• Cláudio Lovato Filho

Pequeno campeão do Curundú

Atualizado: Set 21


Este relato é sobre um menino de um bairro de periferia da Cidade do Panamá, uma criança com seu sonho – uma criança que, como tantas e tantas outras, o mundo preferiria manter invisível.


* * *

Era janeiro de 2012 e estávamos conhecendo um projeto habitacional no Curundú, bairro da periferia da Cidade do Panamá. No fim da visita à obra, nosso anfitrião perguntou se gostaríamos de ver um pouco mais da realidade da comunidade. Ele não precisou perguntar duas vezes.


Paramos no ginásio de esportes Pedro “El Roquero” Alcazar. No Panamá, os esportes mais populares são o beisebol e o boxe, e aquele era um ginásio de boxe. Ali conheci Ezequiel Queiroz, que fez questão de acrescentar o apelido “Halcón” (“Falcão”) entre o prenome e o sobrenome quando perguntei como ele se chamava.


Usava camiseta e calção brancos, botinas e luvas pretas. Presentes de Natal. Cada vez que pressentia a possibilidade de uma foto, levantava as luvas à altura do rosto, enterrava o queixo no peito e fixava o olhar na câmera, de baixo para cima, mostrando destemor.


Ezequiel tinha 12 anos. Começou a praticar o boxe aos 8. Nascera ali mesmo, no Curundú, uma das comunidades mais pobres e violentas da Cidade do Panamá. Treinava de segunda a sexta, do meio-dia às 3 da tarde. Seu maior ídolo era Roberto “Mano de Piedra” Durán, uma lenda viva em seu país e no mundo do boxe.


Ezequiel me disse que queria se tornar profissional, claro. Campeão do mundo. O olhar dele me fez ter certeza de que ele iria perseguir o sonho com suas luvas e sua autoconfiança.


Aquela foi minha última ida ao Panamá. Não tive mais notícias de Ezequiel. Espero que ele tenha conseguido derrubar, uma a uma, ou várias de uma vez só, as muitas barreiras que certamente se interpuseram entre ele e a realização de seu sonho. Espero que ele esteja bem, que esteja firme e forte, lutando e lutando e lutando, porque há aqueles que nasceram para lutar e jamais perdem aquele brilho no olhar, aquele tal brilho no olhar que vem direto da vontade de vencer e da certeza de que a vitória é possível e até mesmo inevitável.


* * *


Cláudio Lovato Filho é autor do romance Em Campo Aberto (Record) e dos livros de contos Na Marca do Pênalti (editora 34) e O Batedor de Faltas (Record). Nasceu em Santa Maria (RS), em 1965. Ainda na infância mudou-se com a família para Porto Alegre, onde, em 1988, formou-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). Começou na profissão como repórter e editor, em jornais de Santa Catarina. No Rio de Janeiro, cidade na qual viveu por 20 anos, especializou-se em comunicação empresarial. Nesse período, realizou coberturas jornalísticas e participou da execução de projetos editoriais/institucionais em mais de 20 países. Desde 2016 é assessor de imprensa em Brasília.

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".