• Raphael Preto

Quanto custa a diversidade?



Estava passando pela minha página no Twitter e me deparo com um comunicado de um colega. A namorada havia sido demitida, de uma grande empresa, logo depois de dar uma palestra sobre diversidade e as dificuldades de ser LGBT e negra no mercado de trabalho. Perguntei se a empresa, que é gigante e trabalha com mercado de luxo, havia remunerado a palestra. Ele não me respondeu.


Também vi o presidente da Natura, Guilherme Leal, dizendo que a subida das ações da empresa depois da propaganda com o Thammy Gretchen é um sinal de que o brasileiro está “valorizando a diversidade”. O que é que eu tenho a ver com isso?


Sou uma pessoa com deficiência, tenho paralisia cerebral, sou jornalista, escrevo prioritariamente sobre educação e direitos humanos. O que envolve, em alguns casos, a situação das pessoas com deficiência. Decidi que queria ser jornalista mais ou menos aos 14 anos. Foi numa ida à redação da Folha de S.Paulo.

Antes, eu já tinha essa vontade de ser um “contador de histórias do tempo presente”, mas não sabia se isso seria possível. A imagem que eu tinha de um repórter se assemelhava exclusivamente a de um sujeito que cobria guerras ou acontecimentos policiais de grande repercussão, como uma ação do exército no Rio de Janeiro, in loco, por exemplo.

Descobri que a Folha tinha um chefe de reportagem cadeirante, que já havia passado por todas as etapas da carreira e já tinha coberto um apagão em outro estado e ajudado a denunciar uma rede de prostituição do Maranhão. Tudo isso, ele contou na visita que fizemos.


A partir daquele exemplo, ser jornalista, mesmo para uma pessoa com deficiência e cadeirante, era possível. E eu passei a ter isso como meta.


Nunca perguntei ao repórter, que segue na Folha, e a quem eu considero amigo, se ele havia cobrado pela conversa com os jovens que me serviu de inspiração profissional. Pelo tanto que o conheço, tenho quase certeza de que não.

A Folha nunca 'fez propaganda' de ter um repórter cadeirante em seus quadros. Até ele ter a ideia de criar um blog, que depois virou uma coluna no impresso, acho que se contava nos dedos o número de leitores do jornal que sabiam que um dos repórteres do periódico tinha poliomielite.

Palpitar


Decidido a ser jornalista, me aproximei cada vez mais desse meio. Pegava telefone, e-mail de editores e repórteres. Eu sentia que uma parte deles acreditava, de fato, em mim, outros achavam 'bonitinho' e davam o telefone só pra não fazer desfeita. Também teve uma pessoa, 01 pessoa (uma mesmo) que passou o telefone, mas, nunca respondeu quando contatada.


Era só aparecer alguma coisa sobre pessoas com deficiência que me procuravam. No começo, achei até interessante porque já tinha publicado texto opinativo no jornal com 15/16 anos. Era uma porta de entrada.


Com o tempo, percebi que só me procuravam para falar sobre isso. E passei a recusar convites nos quais os temas fossem exclusivamente deficiência. Atualmente, faço pautas sobre o assunto, porque tem coisas que só a gente que tem alguma deficiência enxerga, mas não é, nem de longe, meu principal assunto de cobertura, eu gosto mesmo é de educação.


Eu não faço consultoria sobre acessibilidade. Não atuo para empresas. No máximo para terceiro setor e, mesmo assim, não me sinto à vontade para falar sobre deficiência na condição de 'oráculo'. Não tenho mestrado ou especialização no tema, tudo o que eu posso falar sobre isso vem da experiência pessoal, visto que não investi tempo ou dinheiro em formação específica na área.


Não acho que uma pessoa com deficiência possa cobrar uma 'consultoria' nem se apresentar como consultora sem que claramente faça disso seu trabalho ou tenha uma preparação acadêmica para isso.


Eu nunca iria a uma empresa na qual não trabalho falar sobre acessibilidade. As pessoas com deficiência carregam consigo um poder de validação muito grande, e é temerário gastá-lo em um ambiente corporativo que você não conhece, sendo você pago ou não.

Mesmo que você trabalhe em uma empresa que lhe peça para falar sobre deficiência, e você aceite, é imperativo que fique claro que a empresa não ganha um salvo-conduto para fazer porcaria só porque tem uma pessoa com deficiência em seus quadros.

Vejo, atualmente, muitas pessoas com deficiência que querem cobrar por 'palpite' em publicações, em processos de seleção. Há empresas que fazem isso e muitas delas empregam pessoas com deficiência. Se quer fazer disso um trabalho, abra uma empresa e deixe claro logo no começo que você vai prestar um serviço.

Por último, se prepare, faça cursos, leia muito, porque não há nada mais capacitista que remunerar a deficiência.


(Artigo originalmente publicado no blog Na Kombi Cabe.)


* * *


Raphael Preto, 26 anos, é jornalista e são-paulino. Foi estagiário no Instituto Alana e já colaborou com a Folha de S.Paulo e com o UOL, sempre cobrindo educação e direitos humanos.

raphael.preto@uol.com.br


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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