• Paulo Pinheiro

Futuros desafios do método do caso

Atualizado: Out 12



A série de textos em homenagem aos 100 anos do método do caso chegou ao fim. Nessa caminhada, o objetivo principal foi demonstrar como o ensino do método de caso é diferente de outras pedagogias. Além disso, foi feito um resgate de todas as mudanças que ocorreram desde a publicação do texto sobre a General Shoe Company. Mas agora será um exercício de olhar para frente e ver o que o futuro pode trazer para o método caso.


Inteligência artificial e realidade virtual


Casos futuros também podem aproveitar os avanços da inteligência artificial e do aprendizado de máquina, permitindo que os alunos interajam − e, portanto, se conectem − com os casos de maneira que não podem fazer agora. Considere os insights que podem ocorrer quando os alunos "entrevistam" os membros da equipe para obter uma solução para determinado problema. Porém, as respostas são fornecidas por um grupo de chatbots previamente programados. Qual o impacto sobre o que eles estavam pensando e como os questionamentos feitos irão afetar as decisões posteriores?


Da mesma forma, a realidade virtual pode permitir que os alunos se tornem protagonistas do caso e interajam com outros participantes. Eles podem tomar decisões em tempo real e experimentar os resultados dessas decisões. Essa tecnologia também pode reduzir o tempo de preparação dos alunos, ao mesmo tempo em que permite que eles mergulhem em experiências de uma forma mais impactante. Essa ferramenta pode ser um recurso interessante para os estudantes entenderem a complexidade das decisões tomadas pelos gerentes.


A ideia, no futuro, é fornecer uma pausa na leitura. Casos de áudio e vídeo podem promover essa conexão. Eles permitem que os alunos escutem e vejam protagonistas de casos, ouçam sua paixão e entrem em seu mundo para entender situações de tomada de decisão dentro dessa perspectiva.


Demonstrando o valor da diversidade


Também é cada vez mais importante que casos futuros representem e celebrem a crescente diversidade de indivíduos nas organizações e na sociedade. Existem razões morais e práticas para esse reconhecimento. Os grupos de indivíduos que compõem uma empresa são diferentes em etnia, gênero, idade, orientação sexual, religião ou capacidade física. Logo, os casos que destacam a importância da diversidade demonstram o enorme valor individual, organizacional e social que pode ser criado quando os desafios interpessoais são gerenciados com sucesso.


Pessoas que trabalham em equipes repletas de diversidade tendem a fazer um trabalho melhor, considerando as múltiplas perspectivas das partes interessadas. Ou seja, são capazes de usar uma lente mais ampla ao resolver problemas. Eles estão mais atentos aos seus próprios preconceitos e dispostos a considerar outras perspectivas. Como resultado, eles podem ser capazes de alcançar melhores resultados, desenvolvendo soluções mais detalhadas, atenciosas e inovadoras.


O método do caso é especialmente adequado para ajudar os alunos a ver o valor da diversidade. Por quê? Bem, casos são projetados para ajudar os alunos a examinar como abordar um problema ou oportunidade de negócios. Mas também a se imaginarem como líderes que encontrarão problemas semelhantes no futuro. Por isso, casos também enviam uma mensagem mais ampla sobre como deve ser uma verdadeira liderança.


Quando o arquétipo do líder é definido de forma muito restrita, isso prejudica a capacidade de imersão dos alunos. Eles, muitas vezes, não compartilham essas características e não conseguem se identificar com o protagonista. Pior ainda, isso pode acabar reforçando estereótipos.


Casos futuros devem apresentar uma representação efetiva da diversidade em seus protagonistas. Com isso, os alunos terão mais facilidade de se envolverem e de se conectarem em um mundo que está se tornando mais plural e complexo.


Dos casos ao mundo real e vice-versa


A conexão final e talvez a mais importante que os casos futuros devem perseguir envolve uma proximidade maior com o mundo real. Mesmo os casos mais desafiadores e convincentes capturam deliberadamente apenas uma fração dessa complexidade.


Os casos geralmente apresentam problemas, fornecem dados e contêm introduções e conclusões claras. Porém, no mundo real, nem sempre os eventos acontecem de forma tão organizada. Essas simplificações tornam as análises e discussões de casos dos alunos mais gerenciáveis, mas também aumentam a distância entre a aquisição e a aplicação do conhecimento.


Os futuros administradores que ingressam na força de trabalho podem ficar rudemente surpresos ao iniciar seu primeiro projeto, apenas para descobrir que devem definir os problemas a serem resolvidos, determinar quais dados coletar e como obtê-los e decidir quais são as medidas adequadas de sucesso.


Os casos a ser escritos no futuro devem ajudar os alunos a preencher essa lacuna. Essa recomendação reconhece o valor dos casos clássicos, que continuarão a fornecer grande parte da estrutura analítica de que os alunos ainda precisam. Ainda assim, os autores de casos precisam incorporar mais da complexidade do mundo real aos casos.


Possivelmente, o esforço para desenvolver um texto com tamanha complexidade vai necessitar de um refinamento do conteúdo do caso pelos alunos na forma de um breve estudo de campo. Cursos que usam a estrutura de discussão do método de caso dão aos alunos a oportunidade de entender situações que desafiam resumos ou soluções fáceis. Isso, via de regra, os ajuda a se tornarem mais reflexivos ao reconhecer as compensações e decisões que precisarão tomar durante suas carreiras.


De maneira mais geral, os casos futuros − em quaisquer formas que assumam – devem continuar a ajudar os alunos a liderar organizações e a melhorar o mundo ao seu redor.


* * *

Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS. O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.