• Dilvo Ristoff

O farol e o capitão


“É o pior legume que existe, Majestade”, concordou Nasrudim.

“Mas Mulla”, disse o Rei, “há menos de uma semana você me disse que era o melhor!”

“É verdade, Majestade, eu de fato disse, mas eu sou um súdito do Rei, não do legume!”

Idries Shah


* * *


Li há alguns anos uma estória que guarda pertinência com estes tempos de pandemia sanitária e de pandemônio político, jurídico, econômico, educacional, psiquiátrico... Talvez a estória nos ajude a entender um pouco melhor a crescente inquietude da comunidade acadêmica brasileira diante da sistemática afronta à sustentabilidade financeira das instituições públicas e ao flagrante desrespeito à autonomia universitária assegurada na lei maior da República.


A estória a que me refiro é esta:


Numa noite de tempestade, no gelado mar do norte, o condecorado Capitão Macquirr identificou repentinamente em seus instrumentos de navegação algo em sua rota e a pequena distância. Imediatamente enviou um comunicado via rádio:


Aqui fala o Capitão Macquirr, da fragata Aquitaine II; desvie imediatamente 30 graus para o Sul. Câmbio!


A resposta veio em seguida:


Redirecione a sua embarcação imediatamente 45 graus para o Sul. Câmbio!


Sou o capitão William Roderick Macquirr, da Marinha Real..."


Sem permitir que o capitão continuasse, veio nova orientação:


Por favor, repito, redirecione a sua embarcação imediatamente 45 graus para o Sul! Câmbio!


Indignado o capitão foi mais incisivo na nova mensagem e em voz de comando disse:


O senhor está falando com o capitão William Macquirr, Sir William Roderick Macquirr, da fragata imperial, a maior fragata a serviço de sua Alteza, a Rainha Elizabeth do Reino Unido da Grã-Bretanha. Tenho 500 homens a bordo. Em nome da Rainha, ordeno que se desloque imediatamente 30 graus para o Sul. Entendido? Câmbio!


A resposta veio de pronto:


Entendido! Redirecione a sua embarcação imediatamente 45 graus para o Sul. Eu sou um farol! Câmbio!

Nessas noites de tempestade pelas quais estamos passando, as universidades, cuja missão no mundo todo é produzir e disseminar o saber, têm a obrigação de funcionarem como o farol que sinaliza e dá as coordenadas aos navios desorientados e que, por estarem desorientados, estão a colocar em risco a vida de seus tripulantes e passageiros.


As universidades públicas, hoje tratadas pelos governantes de plantão como objeto de desprezo, foco do esquerdismo, ponto de produção e consumo de drogas e centro privilegiado da balbúrdia juvenil, agora mais do que nunca, precisam reafirmar a sua identidade de espaço do conhecimento. Precisam, portanto, fazer valer o Art. 207 da Constituição, que garante a sua autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira, livre de intervencionismos, livre de reitores chapa-branca a serviço de interesses outros que os da ciência, da arte, das tecnologias, da inovação e da cultura.


É irônico que as universidades sejam sempre de novo desafiadas a demonstrar o seu valor e a sua utilidade social, até mesmo para assegurar os recursos básicos para a continuidade das atividades que desenvolvem. Por algum motivo misterioso, tornam-se quase invisíveis as legiões de profissionais que as universidades têm formado ao longo dos anos – licenciados, bacharéis, especialistas, mestres e doutores nas mais distintas áreas do conhecimento. Também invisíveis ao grande público permanecem as muitas e importantes pesquisas que as universidades desenvolvem, bem como as incontáveis atividades de extensão que promovem e executam, com forte impacto sobre a qualidade de vida de comunidades inteiras. Aos descrentes, recomenda-se uma visita às universidades públicas e uma boa conversa com os pró-reitores, pesquisadores e extensionistas. Na UFSC, por exemplo, basta uma conversa com os professores responsáveis pelo Laboratório de Moluscos Marinhos[i], cujas sementes não só aumentaram exponencialmente a produção de moluscos no país, como transformaram a vida de inúmeras comunidades pesqueiras, retirando-as da fase primitiva da coleta e colocando-as em um patamar mais avançado de plantio e colheita. Sem desmerecer os estudos de outras instituições de pesquisa, todas essas atividades demonstram que as universidades são, por excelência, a casa da educação superior. E a educação superior precisa se sobrepor à superstição superior; precisa funcionar como o farol em todos os momentos, mas especialmente em noites de tempestade como esta que, nos dias de hoje, ameaça romper os alicerces dos lares brasileiros.


Como na estória acima, a universidade, por ser a casa da ciência, é também o farol que precisa se sobrepor à arrogância, à intimidação, à presunção, à ignorância do capitão, tenha ele o nome que tiver, esteja ele a serviço da rainha da Grã-Bretanha ou de quem quer que seja. Se quisermos navegar com segurança, é preciso que a ciência — resultado de pesquisa — se sobreponha à superstição — resultado de crendices. Em qualquer tempo, é fundamental que os fatos se sobreponham aos mitos, que as inferências e juízos — resultados de estudos sistemáticos, baseados em dados — se sobreponham aos palpites, aos achismos, às conclusões apressadas e à boataria descompromissada.

Só tolos, interesseiros e bajuladores do poder defenderiam a ideia de que a avaliação do chefe de plantão, mesmo que errática e caprichosa, se sobreponha aos resultados de estudos e pesquisas. Não que as pesquisas estejam sempre certas ou perfeitas e não mereçam, por vezes, reparos, mas esses reparos, se considerados necessários, devem ser feitos a partir de resultados de outros estudos e pesquisas, ou seja, devem ser feitos por outros pesquisadores, não por palpiteiros. Mesmo sem pretender ser a resposta definitiva para tudo sob o sol e sabendo de suas próprias limitações, a pesquisa, porque baseada no rigor científico, lógico e criterioso, por se apoiar em evidências, tem condições de orientar melhor a sociedade. A presunção autoritária, por outro lado, tende a ser falaciosa sempre que, ao arrepio das evidências científicas, o poder constituído é utilizado para sustentar um argumento. No primeiro caso, temos inferências fundamentadas em estudos; no segundo, temos a prepotência se apoiando em crendices, opiniões, caprichos e vaidades corroboradas por bajuladores e sicofantas que cercam a autoridade e cujo interesse não é dizer a verdade, mas agradar ao chefe. No primeiro caso, temos ciência; no segundo, temos achismo, superstição e adulação. No primeiro caso, temos cientistas; no segundo, temos políticos travestidos de cartomantes, adivinhos, videntes ou vendedores de panaceias e feijões milagrosos.


As universidades e a sociedade brasileira como um todo não estão hoje apenas diante de pontos de vista divergentes, sem consequência sobre a vida das pessoas. Ao contrário, estão diante de constatações e crendices que geram narrativas muito distintas, com orientações contraditórias e, mesmo, antagônicas – orientações que iludem e confundem o grande público, como bem ilustra o comportamento brasileiro diante da atual pandemia do coronavírus.

Convém recordar, por exemplo, que as autoridades científicas mundiais e brasileiras, formadas pelas melhores universidades, têm afirmado que o vírus é altamente contagioso e que a sua transmissão se dá por meio da exposição a gotículas respiratórias que contenham o vírus. As infecções, afirmam, ocorrem (1) a partir do contato direto (por exemplo, um aperto de mão com pessoa infectada ou contato com superfície contaminada); (2) por exposição às gotículas respiratórias exaladas e que contenham o vírus e (3) por via aérea (por exemplo, quando há contato com gotículas suspensas no ar em ambientes que contenham o vírus). Diante disso e na ausência de vacinas, os epidemiologistas, infectologistas e profissionais da saúde, formados pelas melhores universidades, têm sido incansáveis em esclarecer que, para reduzir a disseminação do vírus, intervenções eficazes são: (1) o distanciamento social; (2) o uso de máscaras; (3) a higienização frequente das mãos e (4) a limpeza e a desinfecção de superfícies. Recomendam ainda que, para reduzir a concentração de gotículas suspensas portadoras do vírus infeccioso, se evite aglomerações. São constatações e recomendações vindas não de bruxos ou benzedores, mas de pessoas dedicadas às especialidades médicas que tratam das questões de doenças em coletividades humanas, entre elas as epidemias e pandemias, propondo medidas concretas para preveni-las, controlá-las ou erradicá-las Essa é a narrativa da ciência, da universidade, do farol.


A outra narrativa, a do capitão do navio, é completamente diferente. As declarações e atitudes da maior autoridade política brasileira, o presidente da República, são emblemáticas dessa narrativa. O presidente não só tem negado sistematicamente os riscos do vírus e o valor das conclusões científicas, mas tem feito ouvidos moucos aos gritos de dor diante da morte de milhares de seres humanos — gritos que puderam ser ouvidos e sentidos pela comunidade planetária ao longo de todo o ano de 2020 e que continuam a reverberar em nossos corações nestes primeiros meses de 2021, quando o país se aproxima de 300 mil mortos pela covid-19.

Mesmo diante dos milhares de mortes mundo afora, mesmo diante de escolas fechadas, cancelamentos de atividades esportivas, adiamento dos jogos olímpicos, mesmo diante da imagens, exibidas em todas as mídias, dos macabros comboios de caminhões do exército italiano pelas ruas de Bérgamo, apinhados de mortos, mesmo diante da crise dos sistemas de saúde, entrando em colapso pela total incapacidade de atender a tantos casos de doenças pulmonares graves, essa autoridade política arvora-se no direito de negar as evidências. Na narrativa personalista que construiu para si e seus sequazes, “está superdimensionado o poder destruidor desse vírus”, pois trata-se de “uma gripezinha” que não mata ninguém. Além disso, a sua conclusão, nada científica e, pior, ofensiva ao povo brasileiro, é que estamos protegidos, pois, “brasileiro pula em esgoto e não acontece nada”. Mais tarde, já questionado sobre qual seria o número de brasileiros mortos, diz que não conta os mortos porque não é coveiro e que não há o que possa fazer: “Eu não sou coveiro”. “E daí, quer que eu faça o que?”. Ainda insistindo em não reconhecer a gravidade da doença, tem se recusado a adotar os procedimentos recomendados pelas autoridades científicas e, por incrível que possa parecer, pelo seu próprio ministro da Saúde. Ao insinuar que as autoridades científicas e médicas estariam contaminadas pela ideologia esquerdista da Organização Mundial da Saúde, propõe que também o tratamento deva ser ideologizado. Assim, sarcasticamente, recomenda: "Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, Tubaína”. Quando as mortes passaram a somar mais de 31 mil, como consolo a quem perdeu um familiar, o que ele tem a dizer sobre o tal poder “superdimensionado” do vírus é isto: “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”. E, assim, já que também a morte precoce se tornou inevitável, o presidente, mesmo quando o país já superava a casa dos 162 mil mortos, continuava a promover aglomerações, a não utilizar máscara e, pior, a debochar dos que, ao contrário de suas atitudes negacionistas, insistiam em seguir os protocolos sugeridos pela ciência. “Temos que deixar de ser um país de maricas”, sentenciou. E, enquanto os cientistas mundo afora se empenhavam na busca da vacina que poderia tirar a população do mundo do caminho da morte, o presidente, diante de um país com mais de 180 mil mortes, lançava dúvidas sobre a sua validade e segurança: “Se tomar vacina e virar jacaré não tenho nada a ver com isso”. Ao atingir 230.000 mortes, portanto, bem acima das 800 mortes que ele (também péssimo vidente!) havia previsto no início da pandemia, o presidente declarava mais uma vez que o vírus foi potencializado pela mídia e que não podia fazer nada, dessa vez não porque não queria, mas porque “O Brasil está quebrado”. E assim tem sido e continuará sendo: nada é feito pela autoridade maior do país além de tentar desqualificar e, mesmo, sabotar o trabalho de governadores e prefeitos que tentam seguir as orientações das autoridades científicas. Lamentavelmente, milhares de brasileiros continuarão a ter suas vidas precocemente ceifadas pela covid-19, enquanto o "Chega de frescura, de mimimi” do presidente negacionista se chocar com as orientações dos cientistas, enquanto o navio da ignorância se chocar com o farol da ciência.


Por tudo isso, a universidade – essa instituição milenar que tem o conhecimento como seu objeto de trabalho – não pode e não deve abdicar de seu papel de farol, em especial nestes tempos negacionistas. A universidade de verdade não pode aceitar que a postagem avalizada por bolhas das mídias sociais espezinhe estudos publicados em periódicos indexados, com referees, ou que o histórico de atleta de um indivíduo se sobreponha às conclusões de estudos científicos para determinar o grau de contágio e a gravidade de uma doença. Em suma, é o farol que deve orientar o capitão e não o contrário. Se aceitarmos que, em noite de tempestade, o capitão, que navega às escuras e sequer sabe onde está, oriente o farol, estaremos aceitando o caminho do desastre. Para evitar que o desastre de hoje adquira proporções apocalípticas, a verdade deve vencer a mentira e o fato deve desbancar o mito.


[i] “Há pouco mais de duas décadas que a UFSC, através do LMM, e a Epagri desenvolveram, conjuntamente com os pescadores artesanais, uma forma alternativa não extrativista de sobrevivência: o cultivo de moluscos marinhos. Foram programas e iniciativas que fizeram de Santa Catarina o maior produtor nacional de moluscos bivalves marinhos, gerando emprego, renda e resultados sociais percebidos na melhoria da qualidade de vida e na fixação de comunidades tradicionais nas regiões litorâneas, atuando como um importante mecanismo de contenção e reversão de fluxos migratórios” (https://lmm.ufsc.br/).


* * *

Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.