• Alceu Luís Castilho

Racismo no ataque a Romero Britto

Atualizado: Ago 18


Vídeo divulgado em redes sociais mostra momento em que empresária quebra obra do artista. Foto: Reprodução.

O desprezo a Romero Britto em certa bolha de classe média Detentora do Bom Gosto sempre me acendeu uma certa desconfiança. Pelo consenso, pela unanimidade, pela necessidade de escolha desse artista específico como símbolo de tudo o que seria ruim ou oportunista em seu meio.


E agora não tenho mais dúvidas: são fortes, muito fortes, os elementos de racismo. Despreza-se Romero Britto com uma certa contração muscular especialmente saliente e apriorística entre o canto da boca e o nariz, misto de sorrisinho e nojo e desejo de eliminação de algum corpo estranho.


(Britto não costuma ser associado à negritude, por ter pele mais clara. Pergunta: vocês o consideram branco? Vejo ele e seus irmãos Roberta e Baltemar como negros. Pergunta: a mulher que quebrou sua obra em Miami faria exatamente o mesmo com um artista estadunidense loiro e de olhos azuis?)


Fico feliz que nem todos estejam a comemorar a performance da dona do restaurante. Só que a falta de adesão imediata a esse linchamento específico não deveria ser suficiente. Deveríamos estar a pensar: por que o odiamos tanto? Faríamos isso com Britto se ele tivesse a cara do Luciano Huck?


A destruição da obra dele pela empresária (notem que não era um funcionário supostamente humilhado) ganha uma comemoração tão explícita que quase ninguém parou para cogitar a hipótese de que esse seja um método deplorável, bárbaro. Vamos destruir as obras de nossos desafetos, é isso?


Primeiro que se aceita de barato que ele tenha feito tal coisa, cometido tal ofensa. Temos o justiçamento. Sem direito à defesa. Segundo, aceita-se de barato que quebremos a maçã que consideramos brega, porque em algum momento foi decretado que Romero Britto seria o ápice do brega.


Ou do brega transformado em mercadoria. A gente aceita a arte naïf por aí na mesma medida em que postula que o que sai de Romero Britto seja intrinsecamente inferior (vejam só...) e profundamente oportunista (vejam só...), como se ele fosse um extraterrestre no circuito da arte. Quando não é, definitivamente não é.


A não ser pela origem ou pela aparência, pois não? Que ousadia a desse senhor, não é mesmo? Quanta autoestima indevida. Pergunta: fosse uma socialite platinada a fazer as mesmíssimas maçãs haveria um consenso tão brutal em relação ao trabalho da artista? E se Romero se chamasse Schmidt?


Humilhação


Mas voltemos à maçã espatifada. Imaginem que alguém não goste de mim (ou tenha ficado puto por algo que eu tenha falado, feito ou escrito) e marque um encontro comigo. Acompanhado de amigos e câmeras. E me peça para autografar um livro. Em seguida, queime-o. Rasgue-o.


É nesse mundo que vocês querem viver?


Alguém fica puto com, digamos, a Petra Costa. Marca um encontro com ela e leva uma coleção de seus filmes. E os atira na parede, espatifa-os. A obra de arte ou qualquer outro item da cultura como instrumentos para cancelamentos, para performances midiáticas. E para humilhar alguém.


Humilhar alguém que a gente despreza. Só que despreza m-e-s-m-o, não é, pessoal? E não porque ele tenha entregue quadros para o Bolsonaro ou tenha destratado alguém. Já não se gostava. Já tínhamos aderido a um consenso: é necessário desprezar Romero Britto, praticamente ter nojo dele.


E é desse asco coletivo (para mim, sim, racista) que surge esse consenso impensado. Qualquer coisa que se faça contra Romero Britto, mesmo que insana, será comemorada por esse Tribunal do Bom Gosto, esse tribunal fascista disfarçado, no caso da maçã espatifada, de defesa dos funcionários humilhados.

Ora, vocês estão humilhando Romero Britto há anos.


E não estou dizendo que é para gostar do artista. Eu não gosto. Embora desconfie dos conhecimentos intuitivos sobre arte naïf ou arte pop (as obras dele ganham interdição em qualquer categoria possível) e da nossa capacidade de vigilância coletiva sobre artistas charlatães ou puramente mercadológicos.


Estou dizendo que esse desprezo vai além do razoável. Não é o mesmo desprezo que temos em relação a autores de novela ruins, bandas horrorosas, escritores medíocres, músicos famosos e atores badalados (e loiros) que compõem ou fazem peças voltadas para o mercado, para ganhar dinheiro.


Seletividade


Gilberto Gil fez música para um paulista quatrocentão chamado Jacintho, réu na morte de um indígena no Mato Grosso do Sul. Gil pode ganhar dinheiro com essa música e esse disco? Eu acho a música ruim. Está tranquilo para vocês queimarmos os discos do Gil por ele ter feito uma música para um canalha?


(Sim, Gil é negro e nordestino. O racismo não será o único elemento no desprezo a Romero Britto. Ele agride nossas pretensões de sofisticação, não se encaixa em nossos cânones. E, portanto, precisamos eliminá-lo, cancelá-lo. Todas as maçãs são iguais, mas umas são melhores que as outras.)


Estranha patrulha, estranho consenso, estranha a seletividade, ódios talvez não tão estranhos.


* * *


Alceu Luís Castilho é jornalista, diretor de redação do observatório De Olho nos Ruralistas e autor dos livros Partido da Terra − como os políticos conquistam o território brasileiro (Contexto, 2012) e O Protegido − por que o país ignora as terras de FHC (Autonomia Literária, 2019).

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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