• César Steffen

O dilema da câmera desligada



Hoje o artigo vai tratar de uma experiência que, junto com outras, futuramente talvez renda um livro, que imagino chamar “Histórias de professores na pandemia”. Só não me pergunte qual será o gênero…


Como professor já vi e vivi experiências as mais diversas, mas a pandemia tem aumentado o repertório. Vou narrar aqui algumas que tratam do desafio que surge pela distância física e os subterfúgios permitidos. Uma é pessoal, outra, de colegas. Darei foco somente nestas duas por serem mais ilustrativas, mas confesso que teria mais de uma dezena para compartilhar, se assim fosse o interesse e houvesse espaço.


Recentemente tivemos a oportunidade de integrar um evento local com tema afeito a uma das minhas disciplinas. Nomes de peso da área, temas interessantes, cases de empresas renomadas apresentados por seus gestores. Tudo para ser algo importante e de destaque na formação dos alunos, como realmente foi.


O coordenador negociou, tudo acertado, três aulas antes comecei a informar e a passar detalhes para os alunos. Ajustado o cronograma, todos alinhados, no dia me conectei às palestras, mas também fiquei ligado no AVA (ambiente virtual de aprendizagem) em paralelo, para dar suporte aos alunos com algum problema de última hora.


Qual a minha surpresa quando, 10 minutos depois do horário de início das atividades, uma aluna me chama no chat. Ela não sabia o que estava acontecendo, onde estavam os colegas, onde andava a aula. Informei o que estava se passando e perguntei onde ela andava nas aulas em que informei o que ia acontecer e havia falado mais de uma vez por aula. Ela me respondeu um tanto constrangida: “kkkk, eu devia estar dormindo.” Ou seja, provavelmente logou nas aulas para ter presença, mas nada de ouvir, participar nem saber o que estava acontecendo. Fico curioso em ver as notas em breve, claro.


Zero


Um colega de outra IES me contou sua experiência. Na aula anterior à prova, ele fez uma revisão, usando para isso um banco de questões a que ele ia respondendo e debatendo com a turma. Então, selecionou metade das questões da prova desse banco usado na revisão, imaginando estar “dando uma força pra ninguém tirar zero”, pois, sendo as mesmas questões, os alunos teriam a chance de ter pelo menos 50% da nota, ele imaginou.


Resultado: os alunos que participam e interagem ativamente, a minoria, obtiveram notas excelentes. A maioria ficou com notas abaixo dos 50%, e vários terminaram com a prova zerada. Ou seja, estavam fora da aula. Conectados ao ambiente, “presentes” na chamada, mas ausentes na prática. E a prova mostrou isso claramente.


Como disse, teria aqui mais de uma dezena de casos semelhantes ou assemelhados para contar, mas temo ficar repetitivo e muito extenso. A realidade é que não há ainda, na EAD e no ensino remoto, instrumentos efetivos que garantam a participação, a presença do aluno. Logar e ir jogar, acessar o Facebook ou mesmo ficar logado no celular enquanto se está num bar, por exemplo, é fácil.


Já fiquei sabendo de turma trocando respostas de prova EAD pelo WhatsApp. Assim como também já vi alunos baixando a aula e disponibilizando para colegas com problemas de acesso. Nem tudo é negativo, mas é preciso desenvolver formas de controlar a presença em aula, especialmente no ensino remoto. Mas isso gera outra questão.


Tenho uma aluna que participa ativamente, debate, pergunta no chat e por áudio. Muito presente e colaborativa. Mas ela se recusa a ligar a câmera nas aulas. Diz que está em casa e não quer se expor. E, nesse caso, penso ser um direito dela esta escolha, e não poderia, nem eu nem a IES, obrigá-la a fazer diferente. Pelo menos é o que entendo. Mas, então, como estabelecer uma regra, um ponto de corte ou uma forma de evitar que isso não vire desculpa para falhas e “matação” de aula?


Nos dois casos acima, temos bons exemplos. Outra prática é construir as perguntas de prova com detalhes explicados em aula, mas que não estejam explícitos nas lâminas ou nos materiais da disciplina. A metodologia de questões do ENADE ajuda bastante nesse caso.


Essas práticas são válidas? Sim, não tenho dúvida de que são uma ótima forma de separar o joio do trigo, de verificar e identificar quem está realmente atento e participativo e quem está só querendo presença na chamada.


Aeroporto


Existem situações ímpares que nos levam a improvisos? Sim, sem dúvida. Já ministrei aula EAD do aeroporto, devido a um voo atrasado. Já mediei chat de tira-dúvidas de dentro da Feira do Livro de Porto Alegre, quando lancei um dos meus primeiros. Já ministrei aula pelo celular, sentado no gramado de um centro de eventos onde participava de um congresso. Mas estas são situações extras, ímpares, exceções à regra. E todas com conhecimento e autorização da coordenação, dos meus superiores.


Também, como narrei em outro artigo, já fiz uma prova de um curso em que a câmera e o microfone ficaram ligados o tempo todo, e qualquer ausência ou alteração geraria anulação. Mas nem mesmo isso garante que o aluno esteja ali realmente, de “corpo presente”, fechado e centrado sobre o que acontece na aula.


O que precisamos é de formas que garantam não exatamente a presença, mas a interação, o contato do aluno com os conteúdos, com os colegas e com o professor. Que minimizem a dispersão e maximizem as oportunidades de contato e de troca. Em resumo, que despertem o interesse do aluno.


Tudo indica que seguiremos no remoto em 2021. É preciso aprender com este ano de 2020 cheio de improvisos e aplicar novas formas de fazer a educação acontecer cada vez melhor.


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César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.