• Bárbara Semerene

O lugar de fala das crianças



Já senti na pele o golpe de falas e atitudes machistas direcionadas a mim algumas vezes, claro, em diferentes situações, por vezes implícitas, noutras explícitas. Mas nenhuma delas me atingiu tanto quanto ouvir meu filho de 7 anos me dizer “fica quietinha aí” − no diminutivo, para piorar.


Era uma segunda-feira de casa bagunçada, com restos e rastros do fim de semana. Dia cheio de serviço doméstico e trabalho remoto, com roupas, brinquedos e copos espalhados pela casa. Menino pulando no sofá, espalhando migalhas de pão no chão, jogando bola na sala. Muito dever da escola para fazer e aulas on-line para assistir. Eu coordenando tudo, dando pequenas ordens e broncas no garoto, quando ele solta um “ai, mamãe, chega. Fica quietinha aí”. A conotação da frase para ele, individualmente, muito provavelmente não passava pelo machismo. Talvez fosse apenas um revide ao que faço com ele de vez em quando (quantas vezes já o mandei ficar quietinho!). Mas, a mim, soou ofensivo: mais do que inverter uma relação hierárquica de poder mãe-filho, que sempre me empenho para que seja um modelo mais horizontal, eu senti aquela cena como um pequeno 'machinho' destratando uma mulher.


Foi uma boa oportunidade de contextualizar para meu menino a frase no nosso contexto histórico e social. E mostrar como uma fala a princípio 'banal' para quem diz pode ofender quem escuta. A interpretação muda a depender do interlocutor, do 'falante' e da história que os circunda. É nesse 'entre', onde moram os significados, que não existem 'soltos' em um 'a priori'.


Depois do meu susto inicial, fui até ele, agachei em sua altura e travei um diálogo olho-no-olho. “Filho, você se lembra quando te contei que durante muito tempo as mulheres foram consideradas inferiores aos homens, não podiam fazer um monte de coisas e tinham de obedecê-los? Pois bem, quando você diz para uma mulher ficar quieta, você está repetindo essa história, que foi traumática para as mulheres. Portanto, tem um peso muito negativo um menino como você, do sexo masculino, mandar uma pessoa do sexo feminino ficar quieta. É grave.”


Com os olhos arregalados, e profundamente atento a cada palavra que eu dizia, meu pequeno respondeu, com toda a verdade de uma criança: “Mamãe, me desculpe. Eu não sabia que tinha esse significado. Nunca mais vou falar assim. Prometo”. E emendou, como quem me consola: “As mulheres ainda vão dominar o mundo, viu?”


Muito se diz sobre a importância de ensinar à criança o autoconhecimento e a autopreservação do seu corpo físico. Ensiná-la a enxergá-lo como um território só seu, e sua pele como a borda que delimita seu espaço em relação aos outros, é fundamental para reconhecer-se como indivíduo e proteger-se de 'abusos', inclusive sexuais.


Corpo social


Mas, tão importante quanto, é contribuir para o autoconhecimento da criança também a respeito do seu corpo social, que se configura a partir das características de seu corpo biológico. No meu caso, contextualizar meu filho sobre seu lugar de fala de criança do sexo masculino, branca, ocidental, classe média, brasileira tem sido um grande aprendizado para ele... e para mim.


Aos 7 anos, qualquer criança já absorveu as diferenças simbólica e social entre ser homem e ser mulher numa sociedade. Mas nem todas têm ferramentas para questionar esse modelo, refletir sobre ele, tampouco consciência do histórico da desigualdade de gênero. Nem sacou como nós o reproduzimos, muitas vezes, sem nem perceber. O mesmo ocorre com a questão do racismo e suas facetas.


Eu tenho provocado meu filho a posicionar-se frente a estas questões e as pontuado, quando elas aparecem no nosso dia a dia. Além de contar sobre a história de construção de identidades e de relações de poder, chamo a atenção dele quando nós (eu e ele inclusive) as reproduzimos ou quando vemos outros reproduzirem comportamentos assim. E recuamos, refletimos, damos passos para trás, e para frente. Sempre atentos. Não estou sozinha nessa, o pai dele é meu parceiro, o que se torna ainda mais efetivo. Muitas vezes tropeçamos e refletimos juntos.


Meu menino é uma criança sensível. Anda pelo mundo com olhos e ouvidos atentos, e o coração partido pelas injustiças e discriminações. O que não o impede de reproduzi-las sem se dar conta. Como todos nós. A cultura é avassaladora. Importante é ter alguém que a gente ama escutando e oferecendo um repertório mais amplo que nos capacite a ressignificar pressupostos e a redefinir valores.

Outro dia, estávamos assistindo ao jornal na TV quando ele comentou que achou “esquisita” a maquiagem da comentarista “moreninha”. Eu expliquei que ela era “negra”, e que ele deveria dizer claramente a sua etnia, pois os negros consideram uma ofensa os outros descrevê-los como “moreninhos”, como se considerassem ser negro algo ruim, incômodo ou vergonhoso. Ele se justificou: “Mas ela é meio branca”. Não soube bem explicar por quê. Então, apontei os traços negros e disse que inclusive a maquiagem que ela usava era uma forma de mostrar que a estética dela é diferenciada da dos brancos, pois ela segue outra “moda”, mais a ver com as suas origens, das quais provavelmente tem orgulho. Contei que durante muito tempo os negros brasileiros “imitavam” os brancos, queriam disfarçar suas características, se envergonhavam por ser negros. E de um tempo para cá eles têm se empoderado, e vem fazendo questão de exaltar suas peculiaridades, mostrar que são, sim, diferentes dos brancos, o que não quer dizer piores. Reforcei que a maioria das pessoas com quem ele convive são brancas – apesar de os negros serem maioria no Brasil –, o que o leva a “estranhar” quem se veste e se enfeita de forma diferente da que está acostumado. Mais uma vez, ele prestou bastante atenção.


Ele já tinha um conhecimento prévio sobre o histórico de racismo advindo da escravidão no Brasil, que ofereci a ele desde quando notou que tinha um único coleguinha negro na escola, enquanto, nos bairros mais pobres da cidade por onde passamos de carro, só se vê gente de pele escura.


Tabus e hipocrisias


Será que meu menino está muito pequeno para esses papos? Será muito 'adulto' para a cabeça de uma criança? A psicanalista infantil francesa Françoise Dolto defende que se deve tratar a criança como sujeito desde a mais tenra idade. Claro que sempre utilizando a linguagem infantil. E não deixar nenhum assunto, especialmente os mais espinhosos, 'no ar', vago. Assim, evitamos perpetuações de tabus e hipocrisias. Pois é a falta de palavras e de espaço para dizê-las o que nos adoece. Afinal, está tudo ali, pairando no ar: os estigmas, os preconceitos, as relações de poder. É preciso representá-los com palavras e lapidar percepções.


Quero garantir que as observações, sensações e experiências do meu menino não passem batido. Quanto mais cotidianas, corriqueiras e espontâneas são nossas conversas a respeito de temas delicados e importantes, mais valores são incorporados (introjetados no corpo) e menos limitados à dimensão do discurso, da teoria. E como aprendemos a partir destas conversas! Elas são potentes a ponto de me incentivarem a ser diferente para ser exemplo. Pois é ao ver a minha relação com os vários outros que o meu filho vai de fato absorvendo atitudes.


* * *

Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação, especialista em Gestão de Comunicação e Marketing pela Universidade de São Paulo (USP). Foi docente no departamento de Jornalismo do Instituto de Ensino Superior de Brasília (Iesb). Atuou como editora de conteúdo da Rede Universia, portal de educação do Grupo Santander, e em revistas femininas e jornais. Colaboradora do livro Sexo, afeto e era tecnológica, da Editora UnB. Seus textos podem ser acompanhados pelo Instagram @barbara_semerene.

O artigo acima é de responsabilidade da autora e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

1 comentário

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco
  • Branca Ícone Instagram

© 2020 por Educa 2022. Os textos do portal Educa 2022 podem ser reproduzidos, desde que citada a fonte "Educa 2022".