• Demétrio Weber

O que ensinar às crianças?



Antes do início da pandemia, o historiador israelense Yuval Noah Harari veio ao Brasil e participou do programa Roda Vida, da TV Cultura. A entrevista foi ao ar em novembro de 2019, quando não havia notícia do novo coronavírus. Harari falou então sobre um dos desafios da educação contemporânea: o que deve ser ensinado às crianças?


A questão, explicou ele, tinha a ver com o avanço tecnológico e com o fato de que ainda desconhecemos quais serão, em grande medida, os empregos do futuro. Ou seja, como preparar nossos filhos para carreiras que, por ora, nem sequer existem?


"Pela primeira vez na história, não fazemos ideia de como estará o mercado de trabalho daqui a 30 anos e de que habilidades as pessoas precisarão", afirmou, na ocasião, o autor de Sapiens − Uma breve história da humanidade e de 21 lições para o século 21.


Semanas depois, a covid-19 começou sua escalada até virar de cabeça para baixo o mundo tal como o conhecíamos. Em poucos meses, quase todas as escolas do planeta foram temporariamente fechadas, e a humanidade se deparou com o medo e a incerteza de uma doença que já tirou a vida de mais de 2 milhões de pessoas.


A entrevista de Harari vem à mente no momento em que a vacinação dá os primeiros passos no Brasil − e em que se avizinha o ano letivo de 2021. A agenda da educação está clara: será preciso juntar os cacos do fechamento das escolas, do ensino remoto por vezes tão precário, da exclusão digital, da retomada parcial das aulas presenciais e da evasão que vem por aí.


A pergunta sobre o que devemos ensinar às crianças, todavia, permanece. E é aqui que a pandemia, além de todo o sofrimento e prejuízo que já causou, pode nos ajudar a pensar.


De um lado, é hora de reafirmar o compromisso da escola com a ciência e com o desenvolvimento humano. Sim, diariamente, em cada aula, é tarefa da educação enfrentar o negacionismo científico tão em voga em pleno século 21 − quando os mesmos que atacam a ciência não hesitam em tirar proveito de todas as tecnologias que só o conhecimento é capaz de criar.

De outro, o novo coronavírus abalou certezas e explicitou fragilidades. Sinalizou, com a força de sua destruição, o quanto precisamos estar preparados para o imponderável. E é a partir daí que a educação também pode trilhar novos caminhos.


Harari, que é professor de história na Universidade Hebraica de Jerusalém, tratou disso na entrevista pré-pandemia. "A única coisa de que temos certeza é que elas [crianças] vão precisar continuar aprendendo e continuar se reinventando por toda a vida. Não é questão de aprender uma profissão aos 20 e poucos anos e trabalhar naquela profissão pelo resto da vida. Não, você terá que mudar várias vezes", afirmou ele.


E concluiu: "Portanto, o mais importante é como ensinar às pessoas essa flexibilidade; como ensinar às pessoas que elas devem continuar aprendendo e continuar mudando por toda a vida. E isso é extremamente importante e extremamente difícil, porque mudanças são estressantes e, especialmente após uma certa idade, as pessoas não gostam de ficar mudando repetidas vezes. Mas, no século 21, isso será uma necessidade."


A educação tem muito a fazer.


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Demétrio Weber é jornalista e fundador do Educa 2022.

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