• Dilvo Ristoff

Problemas no País das Maravilhas

Atualizado: Ago 24



Em 2011, depois de ministrar um curso ao mesmo tempo presencial e on-line, Sebastian Thrun, professor titular da Universidade de Stanford, percebeu que era hora de mudar. Presencialmente, o seu curso foi oferecido a 200 alunos da própria Stanford e a distância, a mais de 160 mil. Os 200 alunos presenciais rapidamente se tornaram 30, pois a grande maioria passou a preferir os vídeos do professor ao próprio professor.


A crescente popularidade de seus cursos fez com que Thrun se sentisse motivado a dar passos mais decisivos. Ele abandona a carreira estável de docente e cria a sua empresa, a Udacity, e começa a oferecer Massive Open Online Courses (MOOCs). Segundo Thrun, o que o levou a se aventurar na educação a distância foram as práticas pedagógicas tradicionais, insensíveis demais às mudanças tecnológicas. Em suas palavras: “Tivemos a industrialização, a invenção do celular, da mídia digital e, milagrosamente, os professores de hoje ensinam exatamente como ensinavam mil anos atrás.” E arremata: “Tendo feito isso, não consigo mais ensinar em Stanford.”


A escolha de Thrun é uma escolha entre o tradicional e o novo; entre ministrar aulas para um número pequeno de alunos em uma sala de aula, num horário predeterminado, e ensinar milhares de pessoas, em seus próprios ritmos, tempos e espaços. É também uma escolha entre o velho campus e o campus do futuro; entre a biblioteca como um espaço restrito que abriga um acervo e as ferramentas de busca de informação em todos os cantos do planeta; entre um currículo rígido como o cristal e um currículo maleável como a chama; entre uma sala de aula com paredes e um espaço aberto sem limites; entre o professor sabe-tudo e o professor orientador, entre o ensino expositivo e o ensino centrado na resolução de problemas.

Busílis

O primeiro MOOC de Thrun foi motivado pela possibilidade de atingir milhares de pessoas ao redor do mundo. Ele abre o seu curso e 160 mil se inscrevem, alunos oriundos de 169 países. A quantidade e a diversidade eram motivo de satisfação, mas qual não foi a sua surpresa quando, ao avaliar os exames finais ele constatou que “nenhum dos 400 alunos com os escores mais altos estudava em Stanford. Todos tinham feito o curso pela internet”. Fascinado, Thrun descreve a sua experiência com as novas tecnologias como uma droga viciante: “Sinto que há uma pílula vermelha e uma pílula azul. Você pode tomar a pílula azul e voltar à sua sala de aula e fazer preleções para os seus alunos, mas eu tomei a pílula vermelha e vi o País das Maravilhas.”


É aí que está o busílis da questão! Thrun viu o País das Maravilhas de perto e não o achou tão maravilhoso assim. Percebeu que a educação a distância também tem problemas. Por isso, anunciou recentemente que vai fazer modificações no seu projeto original: “Eu imaginava dar às pessoas uma educação profunda — ensinar a elas algo substancioso, mas os dados estavam em desacordo com essa ideia.” Ou seja, os dados anteriores também podiam ser lidos de outra forma, anestesiando o otimismo. Repentinamente, o homem que atraíra 1,6 milhão de estudantes estava diante de um dado chocante: menos de 10% dos matriculados terminavam os cursos e, pior, uma análise mais detalhada informava que de cada cem matriculados, só cinco, de fato, aprendiam o assunto estudado. Em suma, a “revolução educacional” tinha um lado perturbador. Pior: um estudante de graduação estudando álgebra presencialmente tinha 52% a mais de chance de ser aprovado do que um que assistisse às aulas de sua empresa, a Udacity. A sua constatação: “Pouquíssimas pessoas parecem concluir os seus cursos quando não estão sentadas em uma sala de aula.” Diante disso, a avaliação que Thrun faz do seu próprio trabalho é cruel: “Temos um produto ruim”.

Parceiros

Se um dos pais dos MOOCs faz este tipo de avaliação sobre o próprio trabalho, não há razões para que professores menos familiarizados com o assunto os sacralizem ou os tornem um substituto perfeito de suas atividades presenciais. As novas propostas de Thrun, associando-se a universidades como a San Jose State University, da California, e o Georgia Technological Institute, oferecendo, pela primeira vez, cursos acreditados e construindo parcerias com empresas, que pagam por suas aulas, são desenhos interessantes e merecem ser estudados. Mesmo assim, a avaliação do próprio Thrun sobre o seu novo formato continua não sendo das melhores: "Não estamos fazendo nada tão rico e poderoso quanto o que uma educação tradicional em artes liberais ofereceria a você.” Na visão de Thrun, a sua universidade do futuro deverá interagir mais com as empresas e dar especial atenção a cursos de formato mais curto, mais focados na profissionalização.


Pode até ser, mas estamos claramente diante de mais um exercício de futurologia. Neste caso, a visão de educação universitária de Thrun se choca, frontalmente, não só com o que a Universidade, com “u” maiúsculo, tem historicamente proposto, mas também com as Conferências Mundiais da Educação Superior da UNESCO e com estudos recentes realizados em vários países pelo Banco Mundial (ver The Changing Nature of Work). Todos enfatizam que a educação superior vai muito além do desenvolvimento de habilidades específicas voltadas para o presente, devendo a um só tempo responder e se antecipar às necessidades sociais, o que implica desenvolver o pensamento crítico e interdisciplinar, promover a pesquisa e o uso de novas tecnologias e desenvolver programas para a educação ao longo da vida (CMES).


Já o Banco Mundial destaca que “os sistemas de educação superior devem assegurar um mínimo de habilidades cognitivas transferíveis, que são a melhor proteção contra a incerteza da empregabilidade”. Destaca ainda que “a aprendizagem ao longo da vida tornou-se extremamente necessária ... e a educação superior, dada a sua capacidade de ofertar uma grande variedade de cursos e programas, tende a atender bem a esta crescente demanda, o que, no atual contexto de mudança da natureza do trabalho, torna as universidades uma atrativa plataforma para a criatividade e a inovação”. A visão de educação universitária de um dos papas dos MOOCs, portanto, está longe de ser consenso.


As mudanças de Thrun em seu projeto original também levantam outras questões sérias. O que começou como aberto fecha-se; o que começou como gratuito torna-se pago; o que beneficiava a todos agora fica restrito a alguns. O próprio Thrun, sem tirar o pé da nuvem, voltou ao campus da Stanford, em regime de tempo parcial, para dar aulas e orientar alunos de pós-graduação.

Em suma, embora as novas tecnologias tenham vindo para ficar e se constituam em importante ajuda nos processos educacionais, há ainda muitas questões a serem resolvidas. Que essas questões não sirvam de justificativa para que se continue a ensinar como se ensinava há 100 anos. Os MOOCs, a EAD e as plataformas digitais não devem ser transformados nem em deuses nem em demônios, mas, simplesmente, em parceiros da educação. Como bem lembrava a CMES de 2009, “as instituições de educação superior precisam investir na capacitação do corpo docente e técnico para que possam bem cumprir as novas funções nos novos sistemas de ensino-aprendizagem em evolução”.


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Dilvo Ristoff é doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do site Educa 2022.

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