• Flavio Comim

Por que Amartya Sen não é popular no Brasil?

Atualizado: Ago 7



Se tivesse que definir o Brasil em uma palavra, eu não hesitaria: 'desigual'. O Brasil é a terra da desigualdade. Nossa desigualdade é tão profunda que nem desigualdade é mais. Temos uma sociedade polarizada. Uma sociedade hierarquizada. Isso é mais que desigualdade. Se diz que desigualdade é que nem colesterol: tem o bom e tem o ruim. Tem aquela desigualdade necessária, que serve como incentivo para recompensar esforços e talentos, e aquela desigualdade que atrapalha o funcionamento dos sistemas econômicos e sociais. No Brasil a desigualdade má prevalece. A desigualdade fez de nossas instituições de Estado verdadeiras cleptocracias. A desigualdade minou nossa democracia.


Mas, se somos um país com uma desigualdade tão perversa, por que Amartya Sen, um dos grandes expoentes intelectuais desse mundo, que destrinchou os meandros da desigualdade de forma brilhante (a ponto de ganhar o prêmio Nobel em Economia em 1998 e uma outra infinidade de prêmios ao longo da sua trajetória acadêmica), é tão pouco conhecido nos meios acadêmicos brasileiros, em especial entre os economistas? Essa foi a questão levantada pelo Fábio Tadashi em uma discussão no Twitter. Em suas palavras, “por que, no Brasil, se fala tão pouco de suas ideias, sendo que são tão relevantes?”


Acredito que quatro causas principais explicam o porquê de o Sen ser tão pouco conhecido no Brasil. Vamos lá.


O Sen é um liberal. Mas não um 'neoliberal'. Ele é um liberal à moda antiga. É um liberal como o Adam Smith, o John Stuart Mill, o Marquês de Condorcet ou como, mais atualmente, o John Rawls. Ele descende intelectualmente dessa linhagem. Como tal, ele se situa operando no espaço intelectual da esquerda americana democrata. Com sua ênfase em políticas para os mais pobres, em uma atuação mais contundente do Estado, ele sem dúvida é material de esquerda. O problema é que essa categoria 'liberal de esquerda' é difícil de ser digerida pela esquerda brasileira. Desse modo, a direita não quer saber do Sen, porque essa história de questionar eficiência produtiva e alocativa como bem supremo da economia é uma conversa muito heterodoxa, para não falar dessa obsessão dele com a pobreza e a desigualdade, e a esquerda também tem dificuldade em entender como essa linhagem liberal clássica encaixa com políticas progressistas. O Sen é, assim, órfão do dualismo político que encaixa todos em esquerda ou direita.


Há um certo problema de ignorância também entre nós. Pois muitos de nós, sem o devido cuidado de ler Adam Smith, pensamos que ele é um campeão do livre mercado, da mão invisível etc. Se as pessoas tivessem lido pelo menos toda a Riqueza das Nações ou parte da Teoria dos Sentimentos Morais ou a introdução do Beliefs em Action, do Eduardo Giannetti, saberiam que isso não é verdade. Saberíamos que o Adam Smith tinha uma grande preocupação com a psicologia da moralidade, o fortalecimento das instituições e que era tudo menos um 'farialimer'.


Uma segunda causa tem a ver com a natureza do próprio trabalho do Sen. Apesar de ter nascido em novembro de 1933, ele é um pensador do século XXI, que é intrinsecamente inter e multidisciplinar. Alguns de seus livros, como o Collective Choice and Social Welfare, originalmente publicado em 1970, com uma edição revisada de 2017, são extremamente matemáticos. Se você não tiver um traquejo em provas matemáticas, teoria dos conjuntos etc., fica difícil. Se não tiver um Debreu ou Mas-Colell atrás de você, fica complicado encarar. E, por outro lado, outros livros que são essencialmente sociológicos, como a série de que ele fez com Jean Drèze sobre a Índia, o último, An Uncertain Glory, de 2013, demandam um conhecimento da realidade histórica e empírica que não é trivial. Saímos do mundo anterior de teoremas para o mundo dos números, dos gráficos, dos fatos e da própria história. E tudo isso é muito diferente daqueles trabalhos que são profundamente filosóficos, como o Ideia de Justiça, de 2009, no qual um conhecimento básico de Aristóteles e Kant é útil, mas no qual um conhecimento da filosofia de John Rawls é essencial. Entender filosoficamente Sen é uma tarefa que exige um esforço de preparação considerável. Tudo isso demanda uma estrutura de organização do conhecimento interdisciplinar que é mais encontrada em modelos pedagógicos universitários anglo-saxônicos. O sistema universitário brasileiro ainda é feito muito de caixinhas.


Para a terceira causa, conto uma breve história. Em 2001, eu organizei na Universidade de Cambridge uma conferência com o Sen, na qual a grande pesquisadora uruguaia Andrea Vigorito apresentou um artigo que era exatamente sobre isso, "por que o Sen não é popular na América Latina quando a sua temática é tão relevante?" A sua resposta foi que nenhuma instituição latino-americana havia abraçado o Sen, assim como instituições europeias, asiáticas e norte-americanas tinham feito. O seu ponto foi claro: temos um negacionismo da desigualdade que é institucionalizado e estruturante nos Estados latino-americanos. Assim, não é somente o caso de que o Sen não seja parte de matérias universitárias devido aos dois primeiros pontos. O problema é que não há uma institucionalização do seu trabalho por conta da própria natureza desigual dos Estados latino-americanos. (Eu trabalhei alguns anos no PNUD [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento] e poderia falar sobre o que vi no governo brasileiro, mas desviaria desse texto). E isso nos leva à última causa.


Vou ser bem direto: o Sen é um inconveniente para as elites brasileiras. Ele fala de redução de pobreza, de desigualdade, de como privilégios e a plutocracia minam as democracias. Ele discute problemas de identidade. Ele cobra o pouco investimento feito em saúde e educação e como isso é importante para o desenvolvimento humano. Ele critica o fetiche do crescimento econômico, usado para produzir julgamentos políticos sem a participação do povo. O Sen é uma pedra no sapato de um projeto de país que sempre buscou manter na pobreza e na ignorância sua população. Nem todos governos brasileiros foram iguais e não podemos generalizar assim, é verdade. Mas o que quero dizer é que a temática de Sen traz desconfortos que o fazem menos popular em várias rodas privilegiadas do país.

Em resumo, o trabalho do Sen é difícil de categorizar, difícil de estudar e difícil de institucionalizar em uma estrutura social que procura dar as costas aos seus principais problemas. Vamos falar a verdade: o Brazil sempre deu as costas ao Brasiu. A desigualdade é de fato um problema que não se quer resolver no país. O que precisamos explicar é o porque disso. Não podemos ficar sem o Sen nesse caminho.


* * *


Flavio Comim é professor associado de economia e ética na IQS School of Management da Universidade Ramon Llull, em Barcelona, na Espanha, e professor afiliado de desenvolvimento humano e ecossistemas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. É pesquisador do Instituto Von Hugel, na Universidade de Cambridge, onde também foi membro do St Edmund's College. Coordenou, no Brasil e no Panamá, o Relatório de Desenvolvimento Humano para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Trabalhou como consultor para diferentes agências da ONU, como UNESCO, PNUMA, OIT e FAO. Seus focos de pesquisa incluem economia do desenvolvimento, abordagem das capacidades, desenvolvimento humano, educação, pobreza e aporofobia.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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