• Redação Jeduca

Novo Saeb e a reformulação do Ideb


O jornalista Antonio Gois conversou com o atual e com ex-presidentes do Inep. Foto: Reprodução/YouTube/Jeduca

Um dos pontos de atenção da cobertura de educação em 2021 será a implantação do novo Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), que institui uma série de novidades, como a aplicação de provas anuais a todos os estudantes do 2.º ano do ensino fundamental até o 3.º ano do ensino médio, além da avaliação da educação infantil a cada dois anos e o chamado Enem seriado (o uso dos resultados obtidos pelos alunos de ensino médio para ingresso na educação superior).

Esse novo arranjo do Saeb, detalhado em portaria do MEC (Ministério da Educação) neste início de janeiro, foi tema de um webinário realizado pela Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação). Participaram do evento o atual presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), Alexandre Lopes, e três ex-dirigentes do instituto: Francisco Soares (UFMG), Luiz Araújo (UnB) e Reynaldo Fernandes (USP-Ribeirão Preto).

Saeb como avaliação formativa


Segundo Alexandre Lopes, a ampliação do Saeb para todos os anos da educação básica, a partir do 2.º ano do fundamental, tem como objetivo fortalecer o papel da avaliação enquanto instrumento de indução de melhoria da aprendizagem.

Daí, defende o presidente do Inep, a relevância de se universalizar o Saeb e avaliar outras disciplinas além de língua portuguesa e matemática, como passou a ocorrer a partir da edição do Saeb em 2019, com a aplicação de provas de ciências da natureza e ciências humanas no 9.º ano do fundamental.

Ele também afirma que, neste novo formato, o Saeb passa a cumprir um papel de oferecer informações para os municípios menores, que geralmente não possuem recursos para realizar diagnósticos dos seus estudantes, como ocorre em algumas redes municipais e estaduais.

A aproximação entre família e escola também foi citada por Lopes como um dos objetivos da mudança do Saeb, na medida em que o exame vai fornecer informações para que os pais possam acompanhar mais de perto o desempenho escolar dos filhos.

Francisco Soares vê com ressalvas a proposta de ampliar o Saeb. Para ele, as avaliações externas no Brasil precisam ser mais informativas. "Mais do que informar se o estudante aprendeu ou não, precisamos saber o quê e por que a criança não aprendeu. Então quando eu coloco no Saeb 'expandir o Saeb ou aumentar a explicação', eu fico com a segunda opção", disse Soares.

Para Luiz Araújo, é preciso ficar atento ao fato de o resultado do Saeb ser usado como um instrumento para as redes de ensino obterem mais recursos do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), que futuramente distribuirá 2,5% da complementação da União a municípios que melhorarem a qualidade do ensino e da gestão.

Ele enxerga o risco de as redes municipais passarem a orientar os esforços para atingir esse objetivo, relegando a um plano secundário outros aspectos relacionados à qualidade não mensuráveis pelas avaliações externas. Diante disso, Araújo considera positiva a ampliação das áreas do conhecimento avaliadas. "Vejo com bons olhos aumentar o número de disciplinas avaliadas, porque é um antídoto contra a mensagem que vamos passar de que quem obtiver boas notas em português e matemática vai receber um prêmio em dinheiro."

Nesse sentido, a mudança do Saeb envolve alguns desafios que merecem atenção:

- A logística de aplicação das provas, já que o exame será realizado em todas as escolas públicas e privadas do país.

- Como um dos objetivos do novo Saeb é garantir que os resultados sejam usados para subsidiar atividades didáticas, com foco na melhoria da aprendizagem, é preciso ter clareza sobre a estratégia do Inep para garantir que eles cheguem às mãos dos gestores e professores antes do início do ano letivo seguinte.

- Vale aprofundar um tema debatido no webinário: cabe ao Inep, responsável por uma avaliação externa de larga escala, ocupar-se, num nível tão específico, com a aprendizagem dos estudantes?

Ideb em reformulação


O Ideb (índice de Desenvolvimento da Educação Básica), implementado em 2007, fecha seu ciclo de metas em 2021. Por isso, um grupo de especialistas coordenado pelo Inep está discutindo a reformulação do indicador.

Entre os pontos que merecem atenção está o debate sobre a necessidade de incluir, no Ideb, elementos que permitam medir as desigualdades, aspecto enfatizado por Soares e Araújo.


No entanto, essa questão envolve a definição do que se pretende medir e que tipo de finalidade se espera do indicador, como observou Reynaldo Fernandes. Para ele, um indicador necessariamente implica algum tipo de recorte da realidade, por isso não é possível que contenha todo tipo de informação. "Precisamos definir se vamos querer refazer o sistema de metas, se a função do Ideb vai continuar sendo a de ancorar um sistema de metas e quais ajustes vamos ter que fazer", afirmou Fernandes.


Confira aqui o webinário.