• César Steffen

O dia em que passei por desinformado

Atualizado: Ago 18


Foto: Reprodução.

Já comentei aqui, em outros artigos, que tenho um filho do coração – ou enteado, se preferirem – de 7 anos, que está na primeira série da escola, sendo alfabetizado e aprendendo, mesmo que pela EAD, o que é estudar e conviver com colegas, aulas, atividades e mais.


O convívio com ele, nesta época de alfabetização, tem me trazido experiências desafiadoras e enriquecedoras, que têm me ajudado a pensar muito no papel e nos formatos da educação, do ensino, das escolas e instituições de ensino frente ao novo ambiente social, às novas tecnologias e à facilidade de acesso ao conhecimento.


Como já falei, sou entusiasta da ideia da sala de aula invertida, das metodologias ativas. E é sobre isso que quero escrever hoje.


Pombas


Estávamos eu e ele conversando um dia desses sobre bichos, natureza, predadores e presas. Aquelas conversas provocadas pela TV que envolvem curiosidades e sempre nos levam a expor um pouco de nosso conhecimento e a ajudá-lo a compreender melhor o mundo.


Conversa vai, conversa vem, ouço dele: “Pomba dá leite.”


Impactado, corrijo imediatamente: "Não, pomba não dá leite, é uma ave, não um mamífero."


Ele insiste: “Pomba dá leite pros filhotes.”


Eu, do alto dos meus 48 anos de 'sabedoria', corrijo novamente. Não seria possível pombos darem leite, pois são aves e não têm os órgãos de que precisam para dar leite.


Ele, como boa criança, começou a ficar magoado, por eu estar duvidando dele. Então, para resolver o assunto, peguei o tablet (dele) e fiz uma pesquisa no Google com a frase 'pomba dá leite'.


Bingo, lá estava a informação de que algumas raças de pombo regurgitam o alimento semidigerido no ninho para alimentar os filhotes. E esse alimento tem aparência branca e pastosa, assemelhada ao leite ou à coalhada. Por isso que se fala que essas raças de pombos e outras aves dão leite, o chamado 'leite do papo'.


Ponto pro guri de 7 anos, e meus 48 anos de 'sabedoria' ficaram com a cara no chão, pois confesso que nunca tinha ouvido falar nisso.


Parabenizei-o e perguntei onde ele tinha visto a informação. Ele me disse que em um desenho de que ele gostava muito na Netflix. Chama-se 'Aventuras com os Kratts', um desenho em que dois irmãos e uma equipe protegem os animais de vilões e se envolvem em muitas confusões e desafios, passando muitas informações sobre o animal, o ambiente e mais, mostrando e ensinando – e uso essa palavra aqui sem medo – tudo o que podem sobre eles.

Pedi, e ele me mostrou o tal episódio desse desenho na Netflix. Paramos para assistir. Daí aprendi também que o texugo é considerado o animal mais feroz da savana africana, não o leão. Vi muitas informações sobre a migração da borboleta-monarca na América do Norte. Fomos até o Polo Norte ver a rotina dos ursos polares. Até precisar parar para fazer outras coisas, depois de quase duas horas só assistindo a desenhos animados ;-).


Conteúdo digno de um National Geographic ou Discovery, mas com uma roupagem que conquista a criança e até o adulto – sim, virei fã. E passando muita informação e conhecimento de uma forma lúdica, divertida, até mesmo emocionante.


No meio de tudo isso, penso: graças a essa conversa, aprendi sobre os animais e, principalmente, sobre o poder das mídias em educar, sem perder sua característica de mídia.


Mundo e sala de aula


Que desafio, para um professor, receber em sala de aula um pequeno que já vem com tantas informações e um conhecimento variado do mundo. Sim, pois ele já aprendeu coisas nos desenhos, nos joguinhos do tablet, no videogame e também nos gibis e livrinhos de historinhas que lemos para ele todas as noites. Já viajou dentro do Brasil e para o exterior. E conhece algumas coisas bem diferentes que eu mesmo não sabia.


Novamente percebo a importância de deixar que o aluno traga seu conhecimento e o aplique, para aprender mais com o outro, com a turma, com o professor. Certamente não só o aluno, mas os professores e o ambiente escolar ganham muito com isso.


* * *

César Steffen é doutor em comunicação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e criador da EAD sem Mistérios, plataforma que oferece cursos de formação em educação a distância para professores e gestores. Pesquisador nas áreas de comunicação, design e marketing, leciona em cursos de graduação e pós-graduação há mais de 15 anos. Atua também como avaliador do ensino superior brasileiro, integrando o Banco de Avaliadores (BASis) do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) do Ministério da Educação. É autor dos livros Midiocracia: a nova face das democracias contemporâneas e Tecnologia pra quê? − Volumes 1 e 2.

O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.

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