• Cláudio Lovato Filho

Piloto de voadeira


Neste conto ambientado no Norte do Brasil, uma reflexão sobre a ligação com o lugar onde se vive e o enfrentamento das mudanças trazidas pelo tempo e pelas imposições da realidade.

* * *

Ele transportava pessoas de um lado para outro do rio Madeira. Era piloto de voadeira. Com esse ofício, sustentava a mulher e três filhos. Moravam numa comunidade ribeirinha não muito distante do centro de Porto Velho.


Fazia esse trabalho havia um ano e meio. Tomou a decisão de se tornar piloto assim que soube que uma grande hidrelétrica seria construída na área. O movimento de trabalhadores e de visitantes da obra certamente faria com que as voadeiras se tornassem ainda mais necessárias, incrementando de forma exponencial a demanda normal dos moradores das comunidades e dos alunos e professores das escolas situadas às margens do Madeira. O tempo de execução do projeto era estimado em pelo menos quatro anos, e depois haveria a fase de operação da usina.


O pai o ajudou a comprar a voadeira. Aprendeu mecânica, ancoragem, atracação, segurança. Conseguiu a habilitação. Para muitos, é apenas isto: uma pequena embarcação a motor feita de alumínio. Para ele, não: era seu ganha-pão, o sustento da família e seu sonho de independência, porque decidiu ser piloto autônomo em vez de empregado de alguma das empresas de transporte fluvial que proliferavam na região.


Mas havia mais: havia o rio.


A possibilidade de trabalhar no rio. O rio que sequer por um único dia deixou de fazer parte de sua vida. A infância de menino ribeirinho, filho e neto de ribeirinhos. Mais adiante, a paixão pela cidade, Porto Velho, do outro lado do rio, o lugar das descobertas de jovem, do qual era afastado e ao mesmo tempo ao qual era ligado pelo rio. O rio de que ele se sentia parte.


Em sua casa, nos apresentou a família. Lá pelas tantas, apontou para o filho do meio.


“Esse aí quase nasceu na voadeira, no caminho pro hospital. Foi por pouco.”


Depois fomos tomar café na frente da casa, que ficava a menos de 50 metros do rio.


“É assim mesmo a vida por aqui”, ele me disse, olhando para as águas turvas.


Mas ele sabia que havia mudanças a caminho: toda a sua comunidade teria que sair dali, por causa da construção da usina. Precisaria ir mais para baixo, mais “a jusante” do local onde seria erguida a barragem. Existia apreensão em relação àquilo, e era possível perceber nos rostos, nos gestos e nas falas um sentimento que misturava resignação e ansiedade, uma rendição temperada com a esperança de que as imposições da realidade não lhes ferissem a alma. De qualquer modo, estariam perto do rio. Mas isso não foi o piloto de voadeira quem disse, foi um pensamento meu.


* * *

Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

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