• Dilvo Ristoff

O novo vírus



O governo brasileiro decidiu que não vai mais ofertar bolsas de pesquisa para as humanidades. Quer aplicar os recursos em áreas que considera mais úteis e de retorno imediato. A decisão mostra-se coerente com a manifestação do ministro da Educação, há alguns meses, de que estudar filosofia e sociologia no Nordeste não faria sentido. Os nordestinos, argumentava o ministro, deveriam estudar agronomia! Agora, com os cortes de bolsas, vemos que o vírus do preconceito para com as universidades do Nordeste se estende também às humanidades em todas as universidades do país.


Mesmo que lançássemos por terra todos os valores sociais, humanos, culturais, linguísticos, artísticos e literários consolidados nas sociedades civilizadas e aceitássemos, para fins de argumento, a pecha de que as humanidades são inúteis (que o repolho é mais útil que as rosas, que o ruído das betoneiras é mais útil do que a música de Mozart ou de Chico Buarque, que o bisturi é mais útil que uma língua estrangeira, que a broca é mais útil que o divã, que uma equação é mais útil que um modelo de gestão, que o advogado é mais útil que o professor, etc. etc. etc.), o argumento do governo não se sustentaria.


Pela lógica do atual governo, nem Gerardus 't Hooft e Martinus J.G. Veltman, professores da Universidade de Utrecht, na Holanda, ganhadores do prêmio Nobel de Física de 1999, nem Günter Blobel, professor da Rockefeller University, nos Estados Unidos, prêmio Nobel de Medicina, também de 1999, receberiam apoio para realizarem suas pesquisas.


Asteroide


Gerardus 't Hooft não receberia um tostão do governo, porque simplesmente não conseguiu explicar aos repórteres por que razão recebera o Nobel. Não conseguiu dizer nada aos jornalistas sobre uma possível utilidade de seu trabalho para a sociedade. Hooft contentou-se em dizer que era algo muito técnico e de difícil compreensão para comuns mortais. Segundo a Academia Real de Ciências da Suécia, ao estudar a estrutura e o movimento de partículas subatômicas que formam o universo, Hooft elucidou a estrutura quântica da física de interações eletrofracas, criando uma base matemática para a teoria das partículas físicas. Se você é, como eu, um comum mortal como os jornalistas, provavelmente não tem a menor ideia do que são essas partículas subatômicas que formam o universo ou o que são interações eletrofracas. E, no entanto, seria arrogância de nossa parte dizer que o trabalho de Hooft não é importante porque não vemos utilidade nisso. Melhor deixar essa decisão a quem estuda o assunto. E quem estuda o assunto entendeu que Hooft e seu colega mereciam, pelo belo trabalho realizado ao longo de longos 30 anos, o mais alto prêmio da academia, além, é claro, de uma medalha de ouro e da bagatela de um milhão e cem mil dólares. E por falar em inutilidade: Thooft declara que adora literatura de ficção científica e tem admiração pelos filósofos gregos. E mais: o asteroide Thooft foi assim chamado em sua homenagem. Hooft, imaginando que o asteroide possa um dia vir a ser habitado, apressou-se em escrever a Constituição do asteroide (afinal, precisamos de ordenamento jurídico para viver em sociedade!), com algumas regras que devem ser observadas pelos futuros habitantes. Entre elas, estas duas: (1) para que a ciência nunca durma, as universidades e bibliotecas de Thooft devem ficar abertas dia e noite, independentemente do tamanho do dia e da noite no asteroide, e (2) para que não errem de novo o seu nome (´t Hooft), fica terminantemente proibido o uso do apóstrofo ou de teclados que tenham apóstrofo.


E, da mesma forma, se o biólogo alemão Günter Blobel, prêmio Nobel de Medicina, fosse brasileiro nos dias de hoje, correria sério risco de ser execrado publicamente. Com alguma maldade a mais, teria provavelmente o seu nome publicado numa lista dos improdutivos do MEC e passaria para a história como um dos responsáveis pela balbúrdia no campus. A Comissão do Prêmio Nobel, no entanto, entendeu de outro modo. Avaliou que a sua descrição dos sinais intrínsecos das proteínas era uma contribuição fantástica ao avanço do conhecimento na área, sendo Blobel um dos responsáveis por lançar a biologia celular na era molecular. Merecia, portanto, ser mundialmente reconhecido por isso. Detalhe importante: a exemplo de Hooft,

Blobel levou 30 longos anos, ou seja, mais da metade do tempo de existência da maioria das universidades brasileiras, para chegar às suas descobertas. Retorno imediato? Pergunta-se quantas empresas teriam interesse em investir no trabalho de um sujeito com tanta falta de pressa? Poucas ou nenhuma!

Além dessa paixão pela ciência experimental, Blobel, tendo sobrevivido aos bombardeios de Dresden, que mataram a sua irmã mais velha, tinha também grande apreço por “coisas inúteis”, como história, arquitetura, religião e óperas. Por acreditar nessas “inutilidades” da vida, Blobel doou todo o valor de seu prêmio Nobel para a reconstrução do patrimônio cultural de Dresden.

Bonsais

Essas contribuições são fundamentais para o avanço das artes e das ciências e resumem o verdadeiro papel da universidade. Muitas dessas coisas podem não servir ao utilitarismo de cabeças toscas para as quais o ruído das betoneiras é tudo e a música e a poesia de Chico Buarque, nada, mas são úteis para o avanço do conhecimento. Podem não servir ao imediatismo do mercado, mas são a base para novas descobertas e para o desenvolvimento de tecnologias que, mais dia menos dia, serão colocadas a serviço da melhoria da qualidade de vida para todos.

Fazer do utilitarismo e do imediatismo a base para as políticas de apoio à pesquisa é não entender o que é e como funciona uma universidade de verdade. Os exemplos de Hooft e Blobel são emblemáticos. Não são matéria do mundo empresarial movido pelo retorno imediato. São e simbolizam, por excelência, a matéria-prima da qual é feita a universidade.

No mesmo diapasão, excluir as humanidades desses apoios, fazendo uso dos mesmos argumentos utilitaristas e imediatistas, mostra não só o desconhecimento desse vasto e complexo campo e de sua importância para a vida em sociedade, mas também uma tentativa desesperada de podar a viçosa árvore das humanidades, para que ela, mutilada, caiba nos pequenos vasos de bonsais de suas cabeças. Deve ser desesperador, para os que cegamente advogam o utilitarismo, ver algo “inútil” como a literatura sendo laureado, a cada ano, com um prêmio Nobel. Devem imaginar que a Academia Real Sueca está tomada por acadêmicos irresponsáveis que disseminam a insensatez pelo planeta!

Embora estejamos diante de iniciativas que mostram desprezo pelas artes, pela cultura e pelas humanidades, atingindo em cheio o espaço de pesquisa e de identificação de talentos para estudos avançados, a universidade, essa importante instituição milenar, certamente não aceitará ser mutilada e condenada ao nanismo.

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Dilvo Ristoff é doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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