blog, em uma biblioteca virtual ou mais.


Assim, o estudante pode buscar e construir as informações de que precisa a qualquer momento e nas fontes e nos formatos que preferir. Orientar o processo de construção do conhecimento deve estar no foco dos processos educacionais e na formação do docente como um todo.


Oportunidade


Mas o que tem isso a ver com o Brasil e com nossa realidade?


E se este momento de ajustes e de improvisações no ensino tiver sido uma oportunidade de vivenciarmos novas formas de ensinar, de organizar o conhecimento e sua transmissão?


Qual professor de 5º ano do ensino fundamental já tinha pensando em gravar suas aulas para que os alunos pudessem vê-las quando tivessem acesso à rede? Qual professora ou professor de 1º ano já tinha pensando em orientar as atividades dos pequenos, mesmo a já clássica confecção de cartão do Dias das Mães ou dos Pais, pelo computador de casa (e com os pais ajudando)?


Qual aluno de 4º ano teria pensando em ter aulas sem sair de casa, em ter contato com os colegas somente pelo computador, pelo celular ou até mesmo em nem ter contato? E ter que mostrar suas atividades em uma câmera ou mesmo mandar as tarefas e exercícios fotografados pelo e-mail? Alunos que há pouco riam dos professores que não sabiam ligar o projetor agora se veem às voltas com os recursos da EAD e tendo que pedir ajuda ao professor.


Estas são apenas algumas das formas de improvisação de que tenho tido notícia nos últimos meses. Discutimos a EAD como algo natural, mas esquecemos que ela é forte e presente no ensino superior, enquanto, nas etapas anteriores, não era aplicada nem mesmo como suporte. E agora está na linha de frente.


Mas somente aplicar a EAD não trará mudanças ao cenário da educação. Junto com as tecnologias e os recursos é necessária uma mudança de método, de forma, de abordagem do conhecimento. De pensar a sala de aula e o papel do estudante, do professor, dos colegas e do ambiente educacional.


Precisamos de uma mudança na forma de pensar e de olhar o conhecimento. Mudar a forma de educar, passando mais ao largo da organização em caixas de saberes específicos para tratar do conhecimento aplicado como um todo.


Metodologias ativas


Confesso que, em meus quase 18 anos de docente e mais de 10 atuando também com EAD, tornei-me um entusiasta da sala de aula invertida e, sempre que posso, aplico as metodologias oriundas das metodologias ativas.


Mas sempre me deparo com alunos, mesmo no ensino superior, não totalmente preparados para lidar com esse espaço, com os compromissos, com as atitudes e com as responsabilidades de um processo mais autônomo, menos transmitido e mais participativo e interativo. Muitas vezes, nem mesmo sabem buscar o conhecimento além do que é transmitido. Não sabem pesquisar, não amadureceram ou até mesmo não tiveram contato com a necessidade de buscar o saber.


E sempre me preocupo, não somente como professor, mas como profissional, ao pensar como um aluno que não consegue exercer a autonomia em sala de aula poderá ser e se comportar como um profissional de mercado. E o quanto isso não acaba se refletindo nas oportunidades que surgem e se constroem para esse tipo de estudante.


A sala de aula tem um papel além do educar, do passar conhecimentos. Ela também exercita comportamentos e atitudes na forma de interagir com os outros. E isso precisa estar no centro das metodologias educacionais, junto com as ementas e bibliografias tão cobradas nas avaliações.


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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