• Paulo Pinheiro

O futuro do 'método do caso'


Foto: Sam / Unsplash

O método do caso demanda leitura e concentração. Porém, talvez essa não seja a única opção para fazer seus alunos se engajarem em uma história. Existem novas perspectivas sendo adotadas. Elas produzem resultados que comprovam que, apesar de sua história de um século de vida, os cases seguem relevantes.


Os casos escritos em 2121 provavelmente serão diferentes dos casos publicados em 2021 quase tanto quanto os casos atuais diferem da General Shoe Company. No entanto, os casos futuros também compartilharão algumas características essenciais dos casos de hoje e do século passado. Algumas características únicas mantêm o método do caso relevante até hoje.


Os momentos que envolvem os alunos, as experiências que os forçam a pensar criticamente, a separar fatos importantes dos sem importância, a pensar por si mesmos, ouvir os outros, explicar seus pontos de vista aos outros, tomar uma decisão − essas experiências continuarão a proporcionar um aprendizado poderoso. Por exemplo, a situação descrita no texto General Shoe Company permite que os alunos pratiquem habilidades essenciais para o cargo de gerência. Como você resolve uma situação ambígua? Como analisar cada detalhe para entender onde estão as lacunas e criar um plano para resolver o problema. Ou seja, a habilidade de descobrir um caminho de investigação, de escolher um curso de ação é tão relevante hoje quanto era em 1921.


Por outro lado, o ceticismo sobre o valor do método do caso permanece. Não são poucas as críticas. Os casos foram acusados ​​de "deixar os alunos com uma falsa confiança sobre o que sabem". Alguns consideram a capacidade dos casos de ensinar habilidades técnicas como limitada. Outros afirmam que os casos não dão atenção suficiente a perspectivas como as de organizações de trabalhadores e populações sub-representadas. Outros alegam que os cases muitas vezes ignoram valores morais importantes.


Ainda assim, o método do caso segue sendo adotado em instituições de ensino de renome mundial. Porém, a maneira mais interessante de encerrar esta série é considerar como serão as próximas abordagens para o método de caso. Como será possível capacitar, envolver e transformar futuros alunos.


Conexão é essencial para o sucesso de um caso


Uma questão interessante é: o que torna um caso excelente? Por que os alunos se lembram de alguns casos 20 anos depois? Por que o corpo docente considera certos casos como seus favoritos?


Quase sempre os casos mais memoráveis são aqueles que ​​ajudam os alunos a se sentirem mais conectados aos protagonistas do caso ou outras pessoas que são afetadas pelas ações dos protagonistas. Quando os alunos sentem a perspectiva de conexão, eles estão mais dispostos a usar sua imaginação, para preencher a lacuna entre suas próprias circunstâncias e aquelas apresentadas no caso, e entrar no lugar de outra pessoa. Casos que diminuem essa lacuna ajudam a aumentar a possibilidade de conexão. Esses casos podem apresentar situações em que as apostas para os protagonistas e suas organizações são tão claras que os alunos podem facilmente se identificar com eles.


Além disso, os casos geralmente apresentam histórias que ilustram vividamente a relevância dos conceitos abstratos. Por exemplo, o caso da Lincoln Electric Co. é popular há quase 50 anos, apesar de ser ambientado em uma indústria (soldagem a arco) que poucos estudantes conhecem. Isso ocorre porque se concentra em um programa agressivo de pagamento por desempenho para trabalhadores da produção. O resultado são bônus em dinheiro em um valor muito maior do que esses funcionários normalmente ganham. A implementação desse programa − que se assemelha aos sistemas de incentivos usados ​​nos empregos a que muitos alunos aspiram − em um ambiente atípico ajuda os alunos a pensarem mais cuidadosamente sobre esses programas e as políticas de emprego que os apoiam.


Outro método para aumentar essa conexão envolve o uso de formatos inovadores para contar histórias familiares de novas maneiras. Os alunos se envolvem mais quando suas atribuições são variadas. Eles apreciam quebras do formato de caso padrão e frequentemente valorizam soluções que parecem mais alinhadas com outras formas narrativas. Por exemplo, o caso "iPremier: Ataque de Negação de Serviço" foi adaptado como uma história em quadrinhos. Sua popularidade mostra que um ritmo dinâmico e ilustrações vívidas não interferem na compreensão de estruturas conceituais importantes.


Para os alunos que querem uma pausa na leitura, casos de áudio e vídeo podem promover a conexão, permitindo que os alunos vejam protagonistas de casos, ouçam sua paixão e entrem em seu mundo para entender situações que envolvem uma tomada de decisão em todas as suas perspectivas.


Ouvir diretamente de um fundador que trabalha sem parar para manter sua empresa à tona pode causar um impacto emocional muito mais do que simplesmente ler as mesmas palavras em uma página. No caso Farmgirl Flowers, é solicitada a escuta de um clipe de áudio. Isso dá a oportunidade dos alunos de ouvirem a própria fundadora da empresa discorrer sobre o que realmente é essencial para manter seu negócio forte e crescendo.

Da mesma forma, assistir a videoclipes do proprietário, de funcionários e clientes de um restaurante popular pode ajudar os espectadores a entender os desafios que o local deve considerar ao decidir como atender seus clientes.


Cada um desses elementos mostra que o método do caso segue se reinventando e evoluindo. Para demonstrar isso, é interessante conhecer algumas das novas tecnologias que estão sendo adotadas. Mas isso é assunto para outro texto.


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Paulo Pinheiro é doutor em comunicação social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e instrutor do método do caso, com formação na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Professor há mais de 15 anos, lecionou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM Sul) e na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Sua tese de doutorado trata de algoritmos e comunicação. Como jornalista, trabalhou no ZH Digital, embrião do atual clicRBS; coordenou o setor de comunicação do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers); e foi editor de capa do portal ClicRBS e do portal Terra. É graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e bacharel em direito pela PUC-RS.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.