• Carolina Witzke Darolt

Pandemia e mudanças

Atualizado: Ago 6



Em 1996, Jacques Delors, presidindo a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, da UNESCO, escreveu um relatório com diretrizes que mudariam o cenário educacional no mundo. Educação: um tesouro a descobrir, texto escrito na ocasião, revolucionou ao trazer para a discussão quatro grandes pilares para a educação contemporânea: aprender a ser, a fazer, a viver junto e a conhecer.


De maneira direta e simples, a proposta de Delors faz a previsão de uma educação integral, capaz de desenvolver o pensamento autônomo e crítico, alinhado ao aprendizado pela prática, em vivência com os outros, reconstruindo o conhecimento para que não seja efêmero, para que se mantenha ao longo do tempo. SER, FAZER, VIVER JUNTO e CONHECER: uma educação que se dirige à totalidade do ser humano e não apenas a um dos seus componentes. Mais do que a transmissão do conhecimento, é necessário saber construir; não basta olhar apenas para a totalidade dos conteúdos aprendidos, é preciso pensar na extensão do coletivo, na força que nasce do grupo. Visionário!


Edgar Morin, um dos principais pensadores contemporâneos, a pedido da UNESCO, também escreveu sobre a educação do amanhã: Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro traz uma relação dos temas que, para o antropólogo, são responsáveis pela formação do cidadão do século 21. Para o mestre Morin, há sete saberes fundamentais que a educação do futuro deveria tratar: o próprio conhecimento; a pertinência dos conteúdos − a necessidade de tratar dos problemas globais e fundamentais; a consciência da condição humana − ser a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico; a construção da identidade terrena − a constatação de que todas as partes do mundo se tornaram solidárias, apesar da opressão e da dominação que devastaram a humanidade; o enfrentamento das incertezas; a reforma das mentalidades, alimentando a compreensão mútua; e, por fim, a ética do gênero humano − a concepção de que o ser humano é, ao mesmo tempo, indivíduo/sociedade/espécie.

Transformação


Depois de algumas décadas, estamos vivendo uma completa mudança de cenário na educação mundial. Da noite para o dia, milhões de crianças e adolescentes saíram das escolas, do coletivo, da aprendizagem compartilhada e mergulharam na complexidade do isolamento e das rotinas on-line. A escola adquiriu um novo sentido. Diretores, supervisores, coordenadores e professores reinventaram possibilidades para alcançarem o aluno, agora separado por um muro chamado de tela. A tecnologia virou estratégia obrigatória para propiciar a aprendizagem, juntando, em um mesmo espaço, aluno, professor e família. Todos juntos, em uma relação complexa, buscando caminhos possíveis para a educação do presente e do futuro.


Os cadernos se transformaram; as perguntas apareceram em chats; as carteiras foram substituídas por lugares domésticos; e o uniforme deu espaço aos pijamas e chinelos. De um lado da tela, um professor em busca de uma conexão, de um contato; do outro, um aluno, resignificando a aprendizagem; e, no meio de tudo isso, uma família preocupada com o presente, mas de olho na educação do futuro. O que esperar? Como, nessa era digital, trazer a educação nos seus pilares essenciais: SER, FAZER, VIVER JUNTO e CONHECER? Como acontecerá a formação do aluno em sua máxima potência? O que esperar para o futuro?


Muitas respostas ainda estão sendo construídas, mas já conseguimos enxergar algumas possibilidades. A relação escola-família, provavelmente, será ampliada e terá um novo significado. As famílias, durante todo tempo do isolamento, passaram a acompanhar os horários, as tarefas, os temas, as dificuldades e caminharam perto da escola. Isso deverá transformar a história dessa relação.

A tecnologia também dará à escola um novo alcance, uma vez que trará novas possibilidades. Os aplicativos, as plataformas, as câmeras não substituirão a necessidade do presencial, mas darão a ele novas possibilidades. O conhecimento, as interações, o alcance das conexões poderão derrubar algumas fronteiras, aproximando pessoas e aprendizagens.


A criatividade, a comunicação, a colaboração e a resolução de problemas complexos se mostrarão fundamentais para um cidadão não só do futuro, mas também do presente. Os tempos foram redimensionados, as necessidades se tornaram urgentes. O aprender certamente será transformado e ganhará um novo contorno depois do isolamento.


Muitas coisas mudarão, ganharemos novos impulsos, novas dimensões, para agora, talvez, com mais ferramentas e uma nova vivência, alcançarmos os sete saberes de Morin. Que venham os novos desafios! Que a educação alcance sua máxima complexidade!


* * *

Carolina Witzke Darolt é diretora pedagógica do Colégio Sigma, onde trabalha há quase 15 anos, em Brasília. Mestre em educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), formada em letras pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pós-graduada em psicopedagogia pela Faculdade de Ciências e Letras de Araras, atua há quase 25 anos na área da educação. Já trabalhou em Curitiba sua cidade natal , Florianópolis, Pirassununga, São Paulo e na capital federal. Em todos os lugares, aprendeu a aprender.


O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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