• Cláudio Lovato Filho

O que não se pode transpor


No fim das contas, de uma forma ou de outra, o passado sempre sobrevive, nem que seja como invenção.


* * *


“Quanto passado cabe no fundo de um lago?”, perguntou-se o jovem repórter enquanto o anfitrião lhe explicava que toda a antiga cidade agora estava submersa no imenso reservatório formado pelas águas do rio Uruguai. As torres da velha igreja eram tudo o que ficara visível acima da linha da água.


“O sino foi levado para a nova igreja”, disse o anfitrião, que nascera a muitos milhares de quilômetros dali, mas que estava na obra desde os primórdios da execução do projeto, quando começou o trabalho para o desvio do rio, nos primeiros anos da década de 1990, e, por isso, atuava como guia para os visitantes.


A nova igreja fazia parte da área central da “cidade nova”, construída para substituir a antiga da forma mais fidedigna possível. A igreja, o salão paroquial, a prefeitura, o fórum, a câmara de vereadores, a escola, o hospital, a estação rodoviária, o cemitério – tudo novo, com sua arquitetura inspirada nos originais da cidade que agora era defunta sob as águas do lago.


“É tudo igual, só que novo”, disse o nosso guia, apontando para um conjunto de casas distribuídas em pequenos lotes.


A usina hidrelétrica, que estava sendo construída na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no lado catarinense, traria um reforço fundamental para a rede nacional de geração de energia.


“As pessoas ainda estão se acostumando”, disse o anfitrião. “Mas daqui a pouco vão se sentir como se tivessem nascido aqui.” O repórter tinha muitas dúvidas sobre isso.


“O negócio é olhar pra frente”, disse um morador que concordou em ser entrevistado, um agricultor recém-entrado na faixa dos 40 anos.


“Fazer o quê, né? É o progresso”, disse uma septuagenária cujos olhos passeavam pelos novos prédios como se ainda tentasse entender como vieram parar ali, 4 quilômetros distantes de onde ela se acostumou a vê-los. Ou talvez não fosse nada disso. Talvez fosse apenas a imaginação do jovem repórter levando-o não em direção à real compreensão do que estava vendo e ouvindo, mas, ao contrário, conduzindo-o ao corredor estreito e escuro das ideias pré-concebidas. Fosse como fosse, aquela pergunta não queria lhe deixar em paz, recusava-se a abandonar seus pensamentos: “Quanto passado cabe no fundo de um lago?”


À noite, na pousada em que estava hospedado, entre a lembrança da imagem das torres da velha igreja se erguendo solitárias das águas do lago e das novas instalações na cidade nova, ele se recordou de uma máxima que havia lido não se lembrava onde nem quando: “O passado e o futuro são as duas maiores invenções do ser humano.”


Com essa frase na cabeça e relaxado pelo efeito de algumas cervejas consumidas no bar do hotel, ele mergulhou num sono de sonhos angustiantes, em que tudo, absolutamente tudo, estava tomado pela água, um mundo mergulhado no silêncio e no esquecimento.


* * *


Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

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