• César Steffen

Pior sem?


Foto: Jeshoots.com/Unsplash

‘A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.’

(Albert Einstein)



Vejo e acompanho um debate que ocorre nos bastidores do ambiente da educação superior, mas que ainda − pelo menos que eu saiba − não chegou aos grandes centros nem à mídia especializada.


Muitos manifestam preocupação com a concentração das instituições privadas em grandes grupos econômicos, com presença em todo o território nacional, principalmente pelas questões pedagógicas.


A minha pergunta é: será que isso realmente deve ser motivo de preocupação?


Claro, não entro no mérito de questões econômicas e de concorrência, que são assunto para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e outros órgãos. Meu foco é pensar a educação, a EAD e o cenário em que a educação brasileira se desenvolve. Adianto também, nestes tempos de polarização rápida, julgamentos apressados e cultura do cancelamento, que não pretendo e nunca será meu papel advogar em prol do modelo ou ideia A, B ou C.


Altos e baixos


Como professor de ensino superior há mais de 18 anos e de EAD há 10 anos, já vi e passei por experiências as mais díspares e diferenciadas, tanto em formato, em estratégia pedagógica e mesmo em espaço e recursos ofertados. Mas, até hoje, não encontrei um local de trabalho onde a educação e a formação plena e de qualidade não fossem o foco.


Existia e ainda existe, claro, uma preocupação com números e resultados financeiros, o que credito à necessária manutenção econômica da instituição. Mas, como professor, nunca vi ou vivi situação de, como dizem as lendas, aprovar um aluno sem condições para que ele permanecesse na IES.


Recordo um caso em que, na primeira aula do primeiro semestre − alunos ingressantes −, uma estudante afirmou, com orgulho, que nunca tinha lido um livro inteiro. Exato, ela conseguiu chegar ao ensino superior sem nunca ter lido um livro sequer e tinha orgulho disso.


Claro que meu papel, como professor, foi o de trabalhar para mudar essa realidade e não somente na minha disciplina, mas em todo o curso. Não posso dizer o que aconteceu com essa estudante, a dinâmica da vida e do trabalho nos levou a caminhos muito diferentes. Mas sei de casos parecidos. E o que sempre procuramos fazer nessas situações, meus colegas e eu, foi abrir a mente desses alunos.


Como avaliador de cursos do MEC-Inep, já vi muito da educação superior brasileira. Já participei de avaliação na qual, infelizmente, uma professora com função de gestão se apresentava como mestra, quando ainda estava cumprindo os créditos do mestrado − o que, junto a outras variáveis, custou-lhe a reprovação do curso. E já tive que não aprovar cursos e IES por outros motivos.


Mas também já vi experiências e inovações que, não fosse o termo de confidencialidade que rege as atividades de avaliação, já teriam sido assunto de mais de um artigo aqui, por seu potencial impacto e resultados.


Em ambas as situações, encontrei alunos motivados, engajados e interessados, que acreditavam que ali estava um espaço importante de sua formação e de seu percurso profissional − e que encaravam o curso com a seriedade e o compromisso necessários.


O filtro do tempo


Assim entendo que cada instituição, com seu respectivo perfil, irá se relacionar com um perfil de aluno. Haverá aqueles estudantes que buscam uma formação rápida e direcionada para crescer no trabalho ou na empresa. E haverá aqueles que querem experiências diferenciadas, como pesquisa, extensão e mais. E certamente teremos instituições de ensino superior preparadas para atender cada um desses perfis.


Então, todos serão atendidos em suas expectativas e impactados pela educação e pelas estratégias pedagógicas ofertadas. E, como diz a citação de Einstein na epígrafe deste artigo, de alguma forma serão mudados, estarão diferentes de seu estado original.


Por isso, respondendo à pergunta do título, penso que a educação brasileira estaria pior sem estas instituições de ensino. Com menos alcance, menos pessoas envolvidas, menos alunos, menos professores. Em suma, menos em tudo.


Estamos, sim, muito aquém do desejado em termos qualitativos, mas devemos confiar nos órgãos de fiscalização e deixar que o tempo naturalmente filtre e dê sobrevivência às instituições que ofertam qualidade real e efetiva para os seus estudantes. E seguir nossa missão de educar. Pois aí está nosso foco, nosso trabalho e nossa contribuição.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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