• Paulo Pinheiro

Os alunos como protagonistas



Qual é a verdadeira dimensão do método do caso? Como e por que ele é transformador? Como isso facilita o surgimento daqueles momentos que professores e alunos se lembram muitos anos depois? Que mudança de mentalidade o ensino do método de caso exige dos educadores? Uma resposta para tantas questões é o protagonismo concedido aos estudantes.


O método do caso envolve mais do que usar casos de negócios como fonte de conteúdo ou incentivar os alunos a participarem das aulas. Sim, esses elementos são importantes. Mas o cerne do método de caso está em sua perspectiva de como os alunos aprendem, o que é bastante diferente das pedagogias que privilegiam um papel mais tradicional do professor na hora de transmitir sabedoria a seus alunos.


Para analisar o ensino do método de caso de forma mais detalhada, neste artigo o foco será em como ele funciona para os alunos. É importante notar que o método de caso requer esforço e preparação tanto dos estudantes como dos professores. Na imensa maioria das vezes é isso que faz com que as discussões em sala de aula sejam bem-sucedidas.

O papel dos alunos


A preparação do aluno é essencial para o sucesso das discussões de caso. Esta é uma afirmação um tanto óbvia, porém o estudo feito antes mesmo de entrar em sala de aula adquire um significado mais profundo quando o ensino do método de caso está envolvido. De fato, os debates − que são parte essencial − frequentemente alteram o equilíbrio de quem está falando. Por exemplo, em uma aula tradicional o professor fala 80% do tempo. Resta aos alunos se contentar com apenas 20%. No método do caso, essa proporção se inverte. O que deixa claro que os alunos são responsáveis diretos pelo sucesso de uma discussão de caso.


A preparação do aluno para uma discussão de caso deve ser intensa e ativa. Os alunos que leem passivamente o que lhes é atribuído terão pouco a acrescentar ao debate. Quase sempre se contentam em recitar fatos básicos. Mas, ao assumir uma posição de liderança no mercado de trabalho, é sempre importante estar atento a todas as circunstâncias ao seu redor. Os alunos começam a aprender ativamente apenas quando se colocam no lugar dos protagonistas do caso e fazem as seguintes perguntas:


· Para decidir o que fazer, de quais informações eu preciso?

· Quais informações estão no caso?

· Como posso reunir essas informações junto com meus outros conhecimentos para desenvolver novos insights sobre minha decisão?

· Que capacidades e recursos tenho para influenciar esta situação?


Assim como na vida real, essas respostas nunca são tão simples. Essa percepção vai se desenvolvendo ao longo de um semestre e quase sempre provoca um engajamento notável por parte dos alunos.

Protagonistas


Os estudantes que se preparam da maneira correta acabam se beneficiando de forma direta e indireta. Diretamente, eles entendem mais sobre os casos que analisam, os conceitos que aplicam e o curso em que estão. O benefício indireto, porém, é mais sutil, maior e mais durável: como os protagonistas dos casos que leem, eles aprendem a tomar decisões em um cenário de incerteza e começam a desenvolver a coragem de agir de acordo com essas decisões. A prática contínua desse exercício faz com que eles percam o medo de assumir posições de liderança.


Bem, se esses fossem os únicos benefícios proporcionados pelo ensino do método do caso, já seriam suficientes para recomendar seu uso. Os ganhos mais importantes, no entanto, se baseiam principalmente na preparação dos alunos e são um reflexo da natureza social da discussão do método de caso. Idealmente, esse componente social tem dois elementos sinérgicos.


Em primeiro lugar, os alunos que aumentam sua preparação reunindo-se em grupos de estudo se beneficiam muito com a oportunidade de testar sua compreensão de um caso contra as percepções de outros, especialmente daqueles que possuem posições contrárias. As trocas nesses ambientes permitem que os alunos pratiquem o aprimoramento de seus argumentos, a escuta e a persuasão dos outros. Com a mesma frequência, eles dão aos alunos a oportunidade de mudar de ideia à medida que seus colegas apresentam suas próprias interpretações, assim como um bom líder deve fazer.

Em segundo lugar, esses grupos de estudo preparam os alunos para as muitas direções que a discussão em sala de aula pode tomar. Já ter trabalhado com o caso e considerar o feedback de outras pessoas aumenta a flexibilidade dos alunos para se ajustar ao fluxo da discussão. Mesmo os alunos tímidos podem ficar mais dispostos a testar seus insights em um grande grupo. É uma forma eficiente de enfrentar seus medos antes de iniciar uma carreira no mercado de trabalho.


O verdadeiro aprendizado exige engajamento


Uma frase que circula nos corredores de Harvard diz que "o verdadeiro aprendizado exige engajamento". No método do caso, isso significa que os alunos com os melhores insights durante a aula conseguiram conectar as informações da página 2, com uma citação da página 8 e com os dados de um gráfico exibido no Anexo 3 de um caso. Tudo isso foi feito antes mesmo do início da aula.


Durante as discussões, eles são capazes de ouvir ativamente seus colegas, analisar uma série de informações discrepantes apresentadas pelo grupo e reconhecer momentos em que suas próprias perspectivas foram insuficientes. A participação cuidadosa ensina os alunos a pensarem por si próprios, a apresentarem suas ideias de forma concisa e a ouvir as percepções que diferem das suas − habilidades críticas que serão úteis para eles no futuro.


Ao longo de muitas discussões de caso, os alunos aprendem a refletir sobre como tomar decisões melhores. Mais ainda: eles entendem como aprimorar os seus próprios processos, o que normalmente leva a agir de forma mais ponderada e eficiente durante uma situação de pressão. E, com certeza, esse tipo de aprendizado é mais facilmente obtido por meio das metodologias ativas.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.