• Paulo Pinheiro

O método do caso em ação


Foto: Christin Hume / Unsplash

Como o método do caso funciona? Essa é uma questão ampla, que provavelmente contemplaria inúmeros artigos. Porém, é possível ter um vislumbre do que seria o método do caso em ação. Afinal de contas, embora as discussões realizadas em sala de aula possam se desdobrar de inúmeras maneiras, elas tendem a seguir uma espécie de coreografia.


Vale sempre lembrar: o método do caso exige preparação prévia. Tanto dos alunos quanto dos professores. Alguns instrutores gostam de utilizar um instrumento de verificação de leitura. Por exemplo, eles aplicam um “quiz” antes de começar a discussão. Mas essa questão em específico será abordada em mais detalhes em outro artigo. Porém, o começo de um case é sempre um momento arriscado.


A abertura


Quando uma discussão de caso começa, o instrutor geralmente inicia pedindo a um aluno que exponha os principais fatos e questões do caso. Esse pedido é conhecido como "cold call", quando os alunos não sabem com antecedência se serão convidados a participar.

Existe uma variação, a chamada "warm call". Ela acontece quando o aluno chamado recebe notificação prévia. Esse aviso pode ser por e-mail e indica que o estudante terá a responsabilidade de explicar o case para os demais componentes da classe. Isso, é claro, aumenta a pressão. Via de regra, nenhum aluno quer perder prestígio na frente de seus colegas.


Em termos didáticos, o uso da "cold call" ou "warm call" dá aos alunos um incentivo extra para se prepararem por conta própria. Ele também enfatiza que as percepções dos alunos irão preparar o terreno para o que se segue. Assim, reforça que os alunos são elementos fundamentais no sucesso de uma discussão em classe.


A coreografia


Depois que o primeiro aluno é chamado para dar o pontapé inicial e termina de expor os fatos do caso, o instrutor geralmente abre a sala para ouvir outros estudantes que levantaram a mão para expor seus pensamentos. Nesse ponto, há uma mudança importante. Graças ao relevante papel desempenhado pela participação do aluno durante a discussão, o papel do instrutor se altera drasticamente. Em vez de ser um “sábio” no palco, uma autoridade, um farol do conhecimento, o instrutor torna-se uma espécie de coreógrafo.


O professor deve conduzir os alunos através de questões dispostas no caso, sem necessariamente pré-julgar a correção das contribuições. Esse é uma habilidade crucial, pois garante que perspectivas diferentes, mas relevantes, sejam expostas. Mais importante ainda: essa técnica permite que os pontos de vista defeituosos sejam identificados e compreendidos por suas fraquezas e falhas.


Essa orientação é menos direcionada para chegar a uma conclusão específica ou seguir um caminho reto até a conclusão do caso. Em vez disso, concentra-se em questões que desenterram fatos, investigam percepções e se baseiam em exemplos e princípios anteriores. Ao ponto que os estudantes passam a criar comparações (com teorias que já analisaram fenômenos semelhantes) e observar contrastes relevantes com a situação que está sendo considerada.


Não se deve esquecer o componente social intrínseco das discussões de caso. Por isso, os instrutores também incentivam os alunos a dialogar com seus colegas. Em vez de responder às observações dos alunos diretamente e ter trocas individuais com muitos alunos, sair da posição de autoridade e colocar os alunos nessa função é altamente recompensador. Por exemplo, o professor pode pedir aos estudantes que desenvolvam os seus insights e tentem persuadir os colegas sobre determinada decisão a ser tomada.


Em suma, ao gerenciar e liderar discussões, os instrutores de método de caso oferecem um modelo para os alunos aprenderem como gerenciar e liderar outras pessoas.


O encerramento


O encerramento apropriado para uma discussão em classe está entre os elementos mais debatidos do ensino do método de caso. Tanto que esse tema também será abordado em mais detalhes em outro artigo específico. Porém, duas respostas precisam surgir no final da aula: respostas provisórias a duas questões fundamentais após uma discussão em classe: o que aprendi hoje e por que isso importa?


Alguns instrutores defendem que apresentar uma análise definitiva da discussão pode ser contrário à ideia de aprendizagem centrada no participante. Os próprios alunos precisam avaliar e continuar a refletir sobre o que aprenderam. Porém, essa ação acaba por levar a um problema. Sem um fechamento, muitos alunos podem sair se sentindo desmotivados, confusos e frustrados do debate. Essas visões conflitantes sugerem que os instrutores de caso devem tomar cuidado para evitar os riscos de fornecer muita ou pouca informação no encerramento de uma aula.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. Atualmente trabalha como produtor de conteúdo da 818 Game Academy.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.