• César Steffen

O momento startup da educação


Já comentei em artigos anteriores que acompanho de perto os movimentos do ensino remoto fundamental em função de meu enteado de 7 anos, assim como o ensino médio, por ter amigos com filhos matriculados, e o superior, por ser professor, claro, e avaliador do SINAES.


No tocante ao fundamental e médio, vejo muitos pais preocupados com as soluções aplicadas pelas escolas, não somente pelo que acontece nas salas de aulas virtuais, mas principalmente − e falo isso da posição de quem participa e acompanha grupos de pais no WhatsApp − pela comparação com o que as demais escolas têm feito. E aí aparece a velha regra: a grama do vizinho sempre é mais verde.


Também vejo muitos alunos falando em ser reprovados de propósito, porque entendem que o ano está perdido. Nesse sentido sempre argumento que talvez seja melhor buscar aulas e conteúdos de reforço fora, aproveitando canais de conteúdo no YouTube e mesmo aulas particulares remotas, do que reprovar.

Falo isso principalmente por notar que 2021 indica que não será tão diferente de 2020 − e muitas escolas estão aproveitando este final de ano para testar regras e formatos. Este não é um momento fácil, é desafiador, mas, da mesma forma, construtivo. E aí entra o que entendo por momento startup.


Para esclarecer: startup é uma empresa ou negócio que surge com uma solução para algo e que vai se corrigindo e ajustando aos erros durante o percurso. A ideia é planejar o minimamente necessário e implementar, ajustando o motor com o carro andando.


Não pretendo detalhar mais, pois somente a conceituação e a explicação de “startup” precisaria de uns três artigos. O importante neste momento é destacar que, como professor, vejo isso acontecendo de forma muito natural no ambiente do ensino, forçado, claro, pela pandemia.


Há escolas organizando o retorno ao presencial nestas semanas. Muitas voltaram e outras estão voltando. Surge, então, a pergunta: faz sentido retomar aulas presenciais praticamente em novembro, com pouco mais de seis semanas de aula?

Talvez sim, talvez não. Mas o foco agora não é o conteúdo, mas treinar os alunos, analisar os procedimentos e seus resultados para organizar as atividades para o ano que vem, quando tudo indica − e o parecer do CNE comentado no artigo passado deixa isso bastante transparente − que ainda teremos limitações de aproximação e de aglomeração, turmas separadas, classes reduzidas, professores e alunos de máscara, e tudo mais que envolve e cerca o ambiente da pandemia de covid-19.


Tentativa e erro


Faculdades e universidades estão planejando 2021 já prevendo limitações de ocupação de salas − sei até de uma instituição que está discutindo com os professores quais disciplinas precisam, obrigatoriamente, de ensino presencial e quais podem ficar na EAD, já organizando os fluxos e procedimentos para evitar contatos e aglomerações desnecessárias.


Isso está certo? Não sei responder. Isso está errado? Muito menos. Claramente, vejo que poucos conseguem dizer com segurança que sabem o que estão fazendo. Na verdade, ninguém com quem converso e tenho contato diz saber. Todos, sem exceção, comentam que estão tentando, que discutiram, que vão testar, que estão analisando. Tudo em nível de projeto, de tentativa e erro, de verificação, validação ou correção. Certezas parecem não existir além de que são necessários muito cuidado e protocolos rígidos.


Quantas soluções surgiram em momentos assim? Quantos professores tiveram que aprender novas metodologias e soluções? Quantas instituições precisaram se adaptar e criar formas de levar o conteúdo aos alunos. Quantas inovações e novas metodologias irão aparecer? Isso vale para todos os níveis.


Soluções, processos e metodologias estão surgindo, sendo testados e tendem a ficar mesmo quando a pandemia diminuir e o “novo normal” for institucionalizado. Estamos em momento de testes, e muitos erros irão ocorrer. Mas também haverá acertos que beneficiarão todos.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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