• Flavio Comim

Os números da desigualdade

Piketty é um economista político. Disso não deve restar dúvida. Por isso, não somente ele trabalha categorias de análise que surgem da ciência política, como ‘justiça’, ‘ideologia’, ‘poder’, entre outras, como procura usar evidências empíricas em um formato que seja acessível e de fácil entendimento ao grande público. Encontramos no seu livro gráficos muito simples, quase todos enquadrados em dois tipos: tendências históricas ou comparativos entre países.

Também se deve mencionar que ele não gosta do uso de medidas de desigualdade, como o índice de Gini, que escondem a participação de grupos na configuração dos cenários e regimes de desigualdade. É importante para ele que as medidas de desigualdade correspondam a grupos (não necessariamente classes) que apoiem ou não determinadas narrativas, pois disso se trata o livro.

Apesar de os primeiros gráficos do seu livro reconhecerem o progresso geral que houve no mundo, em termos de saúde, educação e renda, nesses últimos 200 anos, o foco de sua discussão é na desigualdade na distribuição desses resultados. Ele trabalha com o conceito de ‘proporção de um grupo na renda total’, comparando frequentemente os 10% mais ricos com os 50% mais pobres em termos de sua parcela na renda total. (As pessoas poderiam também ser classificadas como ‘ricas’ ou ‘pobres’, em função de sua riqueza, um ponto importante levantado por ele no livro O capital no século XXI).



O número para o Brasil é 56%! O que quer dizer isso? Que, no Brasil, o décimo que ganha mais fica com 56% de toda a renda nacional, ano sim, ano também! Piketty comenta que, no caso brasileiro, há um peso considerável do legado histórico de discriminação racial e colonial escravagista na determinação dessa desigualdade. De acordo com ele, o Brasil, assim como a África do Sul e países do Oriente Médio, nunca experimentaram uma fase relativamente igualitária de ‘democracia social’, como algumas outras partes do mundo. Sempre fomos altamente desiguais.

O ponto importante, para ele, não é somente a identificação dessas desigualdades, mas como as sociedades as justificam. Para iniciar essa discussão, ele introduz ‘a curva do elefante’:



Ou seja, entre 1980 e 2018, aumentou bastante a renda dos 50% mais pobres no mundo (principalmente com o crescimento da China e da Índia), enquanto as classes médias e baixas, em países ricos e de renda média, aumentaram menos. No entanto, se olharmos para a direita do gráfico, vemos que o aumento da proporção da renda dos mais ricos, entre os ricos, foi bem superior a todos esses. Durante esse período, o top 1% capturou 27% do crescimento da renda global, enquanto os 50% mais baixos ficaram somente com 12% dessa renda. As grandes fortunas cresceram ainda mais, algo como três ou quatro vezes mais a taxa de crescimento da economia global. Essa é uma posição claramente insustentável que pode levar a uma concentração de renda e de poder, por parte dessas classes, que ameaça a qualidade dos regimes democráticos.

A mensagem de Piketty é simples: chegamos às portas do século XX com uma desigualdade insustentável. De certo modo, isso contribuiu para as guerras da primeira metade do século passado. O momento pós-guerra, de 1950 a 1980, foi um momento de maior igualdade e prosperidade nos países mais ricos. Mas, de 1980 para cá, a ideologia mudou. Depois de examinar os diferentes regimes históricos de desigualdade no seu livro e passar a avaliar a relação entre desigualdade e padrão de voto em algumas economias ocidentais, ele começa a explicar o significado da era Reagan/Thatcher para a mudança ideológica responsável por um novo padrão distributivo no mundo. O gráfico abaixo ilustra esse ponto:



Não nos enganemos. O fato de ele começar o gráfico no eixo vertical no 25% magnifica essas variações. Os números são os mesmos. Trata-se da impressão visual. Mas, seja como for, a realidade representada aqui por esses três blocos (Estados Unidos, Europa e Japão) é de que a desigualdade (representada pela parcela de renda dos 10% mais ricos na renda nacional) despenca depois da Segunda Guerra Mundial, fica estável com tendência de queda até os anos 1980 e depois começa a subir. Mas isso não é homogêneo, como mostra o gráfico. É muito interessante notar como esse padrão de desigualdade é espelhado pelas tendências tributárias. O gráfico abaixo mostra a evolução da maior alíquota de imposto para os contribuintes mais ricos:



No caso dos Estados Unidos, essa taxa passa de 23%, entre 1900-1932, para 81%, entre 1932-1980, caindo para 39% de 1980 a 2018. O ponto interessante é que justamente esse período de maiores impostos aos mais ricos coincide com o período de maior produtividade na economia americana. Para Piketty, fatos históricos como a queda do muro de Berlim e a euforia anticomunista com o desmantelamento do império soviético diminuíram a importância política da redistribuição de renda na vida pública das nações. Ele relaciona esse momento histórico a uma ampla gama de ‘falhas ideológicas’ subsequentes, dentre as quais menciona a incapacidade de conceituarmos ou organizarmos melhor impostos progressivos em um contexto transnacional.

Assim, levanta uma discussão sobre o que define as fronteiras da comunidade humana. Ele não examina as bases éticas dessa afirmação, mas enfatiza o ponto de que o contexto da justiça social deve ser explicitamente global e transnacional. Isso é o que ele diz. Vou suspender o julgamento e deixar a minha análise do livro de Piketty para o último artigo desta série. No próximo artigo, entraremos na parte de história econômica do livro, com as sociedades ‘ternárias’, as sociedades de ordens e a invenção das sociedades de propriedade.


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Flavio Comim é professor associado de economia e ética na IQS School of Management da Universidade Ramon Llull, em Barcelona, na Espanha, e professor afiliado de desenvolvimento humano e ecossistemas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. É pesquisador do Instituto Von Hugel, na Universidade de Cambridge, onde também foi membro do St Edmund's College. Coordenou, no Brasil e no Panamá, o Relatório de Desenvolvimento Humano para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Trabalhou como consultor para diferentes agências da ONU, como UNESCO, PNUMA, OIT e FAO. Seus focos de pesquisa incluem economia do desenvolvimento, abordagem das capacidades, desenvolvimento humano, educação, pobreza e aporofobia.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do site Educa 2022.

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