• Dilvo Ristoff

O bom mestre e o trovão


Foto: Eugene Triguba / Unsplash

Todos os homens estão parcialmente sepultados nos costumes.


A vida de um homem deveria ser constantemente renovada, como esse rio. Deveria ser o mesmo leito, mas com água nova a cada instante.

– H. D. Thoreau – A Week on the Concord and Merrimack Rivers.

Nestes dias de pandemia, não sei bem por que (talvez por causa da profusão de pastores e curandeiros à nossa volta, receitando remédios milagrosos para os males que nos afligem!), me lembrei da Madame Sosostris, aquela que pegou um resfriado incurável, mas que, mesmo assim, segundo o poeta T. S. Eliot, era considerada, com seu maldito baralho de cartas, a mais famosa vidente da Europa.


E, por causa da Madame, me lembrei também da Sibila, aquela profetisa que cedeu a virgindade a Apolo em troca de anos de vida equivalentes ao número de grãos de areia que segurava em suas mãos. Agraciada com uma vida de mais de mil anos, queria morrer, pois, após recusar-se a continuar cedendo aos desejos de Apolo, este teria permitido que seu corpo envelhecesse. Sibila simplesmente se esquecera de pedir também boa saúde e eterna juventude e por isso seu corpo foi envelhecendo e definhando até tornar-se apenas uma voz. Ao tornar-se do tamanho de um pássaro foi posta numa gaiola. Quando ficou do tamanho de um invisível grão de areia, tornou-se objeto de diversão de meninos maravilhados diante de uma gaiola falante. Diz a lenda que a sua voz nunca envelheceu e que continuava sendo a mesma voz da garota seduzida por Apolo aos 17 anos. Como vemos, os deuses, todo-poderosos, também sabem ser cruéis e vingativos.


Eliot faz referência à Sibila na epígrafe do poema The Waste Land (Terra Árida/Inútil/Desolada). Diz a epígrafe: “Vi com meus próprios olhos a Sibila de Cumas pendurada em uma gaiola e, quando os meninos lhe perguntaram: ‘Sibila, o que você quer?’, ela respondeu: ‘Eu quero morrer’.” E aí me dei conta de que, para os que desejam morrer, abril – o mês da primavera no Hemisfério Norte – é mesmo o mês mais cruel. Para nós, cá do Hemisfério Sul, abril significa setembro, o mês que lembra vida e que deve ser um inferno para os necropolíticos e arautos da morte.


E, assim, porque uma coisa leva à outra, depois de pensar no Enterro dos Mortos (“muitos, nunca pensei que a morte pudesse ter destruído tantos”); nas truculências diplomáticas do Jogo de Xadrez – esta artimanha para distrair o rei enquanto a rainha está sendo seduzida pelo duque no alto da torre; no Sermão de Fogo, inspirado no sermão de Siddartha Gautama, para quem “Todas as coisas estão em chamas... Os olhos, a consciência dos olhos, os ouvidos, os sons, o nariz, os odores, a língua, os sabores, as coisas tangíveis, as memórias, as ideias estão em chamas ... E por que estão em chamas? Pelo fogo da paixão, digo eu, pelo fogo do ódio ... da morte, da tristeza, da lamentação, da miséria e do desespero ...”; na Morte pela Água (E a árvore morta não dá abrigo, o grilo não dá sossego e a pedra seca não dá sinal de água), acabei me lembrando de O que Disse o Trovão.


Para quem não leu ou não se lembra, a quinta parte do poema The Wasteland leva o título de O que Disse o Trovão. Confesso que, desde que li o poema pela primeira vez, há muitos anos, ainda na graduação, nunca mais esqueci do DA, Datta, Dayadhvam, Damyata, Shantih, Shantih, Shantih – as estranhas palavras que fecham esse longo poema.


Apesar das inúmeras notas de rodapé que acompanham o texto, nunca entendi direito o motivo que levou Eliot a terminar o que para mim é a sua obra-prima com essas palavras da tradição hindu. Ainda hoje não sei, mas devo confessar que a estória de Prajapati, esse mágico Mestre que falava sânscrito e através do trovão me encanta e intriga.

A estória à qual Eliot se refere conta que os discípulos do Mestre Prajapati eram divindades, demônios e humanos. Diz a lenda que no dia da formatura, na hora da partida, os seus discípulos vieram lhe pedir uma última palavra de sabedoria – algo que pudessem levar consigo pelo resto de suas vidas. Prajapati, então, tomou um grande fôlego e bradou, através do trovão, um retumbante “DA”.


Ao terminar o seu lacônico discurso – o menor que se pode produzir, pois tem apenas uma sílaba –, Prajapati voltou-se aos seus discípulos e, como um bom mestre, perguntou-lhes o que havia dito.


Como ele tinha três tipos de discípulos, ele obteve três tipos de respostas. As divindades disseram que DA significava DAMYATA; os demônios afirmaram que DA significava DAYADHVAM; e os humanos garantiram que DA significava DATTA. Traduzindo: as divindades disseram que DA significava CONTROLE-SE; os demônios disseram que DA significava TENHA COMPAIXÃO; e os humanos disseram que DA significava ENTREGUE-SE.


— Muito bem — avaliou Prajapati, ao final. — Muito bem! Vocês entenderam!


Prajapati, portanto, avaliou que a sua “aula” foi bem-sucedida, pois os seus discípulos, ao levarem o seu ruído para o âmbito de suas gramáticas pessoais, o transformaram em palavra, em significado e, mais, descobriram algo importante. É que os discípulos encontraram em seu ruído aquilo que lhes faltava: às poderosas divindades faltava a capacidade de controlar o próprio poder; aos demônios faltava a capacidade de compadecer-se; e aos humanos faltava a capacidade de dar-se, de entregar-se.


Ou seja, o Professor Prajapati considerou a sua última aula um sucesso não porque disse tudo ou esclareceu tudo aos seus discípulos, mas simplesmente porque, ao insinuar e sugerir, conseguiu levá-los a pensar e a inferir; conseguiu que não apenas reproduzissem diante dele o que ouviram, mas que dessem um passo além do DA, acrescentando, contribuindo e ressignificando; considerou a sua aula um sucesso não porque falou o que os seus discípulos queriam ouvir ou aquilo que confirmaria as suas opiniões, mas porque fez com que descobrissem, eles próprios, aquilo que lhes faltava.


Pouco provável que Eliot estivesse pensando nas qualidades de um bom professor, mas tenho dificuldade de isolar o seu virtuosismo estético de seu evidente desejo de insinuar que devemos buscar o que nos falta, sejamos nós discípulos católicos, anglicanos, luteranos, hindus, budistas ou outros. O poeta inovador, o autor de peças de teatro sobre temas religiosos, aquele que se declarou “classicista na literatura, monarquista na política e anglo-católico na religião”, sempre me pareceu complexo demais para ser reduzido a um vendedor de receitas, especialmente pela sua incansável tentativa de juntar fragmentos de todas as religiões e tradições culturais em torno de suas próprias ruínas.


Por isso mesmo, não me surpreenderia se quisesse apenas que os hollow men (homens ocos) de seu tempo, na terra arrasada pela primeira grande guerra, descobrissem nas areias de sua praia poética o que os discípulos de Prajapati descobriram com o ruído do trovão. Afinal, o poder sem controle é uma ameaça não só às Sibilas ou à vida de cidadãos comuns, mas à humanidade; a falta de compaixão para com o sofrimento alheio, ao alimentar a ideia de que é possível ser feliz com a miséria e a infelicidade grassando à nossa volta, zomba do que a vida humana em comum deveria ser; e a incapacidade de dar-se e de entregar-se é a própria negação do amor e da solidariedade. Por tudo isso, Eliot torna-se, talvez sem querer, um bom professor, ao mostrar ao seu “hypocrite lecteur! —[son] semblable — [son] frère!” o que deve ser olhado e não o que deve ser visto, o que deve ser ouvido e não o que deve ser escutado.


Nestes tempos sombrios em que sobem os decibéis dos que querem que professores e alunos marchem todos ao ritmo do tambor do poder estabelecido, a estratégia de Prajapati soa como uma benção. Como lembrava Henry David Thoreau, "Se um homem não acompanha o ritmo de seus companheiros, talvez seja porque ele está ouvindo um percussionista diferente”. Que lhe seja assegurado o direito de pensar com a própria cabeça, de ouvir com os próprios ouvidos, de ver com os próprios olhos. Que lhe seja assegurado o direito de ousar, de afirmar a sua singularidade, de resistir ao conformismo, de ser e de pensar diferente e de constituir-se como energia criativa, original e promotora da liberdade de todos. Se as aulas de nossos mestres forem inspiradoras como o DA de Prajapati e surpreendentes como os versos do poeta, creio que nossos discípulos estarão em boas mãos.


DA, Datta, Dayadhvam, Damyata, Shantih, Shantih, Shantih!!!


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Dilvo Ristoff é especialista em avaliação e doutor em literatura pela University of Southern California, nos Estados Unidos. Foi diretor de Estatísticas e Avaliação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), diretor de Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e diretor de Políticas e Programas da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC). Foi também reitor da Universidade Federal da Fronteira Sul. É autor e coautor de inúmeros livros, entre eles, Universidade em foco − reflexões sobre a educação superior (Editora Insular, 1999), Neo-realismo e a crise da representação (Insular, 2003) e Construindo outra educação: tendências e desafios da educação superior (Insular, 2011). Atualmente ministra aulas e orienta dissertações no Programa de Mestrado em Métodos e Gestão em Avaliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


O artigo acima é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a visão do Educa 2022.