• Bárbara Semerene

Punição compensa?



Usar castigo físico como método 'disciplinador' não é uma opção para os pais. Esse tipo de (des)educação, além de ser consensualmente recriminada por educadores, psicólogos, pedagogos e qualquer profissional que lide com infância, é crime previsto em lei. Punições físicas e, inclusive, agressões verbais contra crianças são práticas proibidas desde 2014, quando foi promulgada a Lei Menino Bernardo, também conhecida como Lei da Palmada, que alterou o Estatuto da Criança e do Adolescente e estabeleceu o direito de as crianças e os adolescentes serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou tratamento cruel e degradante.


Não se trata de ser politicamente correto. Trata-se de reconhecer as conseqüências destrutivas para a criança, cientificamente comprovadas. Bem se sabe, entretanto, que uma lei não é capaz de mudar uma cultura de uma hora para outra. Ainda há por aí certas 'autoridades' que defendem atrocidades.


Até pais mais adeptos ao diálogo, cansados de saber que este é o melhor negócio, na hora H, quando já estão 'por aqui', difícil não apelar para o “você vai ficar sem videogame”, “não vai ter sobremesa hoje” ou “vai ficar 20 minutos sentado no cantinho da reflexão”. Ok, esse tipo de castigo não é crime. Inclusive, é prática mais do que comum na maioria dos lares, e imagino que ainda mais em época de isolamento social (todo mundo grudadinho em casa com as crianças 24 horas por dia).


De fato, é a forma mais rápida de cessar 'malcriações'. Mas é bom lembrar de seus efeitos colaterais. Punir um comportamento considerado inadequado significa reprimir a expressão de um sentimento da criança. Ela pode parar de 'amolar' os pais depois de repreendida, mas o sentimento não deixará de existir, os pais terão menos acesso ao mundo particular do filho, e ele não vai conseguir elaborar o que está sentindo. Abafado pelo castigo, aquilo pode resvalar para outro canto, seja na forma de um tique nervoso, de uma explosão fora de contexto, de reprimendas em relação aos pais em algum momento. E até mesmo em transtornos piores mais tarde.


Também é bom ficar alerta a comportamentos que o filho repete mesmo tendo sido repreendido várias vezes com 'castigos'. Não, ele não precisa de uma punição mais enérgica. Os pais é que precisam parar para refletir: o que tais atitudes podem revelar não só sobre ele, mas sobre o que a família está passando? Reprimir um comportamento muitas vezes torna menos visível e palpável um sentimento que está pairando no ar na família: a criança atua apenas como porta-voz do grupo.

Acolher e apoiar

O especialista em educação americano Alfie Kohn, autor do livro Unconditional Parenting (Paternidade e Maternidade Incondicionais, em tradução livre), um crítico do modelo de educação baseada no castigo e recompensa, diz que os pais deveriam se perguntar menos "como fazer meu filho agir como quero?" e mais "do que meu filho precisa e como posso dar a ele o que ele precisa?".

Segundo Kohn, é equivocada a visão de que somos pais permissivos e vivemos numa sociedade centrada na criança. "Os pais não precisam ser mais rígidos com os filhos, mas, sim, passar mais tempo com eles, para dar mais orientação e tratá-los com mais respeito." Kohn defende uma educação menos voltada a estratégias que façam as crianças agirem conforme queremos no curto prazo. Segundo ele, quanto mais usamos a punição como conduta, mais criamos pessoas que pensam em como as consequências de suas ações afetarão elas próprias e não os outros... Crianças autocentradas. O autor argumenta que a punição impede a reflexão moral. E aconselha: seja mais acolhedor e apoiador do que controlador.


Tem mais. Segundo os psicólogos behavioristas, a punição pode desencadear um círculo vicioso entre pais e filhos que leva à repetição de comportamentos negativos tanto de um lado quanto de outro. Quando os cuidadores punem os pequenos (seja pela retirada de algo que eles gostam – exemplo: ficar sem videogame –, seja pela apresentação de algo que eles não gostam – ficar sentado refletindo por 20 minutos), podem eliciar respostas fisiológicas como tremores, taquicardia, palpitações, choro. Tais respostas geram nos pais um desagradável sentimento de culpa, que muitas vezes faz com que eles acabem dando o que os filhos previamente queriam e aquilo pelo qual haviam sido punidos. Desta forma, os pais 'treinam' as crianças para, na próxima 'briga', apresentarem respostas fisiológicas que antes eram espontâneas, mas agora de forma intencional – tais como chorar ou tremer (esperando gerar culpa nos pais e ganhar o que querem). Assim, acabam repetindo uma dinâmica nada saudável, que é a punição seguida da recompensa. No final, as crianças passam a associar castigo a prazer. O perigo é seguir buscando dinâmicas assim em outras relações ao longo da vida.


Cardápio


Na prática, o que se pode fazer na hora 'H', diante de um comportamento negativo da criança (uma birra, um puxão de cabelo na irmã ou ter comido balinha escondido, fora de hora, por exemplo)? Ideal é os pais identificarem junto com a criança a emoção por trás da ação, nomeá-la e ofertar a ela um cardápio de outras alternativas para expressar o que sente. É bom refletir se há espaço na casa para a criança verbalizar emoções negativas ou opiniões contrárias às dos pais – se estes as legitimam ou oprimem. Também é uma boa oferecer reforços positivos quando ela se expressa de forma mais saudável.

A dificuldade é que estas estratégias dão mais trabalho para os adultos, requerem atenção, organização, paciência e maturidade emocional dos próprios adultos. Vale dizer que os efeitos não são tão imediatos quanto o castigo. Mas quem disse que criar filho seria fácil?

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Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do blog Educa 2022.

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