• Dilvo Ristoff

Os dias da criação da UFFS


O campus de Chapecó (SC), onde fica a reitoria. Foto: UFFS/Reprodução

De vez em quando alguém me pergunta sobre o dia da criação da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Tendo sido o seu primeiro reitor, eu deveria saber qual o dia que deve ser lembrado. Em geral respondo: 15 de setembro. A verdade, no entanto, é que não consigo me contentar com uma resposta que dê a entender que a UFFS tenha sido criada em um dia específico. Ela foi criada em muitos dias.


Claro que o dia 15 de setembro de 2009 foi importantíssimo para a educação superior dos três estados da região Sul. Afinal, ele marca a data da sanção da lei de criação da Universidade Federal da Fronteira Sul pelo presidente Lula. Foi uma data marcante, porque, depois de meses de tramitação do projeto de lei na Câmara dos Deputados e no Senado, com avanços lentos, resistências daqui e dali e ameaça de recuos, a solenidade daquele dia selou, ritualisticamente, um momento de celebração memorável: diante dos governadores, deputados, senadores, prefeitos, vereadores e lideranças dos três estados, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, estava a dizer que, a partir da sua assinatura da lei, a implantação da universidade seria inevitável.


Para quem, no entanto, acompanhou o processo de criação mais de perto, esse foi só mais um dos muitos momentos importantes e inesquecíveis. Para os militantes do movimento pró-universidade federal, muitos outros momentos foram igualmente decisivos, como, por exemplo, a cerimônia do dia 16 de julho de 2008, mais de um ano antes da sanção da lei. Neste dia, o presidente Lula, em cerimônia no Palácio do Planalto, encaminhou o projeto de lei de criação da universidade ao Congresso Nacional. Foi um momento não só de grande importância para o processo todo, mas também de fortes emoções. Não por acaso, foi possível ver muitos militantes da educação pública em lágrimas. Eram lágrimas de alegria, mas não foram as únicas. Outras mais foram choradas quase um ano depois, quando do fim da tramitação bem-sucedida do projeto no Congresso Nacional, sempre sob os olhos de águia do diligente deputado Cláudio Vignatti.


'Vocês terão uma universidade'


Só que um projeto de lei não cai pronto do azul do céu. Ele é resultado de longa discussão e articulação política. No caso do que viria a ser a UFFS, ele estava em construção desde 2003, sustentado por negociação que envolveu demandas dos movimentos sociais organizados, de lideranças políticas e religiosas, com o presidente da República e com os ministros do governo e suas equipes. Para essas lideranças, provavelmente, o dia mais marcante de todo o processo tenha sido 23 de junho de 2006, quando o presidente Lula, por ocasião do II Encontro Nacional da Habitação da Agricultura Familiar, em Chapecó (SC), declarou, em alto e bom som: “Vocês terão uma universidade”.


É evidente que um presidente da República só faria uma declaração desta importância – uma promessa nada trivial – se negociações neste sentido, com lideranças políticas e com os movimentos sociais, estivessem em curso e avançadas. Cabe lembrar que, quando de sua participação na abertura da Exposição‐Feira Agropecuária, Industrial e Comercial (Efapi), em 2003, Lula declarara em seu discurso que “o oeste de Santa Catarina terá uma universidade federal”. Ou seja, a afirmação de 2006 apenas confirma a intenção manifestada três anos antes. Talvez esse seja, então, o primeiro dia da criação da UFFS.


E, claro, o governo não estava alheio às inúmeras audiências públicas, aos seminários e aos atos públicos realizados no oeste de Santa Catarina, noroeste do Rio Grande do Sul e sudoeste do Paraná, regiões dos futuros campi, durante os anos de 2005 e 2006, organizados pelo Movimento Pró-Universidade Federal sob a coordenação da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul e do Movimento Sem Terra.


Para outros ainda, o dia mais importante talvez tenha sido o da decisão do ministro da Educação, Fernando Haddad, de criar a Comissão de Implantação. Oito meses após o envio do projeto de lei ao Congresso e cinco anos após a primeira declaração de Lula, algumas lideranças já começavam a pôr em dúvida a vontade política do governo no sentido de garantir o êxito da proposta. Por isso mesmo, para muitos, a solenidade de instalação da Comissão de Implantação, em 11 de fevereiro de 2009, foi o ponto de inflexão, o momento decisivo rumo à criação da universidade.


Prazo, palmas (e concursos autorizados)


Convidado pelo ministro Haddad a presidir esta comissão, recebi a incumbência de pôr a universidade em funcionamento até março de 2010, em cinco campi, nos três estados da região Sul. A tarefa era, evidentemente, hercúlea, pois não havia ainda legalmente uma universidade (a lei de criação só foi sancionada oito meses mais tarde), não havia um terreno, uma sede provisória, uma mesa, uma cadeira, um telefone, uma conexão de internet, um professor, um aluno, um técnico, um projeto pedagógico, um curso. Alguns diriam que não tínhamos nada. De fato, não tínhamos essas e muitas outras coisas necessárias ao funcionamento de uma instituição, mas tínhamos algo mais importante: um sonho em fina definição. E, além do sonho, tínhamos quatro coisas fundamentais para torná-lo realidade: (1) a determinação por parte do governo para criar a universidade; (2) um forte apoio dos movimentos sociais organizados e das lideranças locais e regionais; (3) o comprometimento institucional da UFSC e de seu INPEAU em apoiar a execução do projeto; e (4) a abnegada dedicação de uma pequena equipe ao rigoroso cumprimento do plano definido pela Comissão de Implantação.


Oito meses mais tarde, no dia da sanção da lei pelo Presidente da República, com medo de esquecer de dizer algo importante, levei meu discurso por escrito à solenidade. Eis uma parte dele:


“Foram oito meses de trabalho intenso, diuturno e abnegado por parte de todos nós, e os resultados indicam que efetivamente obtivemos êxito: os cursos estão definidos, os locais, provisórios e permanentes, que abrigarão professores, técnicos e alunos, estão escolhidos e negociados (temos hoje mais de 500 hectares de terra doados nos cinco campi), o projeto pedagógico institucional está elaborado, os projetos de curso, com ementas, matrizes curriculares, bibliografia definidos, o processo de seleção dos candidatos via Enem está estabelecido, as fórmulas das ações afirmativas que beneficiarão estudantes oriundos da escola pública estão elaboradas, os editais para concurso de professores e técnicos estão prontos, esperando apenas a liberação das vagas pelo MEC e Ministério do Planejamento, os livros que sustentarão as disciplinas do tronco comum estão licitados, o funcionamento do sistema de catalogação, classificação e atendimento das bibliotecas está avançado, enfim, todas as grandes ações estão encaminhadas e não há dúvida, Senhor Presidente e Senhor Ministro, de que iniciaremos as aulas em março de 2010..."

Quando destaquei que as aulas poderiam começar em março próximo (estávamos em meados de setembro de 2009), as palmas de reconhecimento foram longas e intensas. Agradeci as palmas e disse-lhes que precisava ler a minha frase até o fim. E repeti:

“e não há dúvida, Senhor Presidente e Senhor Ministro, de que iniciaremos as aulas em março de 2010, se tivermos os concursos autorizados até a próxima semana”.

Palmas outra vez! Foi então que vi o presidente Lula virar-se para o seu ministro do Planejamento e dizer algo como “Paulo, agora a coisa é contigo”!


O campus de Erechim (RS). Foto: UFFS/Reprodução

Exatamente um mês mais tarde fui empossado como o primeiro reitor da UFFS e, no mesmo dia, recebi a notícia de que as vagas estavam liberadas. Como eu tinha fortes razões para acreditar nessa liberação, dei continuidade aos trabalhos em andamento e, alguns dias depois, os editais dos concursos para professores e técnicos estavam sendo publicados, assim como as regras e os procedimentos para o primeiro processo seletivo dos estudantes da instituição. Para mim, esse dia, 15 de outubro, foi mais um desses dias decisivos no processo de criação. Não porque foi o dia da minha posse, mas porque todo o esforço até então empreendido teria sido inútil se as vagas para professores e técnicos não tivessem sido asseguradas. Sem as vagas, não haveria concurso, não teríamos nem os professores nem os técnicos que estão aí até hoje e que ficarão na casa durante a maior parte de suas vidas. E, claro, não haveria também seleção de estudantes. Ou seja, a universidade não existiria, pois uma universidade de verdade se constitui essencialmente de pessoas, em especial de pessoas pertencentes a um quadro permanente de professores e técnicos encarregados de viabilizar a função de produzir e fazer avançar o saber. Esta nobre função não se realiza com substitutos temporários, mas sim com pessoas com comprometimento total com a instituição, com raízes, com senso de pertencimento e de participação na construção diária e continuada de uma história.


Alunos


Para os que consideram que uma universidade só começa a existir quando tiver alunos em sala de aula, a data a ser celebrada não é 15 de setembro de 2009, mas 29 de março de 2010. Para mim, esse foi, de todos, o momento de maior alegria e emoção de todo o processo, uma espécie de sexto dia da criação. Foi como se, de repente, os meses de trabalho abnegado de toda uma equipe e a luta obstinada de anos dos movimentos sociais, das lideranças políticas, da equipe do governo, como se tudo tivesse se concentrado naquele momento, sublime e mágico, em que 2.160 estudantes, distribuídos em 42 cursos de graduação, estavam sentados, em sala de aula, com todos os professores concursados, recebendo ensino de boa qualidade. Foi mais um dia de grande emoção em que vi lágrimas de alegria nos olhos de vários membros da minha equipe mais próxima. Foi nesse momento que, carregado pela emoção, eu disse a mim mesmo que a universidade estava de fato criada.


Penso, no entanto, que eu não estava totalmente certo, pois uma instituição dessa natureza, construída a tantas mãos, não tem uma única data de criação. A sua existência depende do esforço convergente e da participação de muitos – de muitos durante muito tempo. Estou convencido de que a universidade continua a ser criada e recriada a cada dia que passa, agora não mais pela vaga de um professor, aluno ou técnico, mas pelo professor e aluno e técnico de carne, osso e alma, ou seja, pela própria comunidade universitária. Um ano mais tarde, quando alguns alunos e professores já começavam a questionar as decisões tomadas pelo reitor, eu me dei conta de que, talvez só agora, sim, talvez só agora, eu poderia me dar por satisfeito e dizer, tranquilo, que ela estava de fato criada, pois conseguiria, enfim, fazer voos mais ousados, voando com as próprias asas.


* * *

Dilvo Ristoff foi o primeiro reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos, foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".