• Redação Jeduca

O que já se sabe sobre impactos da pandemia

Atualizado: Ago 11


Por Marta Avancini, editora pública da Jeduca


Desde que a covid-19 começou a se espalhar pelo Brasil, levando ao fechamento das escolas, vários estudos vêm sendo produzidos no país sobre os impactos da pandemia na educação em diferentes perspectivas. Compilamos, nesta matéria, alguns dos principais achados.

Um tema que merece atenção, especialmente agora que se começa a falar na retomada das aulas presenciais, é o financiamento: o recuo da atividade econômica desencadeado pelo avanço da covid-19 no Brasil afeta diretamente a educação. É que a manutenção, a compra de equipamentos e a implementação de ações de recuperação da aprendizagem vão exigir investimentos adicionais das redes estaduais e municipais, justamente num contexto em que há menos dinheiro disponível, como mostram três estudos lançados recentemente.

O Todos pela Educação e o Instituto Unibanco já divulgaram dois relatórios sobre o tema. O primeiro analisa a situação dos estados, mostrando que a implantação do ensino remoto gerou aumento de R$ 2 bilhões de despesas, num cenário de queda de arrecadação de impostos. O segundo relatório enfoca as redes municipais, que devem perder até R$ 31 bilhões, gerando uma redução média do investimento por aluno, ao ano, de até R$ 1,3 mil.

A Fineduca (Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação) divulgou um estudo, em parceria com a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que calculou uma diminuição de até 21%  da arrecadação de impostos e tributos. O estudo considerou estados e municípios.

Oferta de ensino remoto


Uma parcela significativa das redes municipais não está oferecendo atividades a distância, o que poderá impactar ainda mais as desigualdades de aprendizagem entre os estudantes, já evidenciadas durante o isolamento social.

Mapeamento da oferta de ensino remoto nas redes municipais realizado pela Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e pelo Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), com apoio do Cieb (Centro de Inovação para a Educação Brasileira) e do Itaú Social, mostra que 40% das 3,9 mil redes que participaram da pesquisa não oferecem atividades remotas. Dessas, 90% são de municípios pequenos, que alegam precisar de apoio para implementar as atividades não presenciais. A ausência de regulamentação é outro argumento usado para justificar a falta de oferta. Apesar disso, muitos desses municípios gostariam de oferecer atividades aos estudantes durante a suspensão das aulas presenciais.

Outro resultado do estudo que merece atenção, tendo em vista a equalização das desigualdades de aprendizagem, é o perfil do alunado: 83% dos estudantes das redes públicas vivem em famílias com renda de 1 salário mínimo per capita.

Com relação ao acesso à internet foi constatado que 79% dos estudantes têm conexão, porém, 49% destes dependem do celular para acessar a rede. Esse dado é relevante não somente no período em que as escolas permanecem fechadas, mas na retomada, quando a expectativa é que o ensino híbrido (parte presencial e parte remoto) seja adotado. Será necessário planejar e pensar em estratégias para assegurar a oferta e o acesso à educação.

Outro levantamento, do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) em parceria com o Instituto Rui Barbosa, com 249 redes municipais, mostra que 82% delas oferecem atividades pedagógicas não presenciais, adotando uma diversidade de estratégias. Entre as redes estaduais, todas oferecem ensino remoto. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é a referência usada em 93% das atividades para o ensino fundamental e a educação infantil (estas são, prioritariamente, orientações aos pais), o que pode contribuir para facilitar a reorganização dos currículos quando as aulas presenciais voltarem.

A Fundação Lemann, o Itaú Social e o Imaginable Futures encomendaram uma pesquisa Datafolha para investigar se os problemas estruturais da educação brasileira impactam na oferta e no acesso ao ensino remoto: enquanto, na região Norte, 52% dos estudantes da rede pública receberam atividades escolares durante a pandemia, no Sul, a porcentagem chega a 92%.

Um foco de atenção devem ser, então, as ações e políticas para diminuir as desigualdades estruturais, agravadas com a pandemia. Por isso, é essencial prestar atenção nos processos de reorganização do calendário escolar e na transparência das informações disponibilizadas. Exemplo: quais as prioridades consideradas nessa reorganização e quais as medidas adotadas para atender àqueles que foram mais prejudicados? É o que destacam a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, o Cedeca-CE (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará), o Dieppe/UFABC (Grupo de Pesquisa 'Direito à Educação, Políticas Educacionais e Escola da Universidade Federal do ABC') e a Repu (Rede Escola Pública e Universidade), em nota técnica sobre o monitoramento ativo das políticas educacionais no contexto de emergência.

A perspectiva dos professores


Os professores são figuras-chave, tanto no contexto da oferta do ensino não presencial quanto na retomada das aulas presenciais. Eles foram fortemente impactados com a transição para o ensino remoto, seja do ponto de vista psicológico e emocional ou da prática pedagógica, como mostram três pesquisas: do Instituto Península, da FCC (Fundação Carlos Chagas) em parceria com a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e da Nova Escola.

A pesquisa 'A situação dos professores no Brasil durante a pandemia', da Nova Escola, ouviu 8,1 mil professores sobre quatro aspectos: saúde emocional, situação das redes, participação dos alunos e das famílias e perspectivas sobre o retorno. Segundo a pesquisa, 30% dos professores avaliam a experiência do ensino remoto como ruim ou péssima, e 50% disseram que não receberam orientação para oferecer aulas e atividades remotamente.

Na mesma direção, o Gestrado (Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente), da Universidade Federal de Minas Gerais, e a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) mostram que a maioria dos professores diz não ter preparo para lidar com as tecnologias remotas. A proporção de docentes que não receberam orientação para o ensino remoto na rede municipal (53,6%) é o dobro da rede estadual (24,6%).

A pesquisa do Instituto Península mostrou que 83,4% dos professores não se sentem preparados para atuar no ensino a distância, 50% dizem que estão preocupados com sua saúde mental, e 55% gostariam de ter apoio psicológico.  

O estudo da FCC/UNESCO destaca que 65% dos entrevistados afirmam que o trabalho pedagógico mudou e aumentou, e 49,7% deles acreditam que a aprendizagem dos alunos diminuiu. Na retomada, 84,6% acreditam que será necessário readequar os modelos de avaliação.

Esses resultados remetem a questões relevantes para o planejamento da retomada das aulas presenciais, tanto no que diz respeito ao suporte ao professor, inclusive psicológico, quanto à reprogramação das aulas e atividades didáticas.

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