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Pandemia: papel central do professor


Foto: Michal Parzuchowski/Unsplash

Por Mariana Mandelli, especial para a Jeduca


O enfrentamento da pandemia na área educacional tem sido desafiador em todos os níveis de ensino, da educação básica ao ensino superior, uma vez que a adaptação à modalidade remota e as desigualdades de acesso às tecnologias agravam o cenário de incertezas em que toda a comunidade escolar está inserida.

Nesse contexto, novos desafios se somam a outros que já existiam, como mostraram os debates do penúltimo dia do 4º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca, na quinta-feira (22).

O congresso foi realizado de 19 a 23 de outubro em formato on-line. As gravações de todas as sessões podem ser acessadas no site do evento: https://jeduca.org.br/jeduca2020/.

A centralidade do professor


O papel do professor no ensino remoto foi um dos temas centrais da sessão “A pandemia e a volta às aulas em diferentes países”, com a participação de educadores de Israel, Espanha e Chile e a mediação de José Brito, gerente do Canal Futura e membro do Comitê da Jeduca.

Longe das lousas e agora atrás das telas, educadores têm se desdobrado para dar conta de todos os alunos, ao mesmo tempo em que aprendem a lecionar em um ambiente completamente diferente de meses atrás. Mesmo com os avanços tecnológicos e de inteligência artificial que observamos nos últimos anos, a pandemia reforçou o papel docente na aprendizagem e, consequentemente, na sociedade.

“A tecnologia não substitui o contato pessoal e a interação entre os estudantes, nem os professores. Esse é o principal aprendizado desse período”, disse o professor israelense Amit Goren. Na escola onde leciona, ele é coordenador das turmas do 9.º e do 10º ano e dá aulas de matemática no ensino médio.

Perdas e ganhos


A chilena Marcela Villavicencio, diretora de escola pública e professora estadual de história e geografia, concorda. “Apesar do contexto de angústia, os professores fizeram esforços maravilhosos para chegarem a cada uma das casas”, relatou. Segundo ela, o ministério chileno demorou para tomar providências, o que fez com que não houvesse uma proposta única no país.

Em contrapartida, a pandemia trouxe uma oportunidade para a mudança de paradigmas. “A pandemia pressionou o sistema educativo a mudar as formas de avaliação e as formas de entregar os conteúdos. O professor precisa fazer mais do que entregar conceitos. Temos que focar as atividades. A avaliação formativa é a chave”, disse ela.

O fechamento das escolas também afetou o desenvolvimento das habilidades socioemocionais de crianças e jovens – e isso é mais prejudicial para os alunos menores. “Quando estão juntas, as crianças desenvolvem habilidades sociais, de comunicação e de relacionamento importantes para a vida futura”, explicou Mario Fiore, professor de idiomas na Ilha de Tenerife, na Espanha.

Por outro lado, a quarentena impulsionou outras competências nos estudantes. Amit Goren afirma que as crianças e os jovens estão sendo obrigados a gerenciar o próprio o tempo, já que os dias são muito parecidos. “Eles precisam ter motivação, objetivo e aprender a aprender a partir da leitura de livros e da internet”, pontuou.

Desigualdades


O cenário relatado pelos educadores estrangeiros é semelhante ao brasileiro em diversos aspectos, especialmente a dificuldade de enfrentamento das desigualdades.

No Chile, a diretora Marcela afirma que, antes da pandemia, via-se a discrepância entre escolas públicas e particulares. Agora, com o ensino remoto, essas diferenças aparecem entre os alunos de uma mesma turma, por conta da falta de conexão e equipamentos.

Mesmo lecionando em uma escola privada, Mario Fiore também observou dificuldades de acesso a computadores e celulares que facilitassem o ensino remoto. “Como fazer para compartilhar dispositivos eletrônicos em uma casa com muitas crianças, sendo que os pais também usam para trabalhar?”, questionou o professor.

Universidades federais: entre antigos e novos desafios


Além dos desafios impostos pela pandemia, as universidades federais enfrentam dificuldades que já se arrastavam nos últimos anos e que foram agravadas com a covid-19 e com o governo Bolsonaro, como o corte de verbas e os ataques ideológicos.

Esses temas foram debatidos na mesa “O que será das universidades federais no pós-pandemia?”, liderada por Thais Borges, repórter do jornal Correio, da Bahia, e membro do Comitê da Jeduca.

“A universidade não tem tempo para doutrinamento. É o lugar onde os diferentes convivem de forma harmoniosa, com respeito e debate. E é assim no mundo todo – essa é a prerrogativa da universidade, que existe há mil anos. Não dá para ela atender a qualquer tipo de ingerência política, com qualquer viés, como ocorre hoje no Brasil”, disse Edward Madureira Brasil, reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), referindo-se ao processo de escolha de novos reitores de universidades federais

Para ele, é preciso reforçar a ideia de que a universidade é o ambiente de dados confiáveis e da construção do conhecimento. “A universidade mobilizou-se como nunca para fazer o enfrentamento da covid-19. Ela se mostrou solidária e passou a ser uma protagonista desse cenário. A ciência se colocou a serviço na pandemia”, disse.

Nesse sentido, Mariana Pezzo, jornalista e coordenadora executiva do LAbI UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), afirmou que é preciso falar mais sobre as universidades e o que elas realmente fazem. Segundo ela, é preciso pensar como promover o diálogo mais informado sobre a relevância do ensino superior público para permitir que as pessoas participem dos rumos das universidades, o que pode ser feito por meio do reforço de ações de divulgação cientifica.

“Falar delas é defendê-las e desfazer discursos recorrentes e distantes da realidade, como essa questão de que existe um financiamento excessivo ou mesmo a ideia de que elas sejam instituições inúteis, que ficaram paradas durante os últimos meses”, explicou.

Defasagem


A situação precária de algumas instituições também foi analisada. Nilton Brandão, presidente da Federação de Sindicatos de Professores e Professoras de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (Proifes) e professor no Instituto Federal do Paraná, lembrou que as verbas destinadas às universidades não acompanharam a expansão de matrículas nos últimos anos.

“Com o Reuni [Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais], dobramos o número de alunos. Ocupamos o vazio, estamos em todos os estados da federação. Mas o orçamento caiu em relação ao PIB. É importante dizer isso”, pontuou Nilton

Para ele, o fortalecimento da ciência brasileira não pode acontecer sem que essas instituições sejam valorizadas. “Vivemos um retorno de cérebros, cientistas que estavam no exterior começaram a enxergar no Brasil um país que tem uma ciência séria. Mas, de repente, as bolsas estão sendo cortadas”, observou Brandão.

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