• Diêgo Madureira de Oliveira

Para que serve um professor?


Foto: Tra Nguyen/Unsplash

Em tempos de pandemia e isolamento social as mudanças forçadas nas nossas rotinas levam, inevitavelmente, à reflexão. Temos pensado sobre prioridades, princípios, atitudes e, aparentemente, questionado mais. É em meio a esse cenário que me deparo com muitos textos em que a importância dos professores é destacada nos mais diversos aspectos, à luz das circunstâncias, seja nos depoimentos de pais que reconhecem a falta do perene acompanhamento pedagógico de outrora ou na infindável lista de tecnologias desenvolvidas por meio de projetos encabeçados por professores, que ganham especial cobertura midiática.


Embora toda essa literatura certamente avive o orgulho pela profissão, não deixa de me causar alguma estranheza a subliminar necessidade de demonstrar a relevância de uma atividade que prescinde absolutamente dessa demonstração.

Explico-me. Apesar de a transmissão de conhecimento ser uma característica que remonta aos primórdios da nossa espécie (não se limitando a ela), a invenção da profissão de professor é relativamente recente na nossa história. Foi a capacidade de compartilhar nossas descobertas e criações que tornou possível a evolução da humanidade, mas o acúmulo de informações nas mais diversas áreas forçou o surgimento de “sistemas educacionais” que precedem as próprias instituições de ensino, depositando em algumas pessoas a atribuição de dedicar-se integralmente (e profissionalmente) ao processo de ensino-aprendizagem (que hoje sabemos inseparáveis). Atualmente, com o aumento exponencial da quantidade de informação por nós produzida a uma velocidade inimaginável há poucas décadas, essas figuras ascenderam definitivamente à condição de indispensáveis.

Quando um professor demonstra os meandros da aritmética, não está só ensinando a calcular, está construindo o alicerce das próximas revoluções tecnológicas. Quando um professor apresenta fatos históricos, não está apenas contando o ocorrido no passado, está desnudando nossos maiores erros para que as gerações futuras não voltem a cometê-los. Quando um professor fala sobre a natureza das coisas materiais, mais do que demonstrar a íntima relação entre matéria e energia, está lançando as sementes para que se revelem os grandes mistérios do universo. Quando um professor explica como funcionam os seres vivos, não apenas revela a brilhante engenharia da natureza, mas convence que somos parte dela, de modo que não há futuro se insistirmos em subjugá-la. Quando um professor compartilha um trecho de uma obra, para além de reavivar um pensamento, está inspirando transformações cruciais. Quando um professor analisa as relações entre grupos, não está apenas expondo conflitos sociais, está esclarecendo que ainda temos muito a evoluir...

Assim, ao entrar numa sala de aula (ou ligar a câmera, para ser mais contemporâneo), não se está iniciando uma mera atividade rotineira, mas um ritual milenar que tem garantido, e continuará garantindo, a sobrevivência da espécie humana.


(Publicado originalmente em 15/10/2020, na página da Universidade de Brasília/Secom UnB na internet.)


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Diêgo Madureira de Oliveira é graduado em ciências farmacêuticas (UFBA), doutor em patologia humana (UFBA/Fiocruz) com pós-doutorado em cancerologia (UBC-Canadá). Professor de bioquímica (graduação) da UnB-FCE e de metodologia científica e bioestatística (pós-graduação).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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