• João Batista Oliveira

Prova Brasil sob Bolsonaro

Atualizado: Set 20



Os resultados e a forma de anúncio da Prova Brasil deixam claro que nada mudou em relação ao desempenho do ensino. As variações das notas nas séries iniciais e finais do ensino fundamental não possuem um significado estatístico ou educacional relevante. No ensino médio, o aumento inesperado de 8,2 pontos em matemática e 12 pontos em língua portuguesa ficará à espera de explicação.

Mas também nada mudou no que se refere ao entendimento da função da avaliação para a tomada de decisões na educação. O MEC optou por elaborar um relatório de 80 páginas apenas com base no Ideb – e não nas notas da Prova Brasil. Ora, como todos sabem ou já deveriam saber a essa altura, o Ideb é uma medida que mistura dois ingredientes: notas e índice de aprovação. Um mesmo Ideb pode revelar uma situação totalmente diferente, tornando o Ideb um dado de pouca ou nenhuma utilidade. 

Ademais, como o próprio relatório permite observar, a melhoria de notas atribuída a mudanças nos critérios de promoção praticamente se esgotou nas séries iniciais. Daqui para frente, só aumenta o Ideb quem melhorar a nota na Prova Brasil. Ou seja: somente agora as pessoas talvez comecem a prestar atenção nas notas da prova, e não no Ideb.

'Metas pífias'


Ainda sobre o Ideb: o relatório demonstra que 60% dos municípios brasileiros atingiram a meta para a rede pública nas séries iniciais. Mas, se adotarmos um outro critério do MEC, que é o nível de proficiência, veremos que 50% dos alunos das séries iniciais não dominam o básico. Ou seja: as metas são pífias. Atingir metas do Ideb não possui qualquer significado educacional. Mas o MEC continua insistindo no Ideb, o que demonstra que nada mudou sobre o entendimento da educação e dos usos da avaliação.

Prova Brasil é oportunidade para refletir sobre os rumos da educação. Em um quadro de desempenho pífio, as diferenças entre redes públicas e privadas permanecem gritantes. O desempenho médio de um aluno de 9º ano das redes públicas é próximo do desempenho médio de um aluno de escola privada no 5º ano. O ensino médio público, com sua equivocada concepção, contribui para destruir qualquer possibilidade mais significativa de inserção social dos jovens na escola, no mercado de trabalho e na vida.


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João Batista Oliveira é psicólogo e Ph.D. em Educação pela Florida State University (1973). Pós-doutorado e Visiting Scholar da Graduate School of Business, Stanford University (1977-1978). Professor universitário no Brasil (UFMG, COPPEAD/UFRJ) e na França (Université de Bourgogne, Dijon). Em 2016, recebeu o Prêmio Darcy Ribeiro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Publicou dezenas de artigos científicos em revistas nacionais e internacionais, bem como livros técnicos e outros voltados para políticas públicas. Foi diretor do Ipea e secretário executivo do MEC. Trabalhou como funcionário do Banco Mundial, em Washington, e da Organização Internacional do Trabalho, em Genebra. Em 2006, criou o Instituto Alfa e Beto, que se dedica a promover o conceito de educação baseada em evidências e tem foco em intervenções voltadas para a educação infantil e séries iniciais do ensino fundamental, com ênfase na alfabetização e na leitura.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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