• Buck Goldstein

O impensável se tornou pensável


Há pouco mais de uma semana, escrevi que centenas de milhares de professores e alunos estavam às voltas com a educação on-line, a maioria pela primeira vez. Em uma semana, o impensável se tornou pensável: 1,5 bilhão de professores e alunos começaram a participar do maior teste da história da educação. Fiquei sabendo sobre esta mudança tectônica em uma cúpula on-line sobre educação superior e que incluiu, entre outros, Eric Yuan, o CEO da Zoom; Sal Khan, o fundador da Khan Academy; e Arne Duncan, o ministro da Educação do presidente Obama. No final da conversa não pude deixar de me perguntar: depois de tantos falsos começos, será que a aprendizagem digital finalmente irá cumprir a sua promessa de acesso ampliado a custo mais baixo? Saí do encontro com estes dados:

1. O Zoom se tornou, quase que do dia para a noite, a utilidade de fato para quase tudo o que está on-line, das aulas do ensino básico e superior às aulas de ginástica e reuniões familiares. A segurança e a privacidade da plataforma é uma preocupação crescente; A empresa está se esforçando para resolver as coisas, mas não há dúvida de que as inovações se darão primeiramente na plataforma Zoom. Ela funciona para festas também.

2. A crise da COVID-19 tem catalisado muitas melhorias e correções rápidas na tecnologia educacional. Os executivos da Zoom disseram que recursos e correções que levavam semanas ou meses para ser implementados agora surgem em poucos dias, e as iterações ocorrem continuamente a partir de então. Sal Khan e seus colegas estão desenvolvendo currículos completos para o ensino fundamental e médio em tempo real e recebendo feedback instantâneo de pais ansiosos que se tornaram involuntariamente professores de escolas em casa. 


3. Coursera está construindo o seu Coursera para o Campus, envolvendo 2.100 cursos, disponibilizados gratuitamente. As escolas nos EUA e no exterior estão fazendo uso temporário deste material para preencher lacunas em seus currículos. Surpreendentemente, o uso do Coursera aumentou 350% nas últimas três semanas.

4. Plataformas on-line para as línguas estrangeiras tornaram-se bastante avançadas nos últimos cinco anos. Recentemente, todos, das escolas de ensino fundamental e médio às faculdades e universidades, têm implementado esses programas de aprendizado para garantir a continuidade das instruções enquanto as escolas e universidades estiverem fechadas.

5. O grande número de professores e alunos on-line, combinado aos custos incrementais incrivelmente baixos para atendê-los, sugere que o aprendizado digital pode realmente aumentar o acesso e diminuir os custos para cima e para baixo no continuum educacional. Três semanas depois, no entanto, ainda há mais perguntas do que respostas. Felizmente, estão surgindo as melhores práticas para abordar essas questões e, se continuadas, podem levar a profundas mudanças em nossa sociedade no momento em que mais precisamos delas.

Algumas das perguntas mais interessantes sobre o aprendizado digital giram em torno de um desenvolvimento preocupante relatado em meu próprio campus, onde praticamente todos os cursos ministrados durante o primeiro semestre estão agora on-line.


Kelly Hogan, líder nacionalmente reconhecida no uso da tecnologia para criar uma sala de aula inclusiva, relata que, em sua grande turma de biologia, apenas cerca de 4% dos alunos não se reconectaram desde que passou a operar exclusivamente on-line. Quatro por cento é um grande número, mas vem em uma turma em que se esperaria um percentual mais alto. Curiosamente, a expectativa é de que as taxas médias de evasão em todas as classes se aproximem de 10%.


Esforços agressivos estão em andamento para identificar e entrar em contato com esses desistentes, mas todos estamos interessados em aprender mais. Para começar, queremos saber se o número de desistências está mais próximo de 4% ou de 10%. O número de desistentes se corrigirá parcialmente mais tarde no semestre? Essa taxa de abandono escolar na University of North Carolina (UNC) é uma aberração ou é algo típico de instituições semelhantes? Esse nível de participação é mais ou menos o mesmo para diferentes tipos de escolas, como escolas privadas e outros públicos seletos? Quais são as características socioeconômicas daqueles que se evadem? Os que não participam são os menos privilegiados e que estão do lado errado da brecha digital? Será que as turmas que têm tarefas claramente definidas e avaliadas ao longo do semestre têm menos probabilidade de ter baixa participação e taxas de desistência menores do que aquelas com apenas um exame no final do semestre? As aulas síncronas ou assíncronas têm maior procura?


Até o final do semestre, as faculdades em todo o país começarão a ter respostas para essas perguntas. 

Aprender com o teste beta involuntário do primeiro semestre parece ser mais crítico do que eu havia destacado no meu último blog, quando previ que o segundo semestre envolveria um processo de tentativa de retornar ao normal. Isso não vai acontecer. Uma pesquisa realizada com reitores de faculdades no final de março revelou que 36% acreditam que haverá sérias perturbações no segundo semestre. Ausente o desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde, alguma forma de distanciamento social fará parte da vida do campus por algum tempo, e será necessário algum nível de aulas on-line.

As melhores práticas para o aprendizado on-line em tempo real podem ser caracterizadas em quatro palavras: de baixo para cima. As próprias aulas são o que professores de inovação como eu chamam de produtos minimamente viáveis (PMVs), que são a primeira iteração projetada para fazer o trabalho, mas também para começar a aprender como fazer as coisas melhor. Na maioria dos casos, as aulas são criadas em uma semana e evoluirão ao longo do semestre com base na experiência e feedback em tempo real. Essa abordagem é geralmente desconhecida na academia, onde o planejamento do curso geralmente começa com um semestre ou um ano de antecedência, e todas as sessões são cuidadosamente orquestradas muito antes de começar. Isso é bom para polir a maçã, mas não funciona quando a inovação rápida é necessária. Portanto, prototipar, ouvir, testar, ouvir e continuar testando e ouvindo é a ordem do dia no que diz respeito ao design do curso.

Igualmente importantes são as vozes na mesa quando as decisões sobre o aprendizado on-line estão sendo tomadas −e serão tomadas com frequência nos próximos meses. É fundamental que aqueles que estão na linha de frente, com bastante experiência, não apenas participem, mas também assumam a liderança, à medida que políticas institucionais que regem o aprendizado digital estão sendo estabelecidas.


Por linha de frente, quero dizer professores com experiência em usuários de Zoom e aqueles que empregaram tecnologia para ensinar grandes turmas de maneiras inovadoras. Também é importante ter vozes à mesa que defendam estudantes que de outra forma poderiam ficar marginalizados ou involuntariamente prejudicados por políticas de outra forma bem-intencionadas.


O ensino inovador não é necessariamente o caminho para os principais cargos administrativos na maioria das faculdades e universidades; portanto, será necessário um esforço intencional para incluir as pessoas certas, se quisermos que sejam tomadas boas decisões sobre aulas on-line.

Fazer isso nunca foi tão crítico. Se o aprendizado digital pode, de fato, cumprir a promessa de aumentar o acesso e diminuir os custos, o ensino pós-secundário para uma parcela muito maior da nossa população pode se tornar realidade. Meu colega Eric Johnson e eu estamos explorando as dimensões dessa oportunidade à luz do novo livro inovador, Mortes do desespero e o futuro do capitalismo. Fique ligado para saber mais sobre o nosso trabalho sobre esse assunto.

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Buck Goldstein é professor de Prática na Faculdade de Educação da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Suas publicações abordam, com regularidade, as questões da educação superior e incluem, entre outros, os livros: Our Higher Calling — Rebuilding the Partnership Between America and its Colleges and Universities (Nosso chamado mais elevado — Reconstruindo a parceria entre os Estados Unidos da América e suas faculdades e universidades) e Engines of Innovation — The Entrepreneurial University in the Twenty-First Century (Motores da inovação — A universidade empreendedora no século XXI), ambos publicados pela Editora da UNC. Reside em Chapel Hill, na Carolina do Norte.

TRADUZIDO POR DILVO RISTOFF.

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